O Eduquês em Discurso Directo
9 de Outubro de 2006 ⋅ Livros

Educação para uns, jogo do pau para os outros

Desidério Murcho
O Eduquês em Discurso Directo: Uma Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista, de Nuno Crato
Lisboa: Gradiva, 2006, 132 pp.
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Ao contrário do que o título deste pequeno livro pode fazer pensar, não se trata felizmente de mais um panfleto contra o desastrosamente chamado "eduquês". É antes uma contribuição — reflectida, distanciada e séria — para um debate que geralmente é apenas panfletário. Ao longo de treze curtos capítulos, Nuno Crato expõe os fundamentos teóricos das ideias que têm marcado o sistema educativo nacional nas últimas duas décadas. Para quem trabalha em concreto no ensino, contactando com sucessivos ministérios, programas, legislações e professores, a abordagem de Nuno Crato pode parecer dar demasiada substância e seriedade teórica ao que não passa de um conjunto de medidas ministeriais avulsas, confusas e irresponsáveis. Contudo, esta impressão seria errada. Como Nuno Crato procura mostrar, os modelos educativos seguidos nos últimos anos pelos responsáveis ministeriais respondem a ideias pedagógicas perfeitamente identificáveis — e que há muito os melhores especialistas da área sabem estar erradas. Assim, é muitíssimo importante apresentar tais ideias, mostrar por que razão estão erradas, e apresentar alternativas.

Nuno Crato documenta amplamente as ideologias educativas defendidas pelos responsáveis ministeriais ao longo dos anos — responsáveis que se caracterizam pela vagueza de ideias, incapacidade para articular raciocínios explícitos, completa ignorância científica das áreas sobre as quais legislam impunemente (Matemática, Filosofia, Português, História, Física), uso ideológico do ensino (o Ministério da Educação cumpre hoje as funções do extinto Ministério da Propaganda), desconhecimento das teorias educativas actuais em ciências da educação e uso prepotente do poder ministerial. As ideologias educativas dos responsáveis ministeriais têm alguns aspectos marcantes: profundo desprezo pelo conhecimento "escolar", considerado elitista e gerador de exclusões sociais, com a consequente exclusão progressiva de conteúdos das diferentes disciplinas (da Matemática à Filosofia, da História ao Português); ênfase na motivação mentecapta dos estudantes (tudo serve para animar a malta: brincadeiras, CD-ROM, visitas de "estudo", etc.) e na ideia de que o estudante cria o seu próprio currículo e reconstitui por si, em doze anos de escolaridade, as descobertas que à humanidade custaram séculos de esforço colegial constante; aversão à avaliação externa (os exames nacionais, depois de reintroduzidos pelo ministro David Justino, são novamente desvalorizados, cuidadosamente e pela calada, pelo novo ministério que de socrático só tem o nome).

O aspecto fundamental que explica o estado actual de coisas é exposto por Nuno Crato ao citar Ana Benavente:

"Os modelos escolares dominantes de "cultura", de "saber", de "sucesso", de "bom aluno", o modelo dominante de escola, afinal, criam dificuldades e constituem obstáculo ao sucesso dos alunos que pertencem a meios de cultura não letrada" (pág. 31).

A análise de Ana Benavente está parcialmente correcta, mas é ambígua, e dela os responsáveis ministeriais retiram estratégias educativas erradas. O que se passa é que a escola não sabe ensinar quem não vem ensinado de casa e quem não traz de casa fortes motivações para estudar. Este problema não se punha antes do 25 de Abril porque só os filhos dos privilegiados chegavam à escola. Hoje, quando chegam à escola os filhos de quem nunca leu um livro, esta não sabe motivá-los para um universo que lhes é estranho. O diagnóstico está, pois, correcto.

Mas a solução errada — monstruosamente errada — dos sucessivos responsáveis ministeriais baseia-se na crença falsa de que os filhos dessas pessoas não podem interessar-se por astronomia, química, literatura ou filosofia. Assim se chegou à ideologia educativa hoje oficial, segundo a qual os negros, por exemplo, não podem interessar-se por física quântica porque isso é só para filhos de universitários, os ciganos não podem interessar-se por violino porque isso é só para filhos de médicos, etc. Logo, para que estas crianças, coitadinhas, possam ter "sucesso", temos de os ocupar e motivar com o jogo do pau e o Big Brother da TV (o de Orwell não, claro) — a física não é para eles, coitadinhos. É esta crença falsa — além de classista, racista e repugnante — que orienta e explica as políticas dos sucessivos Ministérios da Educação.

Acontece que os filhos dos privilegiados não são mais espertos do que os outros; apenas têm em casa o que os outros não têm: livros e o apoio dos pais. O papel do sistema educativo não é decidir à partida que tais crianças estão perdidas para a física quântica, o violino ou a filosofia, mas antes dar-lhes na escola o apoio e o estímulo que não têm em casa, para que passem a valorizar o conhecimento e possam descobrir vocações. A prática e os resultados dos muitos professores de altíssimo profissionalismo e dedicação que temos no país não deixa lugar para dúvidas: a melhor estratégia de motivação das crianças culturalmente mais desfavorecidas é a solidez científica dos conteúdos, a clareza das explicações, a adequação do vocabulário, o rigor da avaliação, o estímulo ao pensamento crítico e à compreensão activa. Como escreve Nuno Crato,

"Os bons professores sabem o que se deve fazer e tentam fazê-lo. Se às vezes não o fazem mais e melhor, essa limitação não se lhes deve. Deve-se sim às imposições avulsas do Ministério, aos currículos desconexos, aos maus manuais escolares, a um ambiente de desrespeito pela cultura e pela educação" (pág. 121).

Este livro é urgente, é importante, é fundamental. Enquanto Nuno Crato e outros professores e intelectuais deste calibre não tomarem as rédeas da educação no nosso país, continuaremos um país rasca — bom para poucos, mas à custa de muitos.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (8 de Abril de 2006)
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