Por Que Escrevo e Outros Ensaios
27 de Fevereiro de 2011 ⋅ Opinião

Linguagem religiosa

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

Há algumas semanas, uma leitora católica do Tribune escreveu para protestar contra uma recensão do Sr. Charles Hamblett. Objectava aos seus comentários sobre a Santa Teresa e sobre S. José de Cupertino, o santo que uma vez voou à volta de uma catedral com um bispo às costas. Respondi defendendo o Sr. Hamblett, e recebi em resposta uma carta ainda mais indignada. Esta carta levanta várias questões muito importantes, e pelo menos uma delas parece-me que merece discussão. A relevância de santos voadores para o movimento socialista pode não ser muito clara à primeira vista, mas penso poder mostrar que o actual estado nebuloso da doutrina cristã tem implicações sérias que nem os cristãos nem os socialistas enfrentaram.

A substância da carta da minha correspondente é que não interessa se a Santa Teresa e os outros santos voaram pelos ares ou não: o que interessa é que a visão do mundo de Santa Teresa “mudou o curso da história”. Concedo. Tendo vivido num país oriental, desenvolvi uma certa indiferença aos milagres, e sei muito bem que sofrer ilusões, ou mesmo ser um lunático completo, é perfeitamente compatível com o que se chama vagamente a genialidade. William Blake, por exemplo, era na minha opinião um lunático. A Joana d’Arc era provavelmente uma lunática. Newton acreditava na astrologia, Strindberg acreditava na magia. Contudo, os milagres dos santos são uma questão menor. Fazendo fé na carta da minha correspondente, também parece que mesmo as doutrinas mais centrais da religião cristã não têm de ser aceites em qualquer acepção literal. Não interessa, por exemplo, se Jesus Cristo alguma vez existiu. “A figura de Cristo (mito, ou homem, ou deus, não interessa) transcende de tal modo tudo o resto que mais não quero senão que toda a gente olhe com atenção, antes de rejeitar essa versão da vida.” Cristo pode, portanto, ser um mito, ou pode ter sido apenas um ser humano, ou a versão dele dada no Credo pode ser verdadeira. Chegamos assim a esta posição: o Tribune não deve fazer pouco da religião cristã, mas a existência de Cristo, que pessoas sem conta foram queimadas por a negarem, é uma questão que não faz diferença.

Ora bem, será isto doutrina católica ortodoxa? A minha impressão é que não é. Lembro-me de passagens nos escritos de apologistas católicos populares, como o Padre Woodlock e o Padre Ronald Knox, em que se afirma nos termos mais claros que a doutrina cristã quer dizer o que parece querer dizer, e não é para aceitar num qualquer sentido metafórico desenxabido. O Padre Knox refere especificamente que a ideia de que não interessa se Cristo existiu realmente é “horrível”. Mas o que a minha correspondente afirma teria eco em muitos intelectuais católicos. Se falarmos com um cristão ponderado, católico ou anglicano, damos connosco muitas vezes a ser objecto de chacota por sermos tão ignorantes que supomos que alguma vez alguém tomou as doutrinas da Igreja no seu sentido literal. Dizem-nos que estas doutrinas têm um significado muito diferente, que somos demasiado primários para compreender. A imortalidade da alma não quer dizer que John Smith permanecerá consciente depois de morrer. A ressurreição do corpo não significa que o corpo de John Smith será efectivamente ressurrecto — e por aí fora, sem parar. Assim, o intelectual católico consegue, para enfrentar controvérsias, entrar numa espécie de jogo de prestidigitação, repetindo os artigos do Credo exactamente nos mesmos termos que os seus antepassados, ao mesmo tempo que se defende da acusação de superstição explicando que está a falar por parábolas. Em substância, o que ele defende é que apesar de ele próprio não acreditar, de qualquer modo claro, na vida depois da morte, não houve qualquer mudança na crença cristã, dado que os nossos antepassados também não acreditavam realmente nisso. Entrementes, obscurece-se um facto vitalmente importante — que se derrubou um dos adereços da civilização ocidental.

