10 de Abril de 2004 ⋅ Lógica

Lógica e teorias da verdade

Desidério Murcho

Pensa-se por vezes que, ao ensinar lógica, nomeadamente a distinção entre a validade e a verdade, é necessário esclarecer que tipo de teoria da verdade está associada à lógica. Pensa-se ainda que o tipo de teoria da verdade associada à lógica é a teoria da correspondência. E pensa-se que a teoria da correspondência se caracteriza por defender o seguinte esquema:

"P" é verdadeira se, e só se, P.

Estas três ideias estão erradas e o objectivo deste artigo é explicar porquê.

Comecemos pela última ideia. Não é verdade que o esquema apresentado caracterize a teoria da verdade como correspondência; qualquer teoria da verdade tem de acomodar este esquema. Isto não é difícil de perceber, se pensarmos que ainda que defendamos que o que constitui a verdade é a coerência com um certo grupo relevante de crenças, o esquema acima é mesmo assim verdadeiro. O que caracteriza a teoria da verdade como correspondência não é a ideia de que este esquema obtém (isso é comum a todas as teorias da verdade), mas antes a ideia de que este esquema exprime uma ideia central que caracteriza a verdade: a ideia de correspondência entre factos e verdades. O que a teoria da correspondência procura depois fazer é explicar essa relação de correspondência entre os factos ou o mundo e a linguagem. As outras teorias da verdade negam que este esquema exprima tal coisa.

Quanto à segunda ideia, não é também difícil de perceber que qualquer teoria da verdade é compatível com aqueles aspectos elementares de qualquer lógica formal que permitem distinguir a verdade da validade. Os partidários da teoria deflacionista da verdade, ou da teoria da verdade como coerência, por exemplo, aceitam perfeitamente a lógica clássica e a distinção entre validade e verdade.

É ao discutir a primeira ideia apresentada que se compreende a razão de ser desta persistente confusão entre os professores de filosofia no que respeita à lógica e à teoria da verdade. A ideia de que precisamos de ter uma teoria da verdade para complementar ou dar sentido à nossa lógica está baseada numa compreensão errada do que é uma teoria da verdade e do que se espera de uma teoria da verdade. A ideia subjacente revela uma mentalidade positivista: é a ideia de que se tivermos um processo formal e automático de decisão para a validade, e se lhe acrescentarmos um processo igualmente automático de decisão para a verdade (um critério de verdade), então podemos daqui para a frente decidir automaticamente tudo: perante qualquer afirmação, ou essa afirmação pode ser directamente testada pelo nosso critério de verdade, ou terá de ser testada recorrendo igualmente à lógica; mas em qualquer dos casos, temos um processo automático de decisão.

Esta ideia é falsa e revela uma confusão elementar entre o que é uma teoria da verdade e o que é um critério de verdade. Uma teoria da verdade não tem de nos fornecer um critério de verdade substancial, e em geral não fornece tal coisa. Pode fornecer uma espécie de critério de verdade, mas é de tal modo trivial que não permite decidir coisa alguma. O objectivo de uma teoria da verdade é esclarecer a natureza deste fenómeno: algumas afirmações são verdadeiras; o que as faz verdadeiras? Que propriedade é esta de que estamos a falar quando falamos da verdade de uma afirmação? É mesmo uma propriedade? Como é evidente, isto nada tem a ver com critérios de verdade substanciais, que nos permitam decidir, dada uma afirmação qualquer, e unicamente com base na teoria em causa, se essa afirmação é ou não verdadeira. Talvez a melhor analogia seja com as teorias da referência dos nomes próprios. Uma teoria da referência dos nomes próprios não tem por objectivo fornecer-nos um critério que nos permita dizer quem é referido pelo nome "Sócrates". Tal teoria é uma fantasia, dado que, a existir, permitir-nos-ía descobrir imediatamente qualquer criminoso: bastaria batizá-lo por meio de uma descrição ("O João é o autor do crime"), depois aplicava-se a teoria da referência ao nome "João" e saberíamos imediatamente quem é o João. Isto é um disparate. Uma teoria da referência para nomes próprios não é uma teoria para nos ajudar a descobrir qual é a referência dos nomes, tal como uma teoria da gravidade não é uma teoria para nos ajudar a descobrir se os objectos caem. Nós já sabemos que os objectos caem; uma teoria da gravidade pretende explicar esse fenómeno de que já temos conhecimento. Igualmente, nós já sabemos o que refere o nome "Sócrates"; o que queremos saber é como refere tal nome a pessoa que refere. Queremos explicar o fenómeno da referência. O mesmo acontece no caso das teorias da verdade. Nós não quermos usar estas teorias para descobrir que afirmações são verdadeiras e que afirmações são falsas; nós já sabemos que algumas afirmações são verdadeiras (como "A neve é branca") e que outras são falsas (como "A neve é preta"). O que queremos é esclarecer este fenómeno que faz uma afirmação verdadeira ser verdadeira.

Compreende-se agora melhor por que razão ao ensinar lógica não tem sentido fazer referência às teorias da verdade. As teorias da verdade não são critérios automáticos de verdade. Repare-se que, num certo sentido, qualquer teoria da verdade nos dá um certo critério de verdade, mas apenas num sentido trivial e não informativo — no mesmo sentido em que uma teoria da referência nos dá um critério de referência. Tomemos, como exemplo, a teoria da verdade como coerência. Esta teoria afirma que a verdade não é mais do que a coerência com um certo corpo relevante de crenças. Portanto, num certo sentido, dada uma afirmação P, basta verificar se P é coerente com um certo corpo relevante de crenças para saber se P é verdadeira. Só que esta verificação não é nem automática, nem informativa, nem trivial. Não podemos aplicar a teoria para descobrir se as afirmações "Há vida extraterrestre inteligente" ou "Deus existe" ou "O livre-arbítrio é uma ilusão" são verdadeiras ou falsas. Para descobrir se estas afirmações são verdadeiras ou falsas temos de fazer o que nos é familiar e que difere de caso para caso, consoante se trata de um ou outro domínio de conhecimento. Uma teoria da verdade não permite distinguir as afirmações verdadeiras das falsas; permite apenas explicar, depois de dada uma afirmação verdadeira, o fenómeno que consiste nessa afirmação ser verdadeira. Uma teoria da verdade não substitui os métodos de descoberta de verdades que temos nos mais diversos domínios de conhecimento, da física à história, da filosofia à biologia. E a lógica não é um método para descobrir verdades automaticamente. A lógica formal tem por única missão explicar e sistematizar o fenómeno da validade e da invalidade que depende exclusivamente da forma lógica; a lógica informal ter por missão explicar e sistematizar o fenómeno mais global da boa e da má argumentação. Em nenhum dos casos o objectivo é encontrar critérios automáticos para decidir se uma dada afirmação é ou não verdadeira. E apesar de ser possível determinar automaticamente a validade proposicional, não é possível determinar automaticamente a validade predicativa, nem é possível determinar automaticamente se um argumento é bom ou mau.

Desidério Murcho
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