O Lugar da Lógica na Filosofia, de Desidério Murcho
22 de Agosto de 2009 ⋅ Lógica

Lógica e filosofia

Desidério Murcho
King's College London
"O estudo da filosofia não é para se saber o que os homens pensaram, mas o que é a verdade das coisas."

Tomás de Aquino

Pode-se pensar que a lógica não tem qualquer interesse para a filosofia por ser "meramente formal". Um argumento pode ser válido, poderá alguém argumentar, mas isso não garante que a conclusão seja verdadeira. Como o que interessa à filosofia são as conclusões verdadeiras, a lógica não tem qualquer interesse, diria essa pessoa.

A resposta a este argumento é chamar a atenção para duas coisas. Em primeiro lugar, como veremos, nem toda a lógica é "meramente formal". A lógica informal, precisamente, não é formal. A lógica informal estuda muitos aspectos da argumentação que não são estudados pela lógica formal. Todavia, não é possível dominar a lógica informal sem dominar os aspectos elementares da lógica formal. A lógica formal é o alicerce a partir do qual se pode erguer a lógica informal.

Em segundo lugar, o argumento ignora que as conclusões verdadeiras ou plausíveis devem ser justificadas e as suas consequências explicitadas. O papel da lógica na filosofia torna-se manifesto quando se compreende que os filósofos procuram, implícita ou explicitamente, bons argumentos para defender as suas ideias. Mas para que um argumento seja bom é necessário que seja válido. E é a lógica que ajuda a determinar se um dado argumento é ou não válido.

Clarificação e validade

A lógica desempenha dois papéis na filosofia: clarifica o pensamento e ajuda a evitar erros de raciocínio. A filosofia ocupa-se de um conjunto de problemas. Os filósofos, ao longo da história, têm dado resposta a esses problemas, tentando solucioná-los. Para isso, apresentam teorias e argumentos. A lógica permite assumir uma posição crítica perante os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia:

  1. A lógica permite avaliar criticamente os problemas da filosofia. Se alguém quiser reflectir sobre o problema de saber por que razão a cor azul dos átomos verdes é tão estridente, o melhor a fazer é mostrar que se trata de um falso problema. Para isso são necessários bons argumentos; não basta afirmar que se trata de um falso problema.
  2. A lógica permite avaliar criticamente as teorias dos filósofos. Será que uma dada teoria é plausível? Como poderemos defendê-la? Quais são os seus pontos fracos e quais são os seus pontos fortes? E porquê?
  3. A lógica permite avaliar criticamente os argumentos dos filósofos. São esses argumentos bons? Ou são erros subtis de raciocínio? Ou baseiam-se em premissas tão discutíveis quanto as suas conclusões?

A lógica representa para a filosofia o que o laboratório representa para o cientista empírico: é o palco onde as ideias se testam e avaliam criticamente. Sem esta atitude crítica não há atitude filosófica. Logo, sem lógica não pode haver uma verdadeira atitude filosófica.

Alguns filósofos não apresentam muitos argumentos. Manifestam apenas as suas ideias inspiradas e visões criativas do mundo. Mas o objectivo do estudo da filosofia não é aprender a repetir acriticamente essas ideias. O objectivo do estudo da filosofia é saber discutir essas ideias. Ora, não é possível discutir as ideias dos filósofos e adoptar uma posição crítica sem dispor dos instrumentos lógicos adequados. Pois discutir ideias é considerar os argumentos que se podem avançar a favor dessas ideias e compará-los com os argumentos que se podem avançar contra elas. E, como é evidente, para comparar a solidez dos diferentes argumentos, a favor e contra uma dada ideia, é necessário dominar a lógica, formal e informal.

Exercícios

1.* "A lógica não tem qualquer interesse para a filosofia porque é meramente formal." Concorda? Porquê?
2.* "A lógica ocupa-se da validade, mas a filosofia ocupa-se da verdade; logo, a lógica é irrelevante para a filosofia." Concorda? Porquê?
3.* "A lógica não é importante para a filosofia. Os filósofos não fazem demonstrações; apresentam ideias inspiradas, visões criativas do mundo." Concorda? Porquê?

A criatividade

O estudo quer-se criativo, aberto a novas ideias, crítico e formativo. E a filosofia é uma disciplina cujo estudo perde o sentido se não se orientar por estes ideais — porque ao contrário do que acontece noutras disciplinas, não há "A Filosofia" para ser estudada. Há apenas os problemas filosóficos e as diferentes teorias e argumentos que os filósofos apresentam, não havendo uma "síntese" ou um consenso que se possa estudar como "A Filosofia". Na filosofia, está-se quase desde o início nas fronteiras do conhecimento. Por isso, é necessário aprender a filosofar e não aprender uma ou outra filosofia — a preferida do professor ou dos autores dos programas do ensino secundário. E aprender a filosofar é aprender a discutir os problemas, as teorias e os argumentos apresentados pelos filósofos — e não aprender a repetir as ideias dos filósofos.

