The Duck that Won the Lottery and 99 Other Bad Arguments
21 de Dezembro de 2009 ⋅ Opinião

Trouxe-vos paz e prosperidade!

Julian Baggini
Tradução de Vítor Guerreiro
Este ano celebramos o quinquagésimo aniversário da União Europeia. Orgulhamo-nos deste feito, que trouxe paz, prosperidade e solidariedade a um continente destroçado pela guerra.

José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia

O que quer do seu governo? Não pode pedir muito mais do que paz e prosperidade, ou pode? Bom, segundo o seu presidente, é precisamente isso o que a União Europeia deu aos seus estados membros. Três “vivas” à UE então?

Mais devagar. É verdade que não houve guerras entre os estados membros da UE desde que foi fundada, embora tenha havido bastante disso nos séculos anteriores. Também é verdade que a Europa é hoje bastante rica, mais rica do que era quando a UE começou. Mas a afirmação de que a UE foi efectivamente a causa desta paz e prosperidade exige mais indícios do que a declaração destes dois factos.

Considere-se, por exemplo, quantos países fora da UE na Europa se saíram igualmente bem no que respeita à paz e prosperidade. Em particular, a Noruega tem o segundo rendimento nacional per capita mais elevado do mundo, e também se posiciona regularmente no topo do índice do Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, o que a torna o melhor lugar para viver no mundo. Quem pode afirmar que outros países na UE não teriam um sucesso semelhante se a união jamais tivesse sido criada?

Os políticos gostam de ficar com os louros pelo que corre bem, tal como gostam de evitar a culpa pelo que corre mal. Nisso, são meramente humanos. No seu discurso de 2003 perante a Conferência do Partido Trabalhista, por exemplo, o então primeiro-ministro Tony Blair citou orgulhosamente a redução nas mortes por cancro durante o seu mandato. Não chamou a atenção para o facto de que a tendência a longo prazo em todo o mundo desenvolvido aponta para essa redução e que a queda britânica de nove por cento estava simplesmente alinhada com as médias europeias. Quando muito, o seu governo não teve senão um desempenho mediano, e é razoável afirmar que pouco controlo directo exercia sobre as tendências a médio e longo prazo.

Como jogada retórica, ficar com os louros pode ser eficaz, em parte porque os seres humanos compreendem instintivamente o mundo como algo que funciona segundo princípios causais, e é bom que o façamos. Mas a desvantagem disto é que podemos facilmente confundir conjunções não causais e conjunções causais. O sucesso sob um determinado regime é assim facilmente confundido com o sucesso por causa de um regime.

Ficar desse modo injustamente com os louros (ou com as culpas) não é algo que se restrinja à esfera política. Considere-se as afirmações causais implícitas no seguinte: “Desde que nos casámos, a tua carreira disparou ao passo que a minha estagnou.” Ou “Não houve um só acidente fatal nesta fábrica desde que estou encarregue da gestão.” E que tal: “O homem que ganhou cinco dos seis grandes campeonatos disputados entre Agosto de 1999 e Abril de 2001 com equipamento da Titleist só ganhou dois dos últimos sete, e nenhum dos últimos cinco, com o taco da Nike no saco.” Esse homem foi Tiger Woods, e a afirmação foi feita durante a sua época de azar. Desde então que ele tem recuperado a preeminência no seu desporto, com tacos da Nike. Não poderá simplesmente dar-se o caso de nem a Nike nem a Titleist deverem ficar com os louros pelo seu sucesso e que Woods é simplesmente um desportista brilhante que tem os seus altos e baixos?

Dito isto, estou certo de que se este livro vender bem será devido ao meu talento e trabalho árduo, e se for um fracasso será por culpa do editor.

Tal como as pessoas ficam com os louros injustamente, a mesma falta de clareza sobre causa e efeito pode fazer que alguns não tenham o reconhecimento que merecem. Tony Blair pode ter reivindicado mais sucessos do que devia, mas será que os críticos lhe negam os seus sucessos efectivos? Será que Alan Greenspan foi um brilhante presidente da Reserva Federal ou teve sorte apenas? Será sequer possível determinar até que ponto as pessoas deviam ficar realmente com os louros ou será o efeito do acaso demasiado grande para dar sentido a quaisquer juízos?

Julian Baggini
Retirado de The Duck that Won the Lottery and 99 Other Bad Arguments, de Julian Baggini (Granta Books, 2008, 224 pp.)
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