Trabalho de Casa de Lógica, de Bethany Carlson
11 de Abril de 2010 ⋅ Opinião

A lógica no ensino secundário

Rui Daniel Cunha
Universidade do Porto

Qual é o estado do ensino da lógica nas nossas escolas? Se a qualidade do ensino da lógica nas universidades, tanto nos departamentos de filosofia como de matemática, está hoje geralmente assegurada, e é muito boa, o mesmo não acontece, infelizmente, com o ensino da lógica no secundário, no âmbito da disciplina de Filosofia. Efectivamente, alguns professores de Filosofia do secundário continuam a leccionar uma dita “lógica aristotélica”, que está obsoleta há mais de um século (desde Frege e do seu Begriffsschrift, de 1879, pelo menos), e é cientificamente errada e pedagogicamente nefasta. Ora, o argumento que tais professores tipicamente utilizam para justificar o seu ensino da dita “lógica aristotélica” é o argumento da ignorância: é o facto de não saberem lógica moderna que tem como consequência não a poderem ensinar, visto ninguém poder transmitir qualquer saber a outrem se não possuir esse próprio saber. Ou seja, só ensina a dita “lógica aristotélica” quem não sabe lógica moderna.

Pois bem, o argumento da ignorância da lógica moderna já não funciona. O superior interesse dos alunos de Filosofia do secundário exige que também a eles seja ministrado um ensino de lógica de qualidade. Os professores de Filosofia do secundário que não sabem lógica moderna têm pura e simplesmente de a aprender, para a poderem depois ensinar aos seus alunos.

Há mais de uma década que os programas de Filosofia do secundário contemplam a possibilidade do seu ensino — tempo suficiente para qualquer professor a aprender, seguramente. E se há, no corpo docente do secundário, quem não a queira aprender, então que não leccione o 11.º ano de escolaridade, de cujo programa consta a matéria de lógica. O que não é aceitável é continuar a prejudicar gravemente aqueles para quem qualquer professor trabalha — os alunos. Ensinar lógica com qualidade significa necessariamente ensinar lógica moderna, e não a dita “lógica aristotélica”, que não é verdadeiramente lógica (porque não é matematizada) e nem sequer é de Aristóteles, como é bem sabido.

Tanto mais que já existem em português bons manuais de lógica moderna. Alguns são escritos por autores portugueses: é o caso, por exemplo, dos manuais de Augusto Franco de Oliveira, um matemático, intitulado Lógica e Aritmética e publicado na Gradiva, e de João Sàágua, um filósofo, intitulado Lógica para as Humanidades e publicado na Colibri. Outros bons manuais de lógica são traduções: destaco o livro de Newton-Smith, Lógica: Um Curso Introdutório, também publicado na Gradiva. No Brasil, a situação é ainda melhor, graças aos trabalhos dos Professores Leônidas Hegenberg e Newton da Costa, entre tantos outros, bem como a traduções de vários manuais que não chegaram a ser vertidos para o português deste lado do Atlântico.

Claro que nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e nos países de língua inglesa em geral, são literalmente dezenas e dezenas os bons manuais de lógica existentes no mercado. Alguns são decididamente introdutórios, abrangendo basicamente o cálculo proposicional e o cálculo de predicados de primeira ordem, de forma canónica.

Insistir na dita “lógica aristotélica” no secundário não é mais do que contribuir para a niilização do papel curricular e do valor da própria disciplina de filosofia (visto que a lógica é necessariamente a base conceptual inicial da filosofia), transformando-a numa disciplina morta.

Rui Daniel Cunha
ruidanielcunha@gmail.com
Gabinete de Filosofia da Educação
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
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