Um Homem sem Pátria
31 de Agosto de 2006 ⋅ Livros

Humor ácido e leitura rápida

Desidério Murcho
Um Homem sem Pátria: Memórias da América de George W. Bush, de Kurt Vonnegut
Tinta da China, 2006, 158 pp.
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À excepção do pequeno texto "Os Anciões de Tralfamadore", não conhecia outros escritos de Kurt Vonnegut (1922-2007). Esperava, desta colecção de ensaios, humor e ironia q.b. — e não fiquei desapontado. É isso mesmo que temos, em abundância, neste pequeno livro que reúne doze ensaios, acrescidos de uma nota explicativa do autor e de um requiem. O estilo é informal, o humor ácido e a leitura rápida. Quem pensar que Vonnegut é sinónimo de alguma profundidade ou insight fecundo, poderá ficar desapontado. Mas quem procura uma leitura de Verão, descontraída e moderadamente inteligente (é necessário ter pelo menos cinco neurónios funcionais para acompanhar a leitura), ficará satisfeito.

Dois dos ensaios caracterizam bem o tom e a abrangência deste volume. O primeiro é o Capítulo 8, "Sabem o que é um Humanista?" O movimento humanista do séc. XX, que quase não tem representação em Portugal, é uma associação de pessoas ateias ou agnósticas que procuram melhorar a vida humana nos seus mais diversos aspectos. Vonnegut é presidente honorário da Associação Humanista Americana, um cargo que, como o próprio autor declara, não tem qualquer função. Antes dele, o presidente honorário era o escritor Isaac Asimov. Neste ensaio, Vonnegut procura explicar o que é um humanista, começando por declarar que esta corrente se inscreve no movimento dos chamados "livres-pensadores" do séc. XIX: pessoas que acreditam em fazer o bem mas não por causa de uma recompensa depois da morte ou por causa de um castigo caso não o façam. Claro que Vonnegut é um humorista nato e, quando Asimov morreu, discursou no seu serviço fúnebre (uma das coisas que as associações humanistas fazem é estimular a existência de alternativas laicas aos serviços fúnebres religiosos), começando com uma declaração bombástica: "Agora, Isaac está no Céu". Toda a gente desatou a rir, e era isso mesmo que Vonnegut queria — este é o seu estilo. Logo de seguida, Vonnegut responde à pergunta "Que têm os humanistas a dizer da maravilhosa mensagem de Jesus?", dizendo que se tal mensagem é tão maravilhosa, e ele acha que é, que importância tem se Jesus era ou não um deus? Claro, a importância é que as pessoas nem sequer compreendem bem a mensagem de tolerância, amor e dádiva de Jesus — o que nos leva a perder a esperança na humanidade. Para ilustrar este aspecto, Vonnegut conta então a trágica história de Ignaz Semmelweis (1818-65), o obstetra húngaro que descobriu a causa da febre puerperal que atacava uma em cada dez parturientes. Contra os seus superiores hierárquicos vienenses, que já naquela altura mantinham a atitude que mais tarde daria origem ao nazismo, insistiu que os médicos deviam lavar as mãos antes de ajudar aos partos — pois costumavam sair directamente da morgue, onde autopsiavam cadáveres, para a maternidade, para observar as grávidas e as parturientes. Rapidamente os casos mortais de febre puerperal ficaram reduzidos a zero. E salvaram-se assim milhões de vidas em todo o mundo. A história de Semmelweis é infeliz porque foi não só expulso do hospital vienense, como da própria Áustria — acabando num pequeno hospital de província húngaro. E, como Vonnegut refere, acabou por desistir da humanidade — e matou-se. Num certo sentido, Vonnegut desistiu da humanidade, mas a sua reacção menos dramática é um humor virulento.

Gráfico

O segundo ensaio que caracteriza bem o estilo do volume é o Capítulo 3, "Eis uma Lição de Texto Criativo". Usando o gráfico aqui reproduzido, Vonnegut mostra que as histórias mais famosas da humanidade seguem padrões perfeitamente determináveis. O eixo vertical é o eixo da sorte e do azar: o eixo do que corre bem ou mal. O eixo horizontal é a linha do tempo. Diferentes curvas neste gráfico representam diferentes tipos de história. Uma história pode começar quando tudo está bem (zona da sorte, no gráfico), depois acontece um azar, mas no fim tudo se resolve e fica ainda melhor do que estava no início. Ou as coisas podem começar mal, como a Cinderela, ficar subitamente muito bem, mas depois voltar a ficar mal, até finalmente melhorar infinitamente, no desfecho. Kafka é um caso particularmente interessante, pois as coisas começam mal, e pioram cada vez mais até ficarem infinitamente mal, no desfecho. Alternativamente, uma história pode começar no ponto de neutralidade — quando a vida não corre bem nem mal. Depois, algo acontece que faz piorar tudo (o protagonista cai num buraco, mas não tem de ser um buraco nem tem de ser uma queda), e a história é uma luta hercúlea para que o desfecho seja bom, de preferência superior ao estado neutro inicial. Com esta forma de enquadrar o tipo de histórias possíveis, Vonnegut mostra depois que Hamlet não se enquadra no gráfico — em grande parte porque não sabemos se certas coisas que acontecem são realmente boas ou más. E é esta ambiguidade que faz de Shakespeare, segundo Vonnegut, um grande autor.

Entre o humor e algumas ideias sérias, este pequeno volume é despretensioso e leve. Vonnegut não quer persuadir seja quem for de coisa alguma, nem quer mostrar que as suas ideias são minimamente plausíveis. Limita-se a usá-las, de forma humorística e irónica, para fazer vários comentários sobre o mundo actual, com a sua enorme quantidade de "guessers" (adivinhos) — pessoas como Bush e os superiores hierárquicos de Semmelweis, que não querem dar-se ao trabalho de verificar se a realidade é como eles querem que seja. Neste sentido, os adivinhos são aquilo a que Frankfurt chama "bullshiters", no seu famoso ensaio, publicado em livro, Da Treta. Entre o pedantismo pouco imaginativo de Frankfurt e a leveza espertalhona e superficial de Vonnegut, a escolha é do leitor.

Desidério Murcho
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