Pensamento Crítico, de Richard L. Epstein
10 de Dezembro de 2005 ⋅ Lógica

Pensamento crítico em português

Desidério Murcho
Pensamento Crítico, de Richard L. Epstein
Tradução e adaptação de Walter A. Carnielli
Editora Rideel, 2010, 384 pp.
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Os novos programas de português do ensino secundário deitaram para cima dos professores mais uma batata quente: o texto argumentativo. Os professores do secundário estão habituados a isto: um burocrata, no Ministério, decide que está na hora de fazer programas novos, talvez para encaixar neles os seus dogmas de estimação; alguém é escolhido para os fazer, e procura enfiar nos programas tudo o que dá um aspecto modernaço; e as universidades, que começaram por formar os professores tão mal, não lhes dão qualquer apoio para ensinar novos conteúdos que eles desconhecem e para os quais não há sequer bibliografia adequada em português. A solução é deitar mão do que melhor se publica no estrangeiro, onde os professores universitários têm o hábito exótico de escrever bons livros de divulgação e ensino.

Se é professor de português e está em palpos de aranha para leccionar a nova rubrica do "texto argumentativo", deite a mão a este livro. Com uma estrutura muito usada no ensino das línguas (com personagens e "cartoons" especialmente desenhados para o efeito), este manual ensina a escrever e discutir textos argumentativos. Num texto argumentativo, o autor ou autores defendem ideias recorrendo a argumentos. Tal como ocorrem na realidade, em qualquer tipo de discussão de ideias, os argumentos são em geral muito complexos, parecendo uma massa amorfa a quem não tem formação em lógica informal ou pensamento crítico. Mas com uma formação adequada compreende-se que essa massa aparentemente amorfa de argumentações complexas se pode compreender melhor se olharmos para as suas partes constituintes: os micro-argumentos, com um número reduzido de premissas e uma conclusão, do género "A vida é sagrada; logo, o aborto é um mal". Os argumentos, por sua vez são constituídos por afirmações, pelo que é necessário começar por estudar os diferentes tipos de afirmações e as suas partes constituintes relevantes para a argumentação, como a quantificação ("todos", "alguns", "quase todos", "a maior parte", etc) e os operadores verofuncionais de formação de frases, como "não", "se… então", "e", etc.

Um dos aspectos mais bem conseguidos deste manual é o Guia de Reparação de Argumentos, que ensina de forma muito simples e passo a passo o processo de reconstituir um argumento de modo a torná-lo o mais forte possível, nomeadamente acrescentando premissas. É comum pensar que o micro-argumento inválido apresentado atrás sobre o aborto poderia ser encarado como um entimema, devendo-se por isso acrescentar a premissa "Se a vida é sagrada, o aborto é um crime". Contudo, esta premissa torna o argumento válido à custa de o tornar fraco, dado que esta premissa não é mais plausível do que a conclusão — e qualquer argumento, para ser bom, tem de obedecer a três condições: ser válido, ter premissas verdadeiras e ter premissas mais plausíveis do que a conclusão. A força de um argumento válido é exactamente igual à mais fraca das suas premissas — daí que seja tão importante partir de premissas fidedignas. Parafraseando Bertrand Russell, argumentar é a arte de conseguir partir do que toda a gente aceita e conseguir chegar validamente ao que ninguém aceitava antes dos nossos argumentos. Se os nossos argumentos forem fortes e não houver objecções relevantes, as pessoas razoáveis mudam de ideias; as outras, insultam-nos impiedosamente, o que, parecendo que não, tem a sua graça.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (23 de Julho de 2005)
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