Selkir's Island
15 de Setembro de 2006 ⋅ Livros

Vida de marinheiro

Desidério Murcho
Selkirk's Island: The Original Robinson Crusoe, de Diana Souhami
Londres: Phoenix, 2002, 256 pp.
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Alexander Selkirk permaneceu quatro anos e quatro meses sozinho na ilha que desde 1966 se chama "Robinson Crusoe". Território chileno, esta ilha é hoje habitada por uma pequena comunidade de cerca de cem pessoas. Depois de muitos maus-tratos ecológicos, foi finalmente classificada como reserva biológica mundial; sessenta por cento da sua flora é única no mundo. A história de Selkirk tornou-se imortal graças ao sucesso do romance de Daniel Defoe, publicado pela primeira vez em 25 de Abril de 1719.

Já antes de Defoe a história de Selkirk tinha sido impressa. Na altura, havia um mercado florescente de histórias de viagens e lugares distantes, contadas em primeira-mão. Woodes Rogers, capitão do navio que libertou Selkirk do seu cativeiro, publicou em 1712 um relato das suas aventuras que incluía um parágrafo sobre Selkirk. Imediatamente o público pediu mais, para irritação de Rogers, que considerava desinteressante a história daquele marinheiro que tinha sobrevivido de leite e carne de cabra, alguns frutos e peixe, durante quatro anos, em completa solidão. Foi Defoe que finalmente captou a imaginação europeia, escrevendo o que por vezes se considera o primeiro romance em língua inglesa. Defoe escreveu cerca de "quinhentos e sessenta livros, panfletos e diários" (pág. 188), tendo publicado dezasseis deles no mesmo ano em que publicou o romance que o imortalizou.

Este livro conta várias histórias relacionadas com as aventuras de Selkirk na Ilha Robinson Crusoe. Sem a elegância narrativa de James C. Simmons (Castaway in Paradise, PÚBLICO, 10/12/2005), nem a sua mestria na exposição de factos, é todavia um livro que se lê com imensa curiosidade porque o que tem para contar é intrinsecamente interessante. Não se trata de contar pormenorizadamente a vida de Selkirk na ilha, porque pouco se sabe realmente sobre tal coisa. Trata-se antes de dar conta do que era a vida de um marinheiro nos princípios do séc. XVIII e a situação hobbesiana internacional de guerra de todos contra todos, que permitia aparelhar navios na Inglaterra para ir pilhar e destruir navios espanhóis nos mares do Sul. Nunca nestas páginas se encontra um gesto amável ou uma observação reconfortante. Souhami descreve de forma brutal um mundo brutal, no qual os capitães dos navios ingleses roubam os espanhóis e roubam os seus próprios marinheiros, que se roubam entre eles e morrem como moscas devido às condições de vida que enfrentam.

Estes aventureiros eram guiados pelo sonho de riquezas imensas, que todavia não pareciam assim tão relevantes quando eram finalmente obtidas. Selkirk conseguiu efectivamente alguma riqueza, depois do seu cativeiro de quatro anos, mas nunca a usufruiu; o seu coração parecia clamar por mais aventuras e perigos. Acabou por morrer num navio, ao largo da costa africana, quando poderia ter permanecido num emprego certo, rotineiro e isento de riscos, na Inglaterra. Se mais se conhece de Selkirk é porque a sua morte provocou uma luta legal entre a sua primeira mulher, a quem fez um primeiro testamento pormenorizado, deixando-lhe quase todos os seus bens, e a sua segunda mulher, com a qual casou num impulso de bêbado, e a quem deixou tudo, num segundo testamento apressado.

Quem quiser conhecer a vida das gentes do mar no início do séc. XVIII, a ganância, egoísmo e injustiça daqueles tempos, tem neste livro um bom ponto de partida.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado originalmente no jornal Público (18 de Março de 2006)
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