Looking for Enid
23 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Literatura, aventura e mentira

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Uma nova biografia de Enid Blyton (1897-1968), da autoria de Duncan McLaren (Looking for Enid, 2007), trinta e três anos depois da de Barbara Stoney (Enid Blyton: The Biography, 1974), reavivou o interesse nesta autora de livros infantis e juvenis, que parece ter culminado numa produção televisiva britânica de 2009, Enid, sob a direcção de James Hawes. Não vi a série televisiva, mas o artigo de Amy Rosenberg (“Notes From a Small Island”, The National, 17/12/2009), ainda que simpático, dá voz à vontade generalizada de apanhar Blyton em falso — não no sentido pessoal, dado isso ser trivial porque ninguém é santo, mas nos seus livros.

As acusações são de dois tipos. Que Blyton tinha ideias politicamente incorrectas, detectáveis nos seus livros, que por isso devem ser banidos; ou que construiu um mundo de fantasia que ignora os problemas reais do mundo, alienando por isso os jovens leitores. Note-se que as duas acusações são dificilmente conciliáveis: se nos livros de Blyton se detectam ideias politicamente incorrectas, então não é inteiramente verdade que são pura fantasia escapista.

Em qualquer caso, as acusações parecem-me insustentáveis. Em primeiro lugar, porque quase toda a gente tem ideias politicamente incorrectas, seja em que época histórica for, se os lermos décadas depois. Raras são as pessoas que conseguem libertar-se das palermices do seu tempo e reconsiderar todas as suas ideias, analisando-as cuidadosamente para ver se serão meras palermices sem sustentação. Em segundo lugar, porque nos livros de Enid Blyton — na série os Cinco, nomeadamente — o que surge é um mundo de aventuras e diversão, contra o pano do fundo dos valores da época. Alguns dos quais são bastante sensatos e deveriam ser os valores de hoje, mas infelizmente não são: honestidade, simpatia, alegria. Estão também lá palermices classistas, por vezes. Mas onde não estão elas hoje ainda na nossa sociedade, incluindo os mais importantes escritores contemporâneos? Na verdade, muitas das pessoas que promovem a literatura parecem fazê-lo fundamentalmente porque isso dá um certo estatuto social, e não por apreciarem de facto a literatura que dizem ler — afinal, nunca falam dela, apenas a mencionam.

Há qualquer coisa de doentio em não conseguir ver o que há de valor nos livros de Enid Blyton. Ou nos melhores livros de Jules Verne (1828-1905), como A Ilha Misteriosa. O que há de valor é um tipo de narrativa cujo centro não é as palermices humanas — mesquinhices emocionais, políticas, sexuais, religiosas — mas antes a aventura da descoberta da realidade. Há um descentramento nos livros de aventuras que parece difícil fazer entender a adultos que carecem de curiosidade intelectual. Adultos cujas vidas são dominadas pelas trivialidades da classe média — comprar uma casa, um carro, um telemóvel caro, uma televisão de plasma, uma casa de férias — ou das classes elevadas — ganhar mais e mais dinheiro e prestígio, educar os filhos nos melhores colégios para garantir que não irão descer no escadote social. Estes adultos nunca tiveram a experiência do descentramento; tudo o que conta para eles é precisamente tudo o que não conta nas melhores narrativas de aventuras de Enid Blyton e de outros escritores semelhantes. A própria literatura, para estes adultos, só tem interesse se for sobre angústias existenciais ou sobre relações sociais — e a mim parece-me que as primeiras são ridículas e as segundas simiescas.

Quem lia e relia e sonhava em criança e adolescente lendo Enid Blyton e outros escritores como ela não dava sequer importância aos aspectos sociais, políticos e ideológicos da vida. Dava importância apenas à descoberta da realidade, à aventura, à camaradagem, à decifração de mistérios. Claro que nestes livros podem estar presentes ideias indefensáveis da época. Mas o que conta é que estão muitas outras coisas presentes de valor.

