Dangerous Knowledge
3 de Abril de 2007⋅ Livros

Desconstrução do orientalismo

José Pedro Teixeira Fernandes
Dangerous Knowledge: Orientalism and its Discontents, de Robert Irwin
The Overlook Press, Woodstock & Nova Iorque, 2006, 410 pp.
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"É um escândalo e um mau comentário sobre a qualidade da vida intelectual britânica das recentes décadas que o argumento de Said sobre o Orientalismo ainda possa ser levado a sério [...] As qualidades do Orientalismo [de Said] são as de uma boa novela. É excitante, está embalado num lote de vilões sinistros, bem como num numeroso bando de bonzinhos e a imagem que apresenta do mundo é ricamente imaginada, mas essencialmente ficcional" (p. 309).

Robert Irwin é um historiador britânico e professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres, editor para o Médio Oriente do Times Literary Supplement. Com este livro (que foi posteriormente publicado sob o título For Lust of Knowing: The Orientalists and their Enemies), o autor dá-nos uma visão abrangente do orientalismo, como campo de estudos, com um retrato dos percursos e obras dos principais nomes que marcaram a disciplina. Robert Irwin assume também que a motivação para esta publicação se deve, em boa medida, ao livro Orientalismo, de Edward Said, publicado originalmente em 1978.

Vamos por partes, na análise do que nos oferece o conteúdo do livro. Os oito primeiros capítulos de Robet Irwin dão uma panorâmica do orientalismo e retratam as suas figuras mais importantes — a esmagadora maioria das quais desconhecida do público não especializado (o mais conhecido é provavelmente Ernest Renan, que só secundariamente pode ser considerado orientalista) —, como Guillaume de Postel, um francês exótico do século XVI, que foi o fundador da disciplina; Ignatz Goldziher, um húngaro de ascendência judaica e cultura germânica, que foi o seu principal expoente na segunda metade do século XIX e inícios do século XX; e Arminius Vambéry, também de origem húngara, mais um viajante intrépido do que um orientalista, que com os seus relatos das lendas balcânicas terá inspirado o escritor britânico Bram Stocker, no romance Drácula. Nesta parte do livro, Robert Irwin aborda o tema de forma atraente e elegante, fazendo uma descrição das origens e evolução do orientalismo numa linguagem acessível, entremeada com um certo humor e pormenores curiosos (por exemplo, Cristóvão Colombo levava consigo um intérprete judeu, que falava árabe, para lidar com os povos das Américas).

Nos últimos capítulos, especialmente no capítulo 9, "Uma Investigação sobre a Natureza de uma Certa Polémica do Século XX", o tom da escrita altera-se um pouco e dá lugar a uma crítica corrosiva, naquilo que ironicamente poderíamos chamar a "desconstrução do orientalismo" de Edward Said. Para os menos familiarizados com o percurso de Said importa recordar que nasceu em Jerusalém, numa família cristã árabe (protestante) da burguesia do Médio Oriente, tendo estudado numa escola de elite anglófila do Cairo e vivido a maior parte da sua vida nos Estados Unidos, onde foi professor de Literatura, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Foi sobretudo um conhecido e emblemático activista da causa palestiniana (apresentando-se como palestiniano, naquilo que poderíamos chamar a "construção social da sua identidade") apesar de ser provavelmente de ascendência libanesa. Sobre este, Robert Irwin começa por fazer notar (à semelhança do já tinham feito outros críticos, como, por exemplo, Bernard Lewis, Maxime Rodinson ou Albert Hourani) que o livro Orientalismo contém vários erros e imprecisões factuais: por exemplo, a sugestão que a Grã-Bretanha e a França dominavam o Mediterrâneo oriental no século XVII, ou a referência que faz à conquista, pelos exércitos muçulmanos, da Turquia antes do Norte de África. Tal como já tinha anteriormente feito Lewis, Irwin chama à atenção dos leitores para o facto de os orientalistas alemães (com um peso enorme na disciplina de nomes como Hammer-Porstgall, Fleischer, Welhausen, Goldziher, Nöloeke e Becker) serem praticamente ignorados no Orientalismo de Said, que pretendeu fazer uma análise crítica — ou melhor, uma genealogia do tipo Nietzsche/Foucault — desse campo de estudos.

