Náufragos no Paraíso
14 de Maio de 2007 ⋅ Livros

Felicidade e miséria numa ilha deserta

Desidério Murcho
Náufragos no Paraíso: As Incríveis Aventuras dos Robinson Crusoes de Carne e Osso, de James C. Simmons
Tradução de Paulo Faria
Lisboa: Antígona, 2007, 355 pp.
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"A figura do náufrago", afirma o autor na introdução, "é uma das mais poderosas do nosso património literário" (p. 10). Ulisses, São Paulo, Próspero e Gulliver são apenas alguns exemplos. Mas foi a criação de Daniel Defoe, Robison Crusoe, que acabaria por se tornar o ícone universal do náufrago solitário. Náufragos no Paraíso é um livro de leitura compulsiva que nos leva a percorrer o mundo em busca dos verdadeiros náufragos que, do séc. XVIII ao XX, por vicissitudes da sorte ou escolha própria, tiveram de enfrentar o que a maioria de nós apenas imagina no conforto das nossas casas. São oito capítulos de cuidadosa investigação e agradável leitura, servidos por uma elegante e cuidada tradução. O autor guia-nos pelos destinos de Selkirk, o náufrago original cuja história real inspirou Defoe; do impressionante capitão americano Charles H. Barnard, que sobreviveu nas inóspitas Falkland, onde nem árvores há; da famosa tripulação do Essex, que recorreu ao canibalismo para sobreviver; das aventuras de Melville nas marquesas, onde chegou a casar com uma nativa, o que lhe deu um conhecimento rigoroso do seu modo de vida; e de muitos outros.

A figura do náufrago parece tornar-se tanto mais fascinante quanto mais o nosso modo de vida complexo está longe do imediatismo da luta pela sobrevivência. De algum modo, o náufrago surge-nos como a materialização de um modo de vida mais autêntico, longe das imposições do mundo moderno, em harmonia com a natureza benevolente e longe dos males da civilização. A maior parte dos náufragos nunca viveu este mito de Rousseau — em seu lugar, viveu um inferno de luta pela sobrevivência, solidão intensa, má alimentação, abrigos precários e medo constante da morte.

Um dos casos raros de náufragos felizes foi Thomas Francis Neale, apresentado no último capítulo do livro. Tom Neale conseguiu realizar o sonho do nosso património literário vivendo quase vinte e cinco anos, com pausas intermitentes, no atol Suvarov, do pacífico, entre 1952 e 1977. Suvarov fica a cerca de setecentas milhas náuticas a sul do equador e a quinhentas de Rarotonga, "perdido numa imensidão de mar e sol, tão frágil que ficamos sem perceber como consegue resistir aos furacões que varrem aquela região com devastadora regularidade" (p. 302). Depois de uma das suas prolongadas estadias solitárias na ilha, Neale escreveu um livro que se tornou um sucesso nos mares do sul, An Island to Oneself (Uma Ilha só para si), publicado em 1966, e do qual se pode hoje em dia ler excertos na Internet.

"O livro de Neale demonstra, ainda que inadvertidamente, uma verdade profunda acerca das suas experiências enquanto vagabundo das praias em Suvarov. O que começa como uma história de aventuras termina no elogio de uma vida de pacata domesticidade e labor singelo. Como Alexander Selkirk e o seu sósia ficcional Robinson Crusoe antes dele, Neale domou o exótico e tornou-o confortavelmente familiar" (págs. 334-335).

Esta aparente tensão entre o aspecto aventuroso do mito literário e o aspecto doméstico ajuda-nos a compreender a força do mito. Há pelo menos três aspectos a ter em conta, e todos estão admiravelmente ilustrados e documentados neste impressionante livro.

O primeiro aspecto é a solidão. Somos seres gregários; vivemos continuamente rodeados de pessoas e mantemos relações sociais complexas. A experiência da solidão é em si atraente porque é exótica. A nossa civilização e a nossa inteligência estão enraizadas na nossa natureza gregária — o que nos conduz ao segundo aspecto do mito literário: a vivência da origem. Reconstruir numa ilha deserta a possibilidade de uma vida, em contacto directo com a natureza, faz-nos enfrentar a própria fundação da humanidade — como se faz para sobreviver? E, mais importante, como se faz para se viver bem? Além disso, é uma oportunidade, como refere do autor, para voltar a fazer tudo partindo do zero, tentando não cometer os erros que nos conduziram a uma civilização cuja complexidade não permite mais que as coisas sejam exactamente como queremos. O mito literário do náufrago bem sucedido é fascinante porque nos permite desmontar a sociedade peça por peça, para ver como funciona, reduzindo-a aos seus elementos atómicos.

O terceiro aspecto é o voluntarismo. Não se trata apenas de ver como funciona a humanidade, mas de criar voluntariamente, com as nossas próprias mãos, a nossa humanidade. De Dafoe até ao séc. XIX, nas narrativas de Júlio Verne, por exemplo, paira sempre sobre o herói ou heróis a possibilidade de regredirem para um estado de selvajaria e animalidade, perdendo-se os traços que nos fazem humanos: inteligência, planeamento, diligência e trabalho, que nos permitem alterar a natureza para vivermos com maior conforto e para nos dedicarmos a algo mais do que a mera luta diária pela sobrevivência. Os casos falhados de náufragos voluntários, como o célebre caso narrado por Lucy Irvine, resultam precisamente de falta de voluntarismo e de planeamento: não se pode ir para uma ilha deserta como quem vai para uma estância de turismo tropical. A natureza é madrasta. Sem planeamento, inteligência, trabalho e diligência, a morte ou a miséria é o destino mais provável. Daí que, à excepção de Tom Neale, nenhum dos náufragos cujas histórias empolgantes seguimos sofregamente ao ler este livro tenha qualquer desejo de regressar à sua prisão falsamente idílica, quando conseguem regressar à civilização. A realidade é muito mais dura que o mito literário. Mas talvez seja precisamente por isso que o mito é tão contagiante e nos oferece tantas horas de prazer literário.

Desidério Murcho
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