Fui reler alguns livros da série Cinco, e reli também o primeiro da série Uma Aventura — para poder avaliar melhor as acusações a Enid Blyton. Fiquei surpreendido por gostar, de novo, da primeira série, mas não da segunda. Há algo de mágico que funciona no caso dos Cinco, mas não tanto no outro caso (pelo menos no primeiro livro da série). Curiosamente, o que funciona no primeiro e que de algum modo destrói o segundo é este ser demasiado realista: as personagens não são agradáveis: são embirrentas; e o seu contexto familiar é demasiado negro para se poder saborear a pura aventura. Já nos Cinco tudo corre bem; a Georgina (“Maria José,” em Portugal) é um pouquinho irritável e carrancuda, mas não o suficiente para estragar a alegria e a camaradagem. O seu pai é um cientista esquisito, mas não tão irresponsável que torne a vida das crianças um inferno. Em suma, nenhuns problemas sociais e psicológicos existem, e é assim que as coisas funcionam em livros de aventuras. Não são livros de dissecações sociais, políticas ou psicológicas. São livros de descoberta, em que as personagens têm de ser pessoas sãs, alegres, sem preocupações de maior, que se divertem descobrindo as maravilhas do mundo exterior.

O mesmo acontece em livros como A Ilha Misteriosa, de Jules Verne. Como Blyton, também Verne escreveu muitos livros que pura e simplesmente não funcionam — Os Irmãos Kipp, A Esfinge dos Gelos, O Grande Orenoco. Nos que funcionam, temos aventura em estado puro. Tome-se como exemplo a Ilha Misteriosa: um grupo de cinco homens e um cão naufragam numa ilha deserta e lá reconstituem a vida de finais do séc. XIX: fazem um telégrafo, fornos, ferramentas e até um pequeno navio. Vivem anos sozinhos na sua ilha e nenhum tem jamais um pensamento sexual, uma inveja dos colegas, uma inquietação de alma. Estes aspectos psicológicos e sociais não surgem na narrativa; e ainda bem. Isso destruir-lhe-ia a unidade, cuja personagem principal é a descoberta da realidade, a resolução de problemas práticos de sobrevivência e conforto — e não as palermices humanas do costume. As personagens têm de ser destituídas das complexidades sociais e psicológicas que por alguma estranha razão as pessoas tendem a considerar adultas, mas que me parecem ainda hoje profundamente… infantis.

O umbigo de cada um não me parece assim tão importante; nem as manipulações e canalhices sociais. Seria difícil sustentar que a literatura, para ser boa, tem de reflectir tais coisas ou reflectir sobre tais coisas. Parece-me, antes, que a literatura, para ser boa, tem de estar bem escrita. Coisa que certamente não é de esperar, e não se encontra, em Verne nem em Blyton. Se Verne e Blyton não são boa literatura não é por não ter tolices psicológicas e sociais, mas antes por não dar atenção ao modo de escrever. Apenas narra as aventuras: toda a atenção está voltada para a aventura e não para a própria escrita. Não são arte, propriamente dita, diria Collingwood, mas apenas ofício, artesanato. Pode ser; mas muito do que passa por arte é bem menos interessante.

Há um aspecto cognitivo curioso se pensarmos cuidadosamente no que faz e não faz de algo arte ou mero entretenimento. A literatura de arte, como Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar (1903-1987), ou Os Maias, de Eça de Queirós (1845-1900), são correctamente consideradas arte porque são narrativas cuidadosamente escritas: a sua forma é relevante e é em si admirável esteticamente. Podemos apreciar certas frases, certos parágrafos, desses e de outros representantes da grande literatura. Mas não é apenas isso. Há na literatura também descoberta: nestes dois casos, descobrimos aspectos da mentalidade e psicologia de povos e pessoas a que não temos acesso por via da história, mas apenas por via da imaginação dos romancistas. É aliás pela descoberta que se vê a diferença entre a grande literatura genuína e o pretensiosismo literário mal sucedido: neste último caso temos uma atenção à forma de uma narrativa que nada de interessante tem para narrar. É o equivalente da masturbação: não é a coisa mesma, falta algo de fundamental. Falta o que também os livros de aventuras têm: uma descoberta da realidade. De modo que os livros de aventuras estão talvez tão longe da literatura de arte quanto a literatura falhada. Num caso, falta a forma; no outro, o conteúdo.