Dado que não é possível discutir correctamente ideias filosóficas sem saber lógica, saber lógica é uma condição necessária — mas não suficiente — do estudo de qualidade da filosofia. Sem a disciplina argumentativa que a lógica proporciona, a discussão filosófica nunca atinge o nível de interesse, sofisticação e criatividade que se vê atingir nos grandes filósofos ao longo da história — pois não é razoável esperar que todas as pessoas tenham a intuição lógica dos grandes filósofos do passado; nem é possível ir mais longe do que foram os grandes filósofos do passado se não tivermos à nossa disposição instrumentos mais aperfeiçoados do que eles tinham.

Assim, para que se possa enfrentar a filosofia de forma criativa, é necessário estudar os instrumentos críticos elementares que permitirão formular com clareza os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia, e que permitirão adoptar uma postura crítica — defendendo cada estudante as suas próprias ideias com bons argumentos. A arte da filosofia é a arte da fundamentação das nossas ideias recorrendo a argumentos sólidos, criativos e inteligentes. Dominar essa arte é ter a capacidade para distinguir os argumentos com essas características daqueles que não as têm, e ter a capacidade para mudar de ideias quando somos incapazes de as defender com bons argumentos. O pensamento logicamente disciplinado não inibe portanto a criatividade; pelo contrário, promove-a.

Promove-a também por uma segunda razão. Uma das condições de possibilidade da criatividade é a capacidade para pensar em alternativas. Onde nos parece que só há uma alternativa, o pensador criativo descobre outra. Onde parece que não há solução, o pensador criativo descobre uma. Ora, a lógica ajuda-nos a pensar em diferentes possibilidades; portanto, estimula a criatividade no pensamento. Para determinar se um argumento é ou não válido é necessário determinar se há alguma maneira de as premissas serem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Uma falácia é precisamente um argumento que parece válido a uma pessoa sem formação lógica porque ela não é capaz de ver que numa das alternativas possíveis as premissas são todas verdadeiras e a conclusão falsa. O estudo da lógica contribui assim decisivamente para a criatividade filosófica, pois habitua-nos a pensar em circunstâncias novas que de outro modo não teríamos em consideração.

Exercícios

1.* "A lógica impede a criatividade ao impor um colete-de-forças ao pensamento." Concorda? Porquê?
2.* "O que conta no estudo da filosofia não são os cálculos da lógica, mas a apreciação dos edifícios conceptuais propostos pelos filósofos." Concorda? Porquê?

O modelo do pensamento consequente

O pensamento consequente é o pensamento fundamentado. Um pensamento é consequente quando se baseia em razões e retira correctamente consequências das razões em que se baseia. Por exemplo, uma pessoa pode pensar que Deus existe por achar que, se não existisse, a vida não faria sentido. Ou pode pensar que o aborto é um mal por achar que matar um feto é um assassínio. Esta actividade de retirar consequências de ideias pode ser bem ou mal executada.

A lógica permite determinar que consequências se retiram correctamente das nossas ideias, e que consequências só aparentemente se retiram delas. Uma demonstração lógica é um modelo abstracto e simplificado do pensamento consequente, como veremos. Ao tomar consciência das diversas formas através das quais se pode errar ao pensar mesmo nos casos simplificados da lógica, adquire-se não apenas rigor mas também cautela e maturidade. Aprende-se a não aceitar as nossas ideias e os nossos argumentos sem uma reflexão ponderada, pois percebemos que nos podemos enganar a pensar, retirando consequências que não podem ser retiradas, ou não nos dando conta de que das nossas ideias se podem retirar consequências falsas — o que mostra que as nossas ideias são falsas.

Por exemplo, alguém poderá defender a seguinte ideia, hoje em dia muito popular: "Todas as verdades são relativas". Sem formação lógica, acontece duas coisas a essa pessoa. Em primeiro lugar, não se apercebe que a sua ideia é auto-refutante — isto é, não se apercebe que a verdade da sua ideia implica a sua falsidade. Se todas as verdades são relativas, também esta é uma verdade relativa; mas ser uma verdade relativa significa que para algumas pessoas, ou em algumas circunstâncias, ou para algumas comunidades, esta ideia é falsa. Logo, se for verdade que todas as verdades são relativas, é falso em algumas circunstâncias que todas as verdades são relativas. Em segundo lugar, não só essa pessoa não se apercebe desta dificuldade lógica elementar a que tem de responder, como sente que quem lhe apresenta este contra-argumento a está a enganar. Como o contra-argumento se baseia num raciocínio ligeiramente complexo e a pessoa em causa não tem instrumentos para avaliar a sua correcção, sente que está a ser enganada. O resultado desta situação é que essa pessoa não está equipada para discutir ideias filosóficas — tudo o que consegue fazer é dar voz aos preconceitos do seu tempo, sem ter capacidade crítica para se distanciar das suas próprias ideias e procurar responder aos argumentos que se levantam contra elas. Nestas circunstâncias, o estudo da filosofia deixa de conduzir à liberdade do pensamento crítico, e torna-se apenas um meio para sustentar preconceitos com nomes sonantes de filósofos e palavras complicadas.

Exercícios

1. O que é o pensamento consequente? Caracterize a noção e dê alguns exemplos.
2. Em que medida a lógica ajuda a pensar consequentemente?
3. Por que razão é importante pensar consequentemente?

Desidério Murcho
Extraído de O Lugar da Lógica na Filosofia, de Desidério Murcho (Plátano, 2003)
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