Aprender a Viver
21 de Novembro de 2007 ⋅ Ética

Medo de morrer

Andrea Dorothee Stephan Möllmann
Aprender a Viver: Filosofia Para Novos Tempos, de Luc Ferry
Tradução de Véra Lúcia dos Reis
Rio de Janeiro: Objectiva, 2007, 302 pp.
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Uma das inquietudes humanas, se não a maior, é a questão da finitude humana — para muitos uma certeza — e a pergunta do que vem depois — para muitos uma incerteza. Como lidar com essa questão, como vencer o medo da morte, é do que tratam filosofia e religião: é a questão da salvação, tema desta obra.

O público-alvo do livro é um público de não especialistas em filosofia, adultos e adolescentes. Escrito por um filósofo secular — Luc Ferry — ex-ministro da Educação na França, o livro aborda numa linguagem acessível e com a contínua preocupação do autor de se fazer entender, a história da filosofia a partir dos gregos até a filosofia contemporânea, com enfoque na questão da salvação, propondo-se a dar um embasamento para refletir sobre as angústias da atualidade. Dessa forma, justifica o estudo da filosofia: auxiliar na compreensão de mundo e ajudar a viver melhor.

O livro é composto de uma introdução, seis capítulos, encaminhamentos finais e bibliografia básica indicada pelo autor.

No primeiro capítulo, na busca de uma definição para o que seja filosofia, o autor parte das idéias da finitude humana e da salvação da morte, que considera as principais angústias humanas desde sempre. Traça um paralelo entre a religião e a filosofia: na primeira, a salvação se dá através de um Outro; na filosofia, tem de partir de nós mesmos. E nisso, critica à religião, dizendo que ela privilegia o conforto e a fé, no lugar da lucidez e da liberdade. Apresenta as três dimensões da filosofia ou três eixos: teoria, moral ou ética e sabedoria ou salvação, que o acompanharão durante todo tratado.

O segundo capítulo — "Um Exemplo de Filosofia Antiga: O Amor da Sabedoria Segundo os Estóicos" — versa sobre o início da filosofia e a escola estóica. Importante ressaltar que o estoicismo — uma filosofia — objetiva a salvação, através da razão, de forma diferente das religiões. Para explicar essa tese, o autor se vale dos três grandes eixos: teoria, ética e sabedoria, em que a theoria seria a primeira tarefa da filosofia: conhecer o mundo e ver o essencial que nele há. O autor explica a etimologia da palavra, do grego: to theion ou ta theia orao, significando eu vejo (orao) o divino (theion), eu vejo as coisas divinas (theia) (p. 38).

Harmonia e ordem constituem esta essência do mundo, chamada de cosmos pelos gregos, na tradição estóica. Estabelece-se uma das diferenças entre a cultura grega e judeus e cristãos, na medida em que os gregos chamam o cosmos de divino, enquanto na cultura judaico-cristã, o divino é algo criador do próprio universo, exterior ao mesmo. Os estóicos, portanto, convidam a estudar o divino, o universo, a partir de diferentes abordagens que poderiam ser chamadas de ciências, como a física, a astronomia, a biologia, etc. Está aí o componente racional do universo, na medida em que ele é ordenado, chamado de logos, pelos gregos. Os humanos, nesse sentido, seriam descobridores do divino, do cosmos, dessa lógica e ordenação. Destaca o autor, porém, que a theoria filosófica não é fragmentadora; ela se vale das ciências positivas, mas também tenta captar a totalidade do mundo. Assim, a filosofia não seria mais uma ciência, mas sim, a busca pelo sentido para o mundo.

Um mundo harmonioso e justo requer uma ação justa: a ética, ou seja, viver em conformidade com a natureza, a qual seria, segundo Cícero, "o mais belo dos governos" (p. 49).

Explicando o terceiro eixo — a sabedoria — Ferry retorna à questão da finitude humana e da salvação: divisores de água entre filosofia e religião. Cita Hannah Arendt — A Crise da Cultura — para explicitar dois modos que os Antigos consideravam para chegar à imortalidade: a procriação e o feito de ações heróicas que pudessem gerar narrativas, as quais venceriam a passagem dos tempos. Surge um terceiro modo — com o advento da filosofia — que é o alcançar da sabedoria para se tornar imortal, exemplificado por uma máxima de Epicteto em que "as espigas desaparecem, mas o mundo não" (p. 55). A morte, quando se atinge um estágio de sabedoria, tornar-se-á apenas uma passagem, pois se compreendendo o universo de forma panteísta, sempre faremos parte dele.

Para os estóicos, um dos exercícios de sabedoria para a busca da salvação seria não viver no passado (nostalgia), nem no futuro (esperança). O convite que segue é em prol do não-apego aos bens deste mundo. Vencer os medos relativos às dimensões do tempo, passado e futuro é tocar no ponto da salvação.