Na literatura de aventuras aprende-se a ser um ser humano como os seres humanos seriam se não fossem palermas. Aprende-se a alegria da amizade e da descoberta da realidade, aprende-se a ignorar o que faz dos seres humanos seres mesquinhos e desinteressantes, social e psicologicamente. Aprende-se a ter uma atitude contrária à da maior parte das pessoas: aprende-se a ousar resolver os problemas que nos aparecem pela frente, ao invés de criar problemas que resultam de disfunções e ansiedades psicológicas e sociais.

Há já muitos anos vi um livro de ficção científica de Ben Bova numa livraria, sobre uma primeira missão a Marte. Há muito que não tinha o prazer de passar um fim-de-semana mergulhado numa aventura, e pensei que esta seria interessante. A desilusão não podia ser maior. Talvez para dar maior realismo, ou para se aproximar da literatura de arte, o autor constrói personagens mesquinhas, preocupadas com quem pisa primeiro o solo marciano e quem dorme com quem; em suma, quem é o símio mais catado. Serão personagens mais realistas, não ponho isso em dúvida. Mas esta realidade é tão desinteressante, e nada tem a ver com Marte, que parei de ler a meio, sem mais paciência para tanta palermice. Para ver palermices dessas ligo a televisão ou leio o jornal; ou observo o parlamento. O que eu queria era a aventura da descoberta de Marte, queria a descoberta de realidades imaginadas, e ele serviu-me tripas à moda do Porto frias, não se servem frias, mas ele serviu-mas frias e isso não se faz. O mesmo ocorre com quase todos os filmes de ficção científica de Hollywood: muda apenas o cenário, mas a narrativa baseia-se no mesmo género de palermices humanas que alimenta as telenovelas brasileiras ou o Big Brother televisivo.

Não se trata apenas de dar primariamente atenção à descoberta do mundo exterior. Trata-se de não dar atenção a aspectos mesquinhos, sejam eles do mundo exterior ou interior. Muito do que passa por literatura e que tanto entusiasma os intelectuais de fim-de-semana só dá atenção aos aspectos mais palermas do mundo interior: gente perdida, doentes da alma, religiosos sem deuses, pessoas que fazem um grande espavento existencial porque pensam que isso lhes dá importância social. Mas mesmo quando dá atenção ao mundo exterior, muita da literatura dá atenção apenas aos aspectos sociais e políticos mais sórdidos e desinteressantes do mundo exterior: as lutas simiescas pelo poder, a mesquinhez humana, a banalidade política e social.

Diz-se que Enid Blyton não aceitava críticas de leitores com mais de doze anos. Há sabedoria nesta atitude. Os seus leitores, se gostavam de ler as aventuras por ela imaginadas, era porque se estavam nas tintas para o que a maior parte dos adultos tanto prezam e que ela sabia não dever figurar em bons livros de aventuras. Blyton devia saber que os seus leitores acabariam inevitavelmente por descobrir que o mundo dos adultos não é feito de camaradagem, amor pela aventura da descoberta, alegria simples, resolução directa de problemas — mas antes de inveja mesquinha, complexidades psicológicas palermas e total desinteresse pelo que há de mais interessante no universo. O processo de aculturação dos adolescentes consiste em grande parte na destruição da primeira mundividência e na imposição da segunda. Muitos rendem-se ao inimigo e abandonam a alegria da descoberta, e por isso se envergonham e esquecem tudo o que foram antes dos dezoito anos. Se algo Blyton fez de incorrecto, foi não reconhecer que nem todos se rendem. Alguns, como ela mesma, continuam a não achar graça às palermices dos adultos, e a preferir o mundo da aventura da descoberta. É o meu caso.

Desidério Murcho
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