Depois de se ler a argumentação de Robert Irwin, a sensação que fica é que Edward Said recorreu a um estratagema hábil mas que intelectualmente não deixa de merecer reparos. Said sugere aos seus leitores que o orientalismo britânico e francês foram os mais importantes. A conveniência desta ideia assentou provavelmente em duas razões: primeiro, eram as línguas europeias que conhecia melhor (ao contrário do alemão e também do russo, tendo também a Rússia uma grande tradição de orientalismo, que Said ignorou totalmente, por desconhecimento ou por outras razões); segundo, permitiam-lhe criar um elo de ligação (aparentemente convincente, sobretudo para o público não especializado) entre orientalismo e imperialismo, pois a Grã-Bretanha e França foram os dois maiores poderes coloniais ocidentais. Todavia, se considerasse o caso alemão, e dado que a Alemanha praticamente não teve império colonial, mas deu a mais importante contribuição isolada para o campo do orientalismo, a genealogia de Edward Said ficava em dificuldades logo à partida (nada que não se resolva com uma velha técnica de escrita, que consiste em omitir a factualidade incómoda ou que contradiz o que se pretende mostrar). Além disso, apresentou o orientalismo como um discurso unificado — o que também é uma distorção mais ou menos grosseira, dada a diversidade de perspectivas, frequentemente contraditórias, existentes na disciplina —, sugerindo que os orientalistas eram "agentes do imperialismo" e uma espécie de guarda avançada do "imperialismo cultural" do ocidente. A realidade que Irwin mostra é bastante diferente. Não invulgarmente, os orientalistas simpatizavam genuinamente com a cultura e religião que estudavam e alguns até apoiaram causas políticas dos povos árabes e islâmicos, não sendo agentes do poder colonial, mas, na maioria dos casos, indivíduos motivados por uma grande curiosidade e uma vontade genuína de saber (curiosamente, o único exemplo que Said admite com este perfil foi o de Louis Massignon, que não foi propriamente um orientalista marginal, como Said sugere, e esteve mesmo ligado ao poder político colonial francês).

Crítica contundente, perpassada de sarcástica ironia, mereceu ainda o cânone pós-moderno do orientalismo — um dos livros de culto dos actuais estudos pós-coloniais —, e a sua obsessão pela linguagem e desconstruções de textos:

"Como vimos, foi o discurso e as estratégias textuais que conduziram o projecto imperial, criaram plantações de borracha, fizeram o canal do Suez e estabeleceram guarnições de legionários no Sara. Como o orientalismo é pela sua natureza uma doença ocidental, o mesmo tem de ser verdade relativamente ao imperialismo. Os persas, que sob Ciro, Dário e Xerxes construíram um poderoso império, a que tentaram anexar a Grécia, não foram denunciados como imperialistas por Said. Pelo contrário, foram apresentados como trágicas e inocentes vítimas de distorções de dramaturgos. Mais tarde, os Omíadas, os Abássidas, os Fatimidas e os Otomanos presidiram a grandes impérios, mas as suas dinastias escaparam à censura. De facto, devem ter sido considerados vítimas da distorção ocidental." (p. 286)

Por tudo o que foi referido — e além de algumas imprecisões, sobretudo no capítulo 10 ( "Inimigos do Orientalismo"), notadas por Amir Taheri na recensão feita no jornal árabe Asharq Alawsat, de Londres —, estamos perante um contributo relevante para um conhecimento mais equilibrado da tradição de estudos do orientalismo; e estamos também perante uma defesa apaixonada contra os que a tentaram denegrir e banir, por razões que ultrapassam considerações estritamente académicas e científicas e se encontram mais no terreno da luta política e ideológica. Adivinha-se uma recepção negativa e a irritação nos estudos pós-coloniais a este "regresso dos fósseis".

José Pedro Teixeira Fernandes
jpedrofernandes@tvtel.pt
Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo
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