Para Ferry, o estoicismo foi seguido (substituído) pelo cristianismo porque a salvação oferecida pelo estoicismo é uma salvação neutra, no sentido de que após a morte, nossa passagem é para nos tornarmos parte do cosmos, enquanto no cristianismo teremos a promessa de manutenção de nossa pessoalidade e de nossos entes queridos.

No capítulo 3 — "A Vitória do Cristianismo sobre a Filosofia Grega" — o autor volta ao seu fio condutor — theoria, ética e sabedoria — para explicar como a doutrina cristã se sobrepôs à filosofia durante quinze séculos. Na theoria visualizam-se cinco traços de ruptura do cristianismo com o mundo grego. O divino, antes identificado com o universo, agora se personifica em Cristo, que sugere que a razão deve dar lugar à fé. Esse é o primeiro traço: a personalização da salvação na pessoa de Cristo. Os dois aspectos fundamentais da theoria mudam do cosmos para uma pessoa e da razão para a fé. Portanto, o segundo traço de ruptura é a fé, e com ela a confiança num Outro, ocupando o lugar da razão. O terceiro traço é a humildade de quem crê, não mais o entendimento dos filósofos: humildade para aceitar Jesus como divino e para abandonar a razão em prol da fé. O quarto traço de ruptura: a filosofia se subjuga à religião, pois não desaparece inteiramente, mas se adapta. Está presente na interpretação dos símbolos e das parábolas e na interpretação da natureza como obra de Deus. No quinto traço de ruptura, a filosofia torna-se escolástica, não mais uma sabedoria, mas uma disciplina escolar, sendo que contemporaneamente, a filosofia ainda traz esse reflexo, quando ela se reduz a uma história das idéias, acompanhada de um discurso.

Como a ética se diferencia no cristianismo do pensamento grego? São apresentados três traços de ruptura. O primeiro traço de ruptura é constituído pela liberdade de escolha e a idéia de igualdade entre os homens, podendo ser considerado o início da democracia. A aristocracia grega dá lugar à meritocracia do cristianismo, ou seja, a forma como o ser humano desenvolve suas qualidades recebidas. A liberdade torna-se fundamento da ética, não mais a natureza, onde o uso dos dons pode ser virtuoso, não os dons em si. O segundo traço de ruptura, quanto à ética, é quando o espírito, a consciência, se sobrepõe à lei. Assim, o cristianismo torna-se inovador com relação ao mundo grego e ao judaísmo, não impondo juridicidade à vida cotidiana de forma estatutária. Terceiro traço de ruptura: com o cristianismo surge uma nova idéia de humanismo, com outra conotação ética em que todos os homens se equivalem. Surge a primeira moral universalista com o cristianismo.

Como a sabedoria se diferencia no pensamento cristão? Três traços característicos se apresentam, a saber. O primeiro traço é a salvação que para os estóicos era impessoal, e torna-se pessoal e acolhedora, através do amor. Trata-se de uma imortalidade singular e não eternidade anônima e cósmica. O segundo traço fala exatamente do amor que vence a morte. O autor diferencia três tipos de amor: o amor-apego dos apaixonados, o amor ao próximo em geral (compaixão) e o amor a Deus (a ressurreição), sendo apenas esse último fonte de salvação. O amor-apego e a compaixão universal podem acontecer porque estão ligados ao divino. No terceiro traço encontra-se a imortalidade enfim singular, culminando na ressurreição dos corpos. O que a ressurreição cristã tem de diferente quando relacionada a outras filosofias e religiões anteriores ao cristianismo: a imortalidade pessoal da alma, a ressurreição dos corpos mais a singularidade dos rostos amados e a salvação pelo amor.

Encaminhando o próximo capítulo, o autor questiona: por que a doutrina cristã começa a declinar com o Renascimento? Como a filosofia ganhou forças sobre a religião, a partir do século XVII? É o nascimento da filosofia moderna.

No quarto capítulo — "O Humanismo ou o Nascimento da Filosofia Moderna" — é abordado o nascimento do mundo moderno, a partir da superação da cosmologia antiga e da reavaliação com relação às autoridades religiosas, ocorrendo paralelamente com uma revolução científica singular na Europa. O surgimento da física moderna atinge substancialmente a religião. Nos séculos XVI e XVII há uma desorientação geral, entrando em cena o humanismo "para designar esse período em que o homem se encontra só" (p. 117).

Na theoria chega-se à conclusão de que o mundo não é bem acabado e harmonioso, mas sim, infinito e não fechado. No plano teórico, Ferry cita Kant cuja obra marcará toda filosofia moderna — Crítica da Razão Pura, de 1781 — como elaborador de uma teoria do conhecimento, quando pergunta pela síntese, que é o cerne do método moderno. Assim, a theoria antiga — passiva — cede lugar à ciência moderna — ativa; a ação toma o lugar da contemplação: surge o método experimental.