Não sei se, oficialmente, houve qualquer alteração à doutrina cristã. O Padre Knox e a minha correspondente parecem discordar neste ponto. Mas o que sei é que a crença na sobrevivência depois da morte — a sobrevivência individual de John Smith, com consciência de si como John Smith — é muitíssimo menos comum do que era. Mesmo entre cristãos professos está provavelmente em declínio; as outras pessoas, em regra, nem sequer consideram a possibilidade de que possa ser verdadeira. Mas os nossos antepassados, tanto quanto sabemos, acreditavam nisso. A não ser que tudo o que escreveram sobre isso fosse com a intenção de nos enganar, acreditavam nisso de um modo extremamente literal e concreto. A vida na Terra, tal como a viam, era simplesmente um pequeno período de preparação para uma vida infinitamente mais importante para lá do túmulo. Mas essa noção desapareceu, ou está a desaparecer, e ainda não se enfrentou realmente as consequências disso.

A civilização ocidental, ao contrário de algumas civilizações orientais, foi fundada em parte sobre a crença na imortalidade individual. Se olharmos para a religião cristã a partir do exterior, esta crença parece muitíssimo mais importante do que a crença em Deus. É muito difícil separar dela a concepção ocidental de bem e de mal. Poucas dúvidas restam de que o culto moderno de veneração do poder está ligado ao sentimento do homem moderno de que a vida aqui e agora é a única que há. Se a morte acaba com tudo, torna-se muito mais difícil acreditar que podemos ter razão ainda que sejamos derrotados. Estadistas, nações, teorias, causas são ajuizadas quase inevitavelmente pelo teste do sucesso material. Supondo que é possível separar os dois fenómenos, eu diria que o declínio da crença na imortalidade pessoal tem sido tão importante quanto a ascendência da civilização da máquina. A civilização da máquina tem possibilidades terríveis, como provavelmente reparou na outra noite quando as baterias antiaéreas começaram; mas o outro fenómeno também tem possibilidades terríveis, e não se pode dizer que o movimento socialista lhe tenha prestado muita atenção.

Não quero que a crença na vida depois da morte regresse, e em qualquer caso não é provável que regresse. O que faço notar é que o seu desaparecimento deixou um grande buraco, e temos de dar atenção a isso. Criado durante milhares de anos sob a noção de que o indivíduo sobrevive, o homem tem de fazer um esforço psicológico considerável para se habituar à noção de que o indivíduo perece. Não é provável que o homem salve a civilização a não ser que possa desenvolver um sistema de bem e mal que seja independente do céu e do inferno. O marxismo, de facto, fornece isto, mas nunca foi realmente popularizado. A maior parte dos socialistas limitam-se a observar que, uma vez estabelecido o socialismo, seremos felizes num sentido material, e presumem que todos os problemas desaparecem quando temos a barriga cheia. Mas a verdade é o oposto: quando temos a barriga vazia, o nosso único problema é a barriga vazia. É quando nos afastarmos da servidão e da exploração que começaremos realmente a fazer perguntas quanto ao destino do homem e quanto à razão da sua existência. Não podemos ter qualquer imagem de valor do futuro a não ser que tomemos consciência de quanto perdemos com o declínio do cristianismo. Poucos socialistas parecem ter consciência disto. E os intelectuais católicos que se agarram à letra dos Credos, ao mesmo tempo que lêem neles significados que nunca se pretendeu que tivessem, e que se riem desdenhosamente de qualquer pessoa suficientemente simplista para pensar que os Padres da Igreja queriam dizer o que disseram, mais não fazem do que erguer cortinas de fumo para esconder de si mesmos a sua própria descrença.

George Orwell

Publicado originalmente em Tribune (Março de 1944), sem título. Tradução portuguesa publicada em Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Lisboa: Antígona, 2008)
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