Philosophy of Language
14 de Janeiro de 2006 ⋅ Filosofia da linguagem

Palavras

Desidério Murcho
The Philosophy of Language, org. por A.P. Martinich
Oxford: Oxford University Press, 2000, 608 pp.
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Aloysius P. Martinich é professor de filosofia da religião e filosofia da linguagem na prestigiada universidade do Texas em Austin (EUA) e autor de diversos livros muito conhecidos dos estudantes e especialistas. Publicou o precioso Philosophical Writing: An Introduction (Blackwell), que ensina os estudantes a escrever ensaios filosóficos; uma biografia muito lida de Hobbes (Cambridge); e mais recentemente uma introdução ao pensamento deste filósofo (Routledge). Mas na área da filosofia da linguagem é conhecido por ter organizado este volume para a Oxford. Pela sua organização e informativas mas despretensiosas introduções aos ensaios seleccionados, este volume rapidamente se tornou a bíblia da filosofia da linguagem. E é pena que não esteja cuidadosamente traduzida por uma boa editora académica portuguesa.

A filosofia da linguagem ocupa-se de problemas que por vezes são mal compreendidos. O problema da referência dos nomes próprios, por exemplo, não é o problema de saber o que referem os nomes, mas antes como referem. Que os nomes "Lisboa" e "Aristóteles" designam Lisboa e Aristóteles é óbvio; o problema é saber como designam essas palavras o que designam. Qual é o "mecanismo" da referência? Analogamente, todos sabíamos antes de Newton que os objectos caíam — mas não sabíamos exactamente como caíam. Sobre este problema, Bertrand Russell e Gottlob Frege escreveram ensaios hoje clássicos e evidentemente presentes nesta antologia. Contudo, as ideias destes ensaios são hoje muitíssimo disputadas, nomeadamente devido aos argumentos demolidores de Saul Kripke e outros filósofos, apresentados na década de 70 do passado século.

Contudo, o problema da referência é apenas um dos problemas da filosofia da linguagem, de que se ocupa a parte III e IV da presente antologia, com ensaios de P. F. Strawson, Keith Donnellan, John Searle, John Perry, Stuart Mill, Gareth Evans, David Kaplan e Hilary Putnam, além dos referidos Russell, Frege e Kripke. As partes I e II são dedicadas ao problema da verdade e do significado e aos actos de fala, com ensaios de Carl Hempel, W. V. O. Quine, Alonzo Church, Alfred Tarksi, Paul Grice, Donald Davidson e J. L. Austin, entre outros. A parte V é dedicada aos problemas levantados pelas atitudes proposicionais (atitudes que têm proposições por objecto, como a crença de que Lisboa é bonita), e apresenta ensaios de Jon Barwise e Perry, Quine, Davidson, Kaplan e Kripke. As partes VI e VII são dedicadas ao problema da metáfora e da interpretação (e tradução), com ensaios de Davidson, Martinich, Quine e Searle. A última parte da antologia é dedicada ao problema geral da natureza da linguagem, com ensaios de John Locke, John Cook, Kripke, Ruth Millikan, David Lewis e Noam Chomsky.

Esta antologia torna manifesto que o debate entre filósofos é vivo e constante. As teorias mais influentes, defendidas pelos fundadores da disciplina (Russell e Frege), são criticamente avaliadas pelos seus pares, tanto contemporâneos como posteriores. O trabalho filosófico não consiste em repetir diligentemente as teorias dos Mestres, numa atitude exegética estéril e servil, mas antes em levantar objecções e contra-exemplos, em propor teorias alternativas mais sofisticadas e com maior poder explicativo. Esta antologia ajuda o leitor a fazer precisamente isto.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (1 de Outubro de 2005)
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