Como se poderá imitar o universo no plano ético, se ele desmorona? Conseqüentemente, a doutrina da salvação também precisa ser reformulada. No pensamento moderno, o homem está no centro e em igualdade com relação ao outro. Significativamente, surge a Declaração dos Direitos do Homem, de 1789. Para justificar a posição do homem no centro do mundo, surgem as comparações/diferenciações entre homem e animal nos séculos XVII e XVIII. Ferry menciona Rousseau, para quem o homem é detentor da perfectibilidade — faculdade de se aperfeiçoar por toda vida —, o que permite a ele enfrentar o instinto através da liberdade que é a possibilidade de afastamento e pode levá-lo, inclusive a projetar a maldade. O ser humano, como não é prisioneiro de um código natural, é ético. Com a nova antropologia de Rousseau, surge a ética laica de Kant, com conseqüências, inclusive para a Revolução Francesa, a qual se baseia em dois pilares: o desinteresse e a universalidade. É o advento da moral moderna.

O quinto capítulo — "A Pós-modernidade: O Caso de Nietzsche" — trata da Filosofia contemporânea: idéias pós-modernas, a partir do século XIX, fazendo crítica ao humanismo e ao racionalismo, cujo maior representante será Nietzsche. A filosofia moderna havia destituído o cosmos, com uma "verdadeira sacralização do espírito crítico" (p. 175). Para Nietzsche, o humanismo das Luzes, no entanto, continua acreditando em alguns valores superiores à vida, permanecendo preso às cosmologias antigas ou à religião. Estabelece-se assim uma ruptura com o humanismo. Nietzsche configura-se o desconstrutor dos ideais, propondo a distinção entre dois grandes tipos de força no universo: as pulsões ou instintos. De um lado, as reativas, e de outro, as ativas. Com relação à moral, Nietzsche nos guia na procura de uma vida boa, integrando em nós todas as forças. Referente à doutrina da salvação, Nietzsche nos apresenta o amor fati: uma doutrina totalmente terrestre, sem ídolos, nem Deus. É amar o real tal qual ele é. A desconstrução está feita.

O último capítulo — "Depois da Desconstrução: A Filosofia Contemporânea — pergunta: E agora? Quais os caminhos para a filosofia contemporânea? Ferry remete ao mundo técnico de Heidegger, em que os meios são mais importantes que os fins, constituindo a vitória da técnica. Não há mais a certeza, de que a técnica nos levará ao que é melhor para a humanidade: é o que opõe o mundo contemporâneo às Luzes. Ferry vê duas possibilidades para a filosofia contemporânea: tornar-se uma disciplina técnica na universidade ou pensar o humanismo após a desconstrução. Esse humanismo estaria livre dos ídolos da metafísica moderna.

Ferry defende um humanismo que repense a questão da transcendência. E assim, ele apresenta seu programa filosófico final, novamente baseado na theoria, moral e salvação. Há uma transcendência em toda imanência: a verdade, a beleza, a justiça e o amor. São valores que existem fora de nós. E o espírito crítico, pela primeira vez, será auto-reflexivo. A moral será baseada na sacralização do outro. Será uma transcendência horizontal, a preservação da vida. Enfim, a questão da salvação na filosofia contemporânea: a exigência do pensamento alargado, a sabedoria do amor e a experiência do luto. O pensamento alargado é a humanização do humano, é o envelhecer com sentido de alargar a visão para que, em última instância, a morte não signifique mais nada. A sabedoria do amor é o amor à singularidade, é o humanamente amável. A experiência do luto sugere pensar todos os dias um pouco na morte, para procurar fazer aqui e agora.

A título de conclusão, Ferry faz o convite final de não ficar preso ao ceticismo, nem ao dogmatismo, mas sim alargar o pensamento. Uma theoria auto-reflexiva, uma moral aberta ao universo que está se globalizando e uma salvação pós-nietzschiana. E finaliza dizendo: "O respeito pelo outro não exclui a escolha pessoal. Ao contrário, a meu ver, ele é sua condição primeira" (p. 300).

Finalmente, ressalto que a obra de Ferry se destaca por sua preocupação para que o leitor entenda a linguagem, sem cair num viés demasiado filosófico, e por seu raciocínio lógico que acompanha toda obra, numa linha do tempo a ser seguida, desde a Antigüidade até à pós-modernidade, tecendo as grandes conexões. No final, na proposta de seu programa de filosofia, não resolve a questão da salvação — nem é intenção dele resolvê-la —, mas apenas recomenda que amemos no presente, deixando a crença para quem quiser crer. O livro é altamente recomendável, didático, conteudista, mas ao mesmo tempo reflexivo, argumentativo e instigante. É um convite para todos os educadores, não apenas pelo seu conteúdo, mas pela forma como foi elaborado, e um desafio para pensarmos sobre que posição queremos assumir, representando um modo de conceber a espiritualidade.

Andrea Dorothee Stephan Möllmann
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
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