5 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Livros e ensino

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Nas sociedades pré-literárias transmite-se oralmente tudo o que as novas gerações precisam de saber para enfrentar o seu meio social e natural, o que implica uma indistinção entre facto e fantasia, e o desprezo pela precisão e pelo rigor. Fala-se do que se ouviu falar, sem conhecimento das coisas, e despreza-se o trabalho intelectual cuidadoso porque se vê toda a comunicação sob o modelo da comunicação oral de historietas e balelas, que servem para passar o tempo. Talvez porque a sociedade portuguesa é parcialmente pré-literária — à parte o poemazinho fácil, o romance morno e em geral o que se pode escrever nos intervalos da novela — a importância dos livros de qualidade para o ensino de excelência tende a ser esquecida.

O livro cuidadosamente escrito, rigorosamente revisto e corrigido por várias mãos e sob diversos aspectos, é a base de uma cultura sofisticada que produza filosofia ou ciências, história ou geografia, em vez de se limitar a importá-la do estrangeiro. Sem livros de qualidade para estudantes, toda a aprendizagem fica refém do imediatismo, da oralidade superficial e fantasiosa, da balela e do disse que disse. Surgem então livros que se limitam a reproduzir no papel a mesmíssima mentalidade da balda oral de contornos imprecisos; surgem autores, tradutores e editores que desconhecem o trabalho genuíno de escrever e publicar com tino, procurando fontes, testando métodos, mudando parágrafos, corrigindo erros, investigando os assuntos. Numa sociedade em que os materiais produzidos para o ensino são feitos à balda, copiados daqui e dali, sem rigor nem referências bibliográficas, sem preocupações de rigor científico nem de sensatez didáctica, o livro é visto como uma extensão da balda oral. Fazem-se afirmações sobre a lógica de Aristóteles ou a estética de Hegel só porque se ouviu dizer, não se distingue fontes primárias de fontes secundárias, nem fontes secundárias de qualidade de fontes secundárias feitas a martelo.

Neste clima, é natural que não se tenha consciência da importância do livro de qualidade — nem dos seus custos. O mundo digital de hoje não ajuda, pois caracteriza-se precisamente pela balda editorial: o Projecto Gutenberg oferece livros de borla, mas não há qualquer garantia de que não faltem palavras, frases ou até parágrafos nas suas transcrições; a Wikipédia oferece o conhecimento universal de borla, mas cada qual escreve o que lhe apetecer sem qualquer vontade de rigor nem de investigação de fontes que dêem mais trabalho do que usar o Google. E o professor usa o que lhe aparece pela frente, com palmadinhas nas costas do Ministério da Educação, porque é moderno e usa as Novas Tecnologias (são assim tão novas?).

Os bons livros são cruciais para a solidez de uma cultura, e sem eles não pode haver ensino de qualidade. O gosto pela precisão e pela qualidade editorial é simultaneamente causa e consequência de uma cultura que ultrapassou a fase da oralidade vaga e sem rumo. Um gosto que tarda a chegar entre nós.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (7 de Abril de 2009)
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