Santo Anselmo
22 de Janeiro de 2010 ⋅ Filosofia da religião

A autonomia da razão

Helena Costa
Anselmo e a Astúcia da Razão, de J. M. Costa Macedo
Porto Alegre: Est Edições, 2009, 208 pp.
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Este livro de José Maria da Costa Macedo tem como ideia mestra mostrar a importância e a emergência da autonomia da razão na obra de S. Anselmo. Partindo das obras Cur Deus Homo, Monologion e Proslogion, cujo argumento ontológico fornece a base mais sólida para se perceberem os limites da razão e a sua abertura ao absoluto, Costa Macedo, com minucioso recurso aos textos originais em latim, pretende mostrar como a razão se constituiu como princípio autónomo na obra e no pensamento anselmianos. Sendo Anselmo um autor subordinado à fé e tendo, quase sempre, o seu pensamento sido apresentado sob o lema da fides quarens intelectum, Costa Macedo apresenta a posição anselmiana virada para uma razão que tenta erguer-se para lá do humano, como uma exaltação que supõe uma concepção aberta e optimista, racionalmente virada para a fé. Diga-se que Anselmo e a Astúcia da Razão, organizada em duas partes e uma conclusão, é a edição actualizada de um dos trabalhos que integravam as provas de aptidão científica e capacidade pedagógica que J. M. Costa Macedo, antigo professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, defendeu em 1995 nesta mesma Universidade.

A Primeira Parte da obra intitula-se “Razão e Fé fora do Proslogion”, onde o autor pretende mostrar que em toda a obra de S. Anselmo a razão se destaca e se autonomiza, em particular nas obras que tratam as questões sola ratione prescindindo da Revelação, em particular o Cur Deus Homo e o Monologion. Costa Macedo trabalha sobre aquilo que Anselmo chamará de razões de fé, rationes fidei, para explicar as coincidências entre fé e razão e mostrar que existem deduções racionais que por coincidirem com a fé são pro fide (Anselmo as chamará de rationes fidei) que não passam nem pela fé nem pela Revelação, mas são razões que partem da própria razão. Isto é, existe uma faculdade humana (ratio), própria da mente humana que, devidamente orientada, encontra por via natural parte do que foi apresentado por via sobrenatural (pela via da Revelação). Com isto S. Anselmo estabelece um princípio de orientação pessoal que supõe ser possível chegar por via racional a conclusões que não contrariem princípios de fé (pp. 20-22). Anselmo discute sola ratione a existência de Deus, a autonomia de Deus, a subordinação das criaturas criadas ex nihilo, a cognoscibilidade de Deus, a predicação dos atributos e a sua concepção, as pessoas da Trindade.

Tendo sempre como apoio as duas obras de Anselmo e a definição do homem como imagem de Deus destinada a admirá-lo, Costa Macedo, após discutir as provas da existência de Deus e dos seus atributos através da razão, vai apresentar a razão com o dever de encontrar a fé, de encontrar a urgência de ter fé. Anselmo inaugura uma via razão-fé que define o carácter desta ratio como uma condição necessária para a realização do amor e da esperança, realização estabelecida pela razão, mas justificada racionalmente pela fé. A fé apresentar-se-á como uma consequência racional, como uma oposição entre fé morta e fé viva, uma fides rationalis (pp. 54-58).

A Segunda Parte tem por título “Fé e Razão no Proslogion — Liber Apologeticus. Aqui a razão é perspectivada de maneira diferente. Costa Macedo divide esta segunda parte em quatro capítulos. O primeiro capítulo, “Especificidade do Discurso Racional no Proslogion, baseia-se na análise do argumento e nas suas derivações a partir da fé. O autor defende que o Proslogion é continuação do Monologion e ressalva que embora o Proslogion tenha uma escrita mais fideísta a sua estrutura racional está salvaguardada. Realça a novidade do desejo (desiderio) e mostra como S. Anselmo usa o argumento racional numa dinâmica de desejo da contemplação de Deus, que traz também os inconvenientes desse mesmo desejo, quando se perde consciência da distância e não se reconhece o desejo autêntico. “À razão será dado descortinar os caminhos do desejo simultaneamente ao caminhar dedutivo sobre a natureza de Deus.” No que concerne à metodologia, o desejo passa a ocupar o lugar da fé (p. 67). No segundo capítulo Costa Macedo, após uma análise do Proslogion e a especificidade do seu discurso racional, discutem-se as objecções ao argumento ontológico que pretendem ver, no texto anselmiano, uma subordinação à fé (discutindo-se, entre outros temas, a descoberta da definição aliquid quo nihil majus cogitari potest, pp. 81-89; a crítica a Gaunilo logo no capítulo 1 do Liber Apologeticus, onde Anselmo refuta a sua crítica dizendo que, seja qual for o entendimento que tem de Deus, algo terá no entendimento, mesmo que não se saiba se lhe corresponde algo fora do intelecto, pp. 89-91; a referência à doutrina de S. Paulo acerca do nosso conhecimento de Deus a partir das coisas visíveis, igualmente no Liber Apologeticus, p. 92). Procurando estabelecer uma tese da racionalidade metodológica total em que coloca o Proslogion ao mesmo nível das obras sola ratione, o autor analisa o problema da origem da ideia do argumento. Sempre procurando a compreensão do fundo racional do discurso anselmiano, responde-se à pergunta “Qual a origem da noção aliquid quo majus cogitari nequit? Inata ou adquirida?” (cfr. pp. 93-112). Tendo presentes as disputas de Anselmo com Gaunilo acerca da consistência do argumento, Costa Macedo vai responder que aliquid quo majus cogitari nequit (“um ser em comparação ao qual não se pode conceber outro maior”) é adquirido quer como uma definição encontrada pela crença, quer como uma frase que se usa perante alguém que negue a existência de Deus, pois dizê-la significa que quem a ouve capta o sentido e percebe o seu significado (pp. 93-97). Surgirá a hipótese destas duas noções apontarem para um não inatismo, o que seria algo não explícito em S. Anselmo e talvez até anterior a ele, mas tal não é totalmente explicitado (pp. 97-99), pelo que, por outro lado, Costa Macedo, a partir de uma conclusão vista através do criacionismo, afirma que a definição do argumento pode ser entendida como inata (pp. 99-106). Recorrendo ao Monologion, com base na relação mente-realidade o sentido do argumento pode adquirir-se também activamente, de acordo com um dinamismo que resulta racionalmente da relação básica entre mente-realidade (pp. 107-111). O terceiro capítulo apresenta a interpretação racional do Livro Apologético, com um estudo do método da construção ou da criação desta obra, da própria estrutura dos raciocínios que a compõem (trata da arquitectónica, estuda o argumento que leva à radicalidade com que todos os argumentos do Proslogion devem ser lidos, interpreta a problemática dos argumentos acerca da existência e trata ainda a problemática central da passagem da afirmação de existência in intellectu para in re). O último capítulo, “Majus”, procura mostrar que tipo de teísmo podemos encontrar a partir do Proslogion e do Liber Apologeticus. Costa Macedo diz (pp. 173-179) serem o teísmo e o ateísmo radicais duas fortes possibilidades no pensamento anselmiano, mas esta será uma temática trabalhada após responder a duas questões: “O argumento prova algo ou não, dentro da epistemologia de S. Anselmo? E se prova, que prova?” (pp. 153-162 e 183-190) e “Com que legitimidade se passa do puro existir já provado para os atributos em geral?”(pp. 163-172). De referir ainda que, segundo o autor, S. Anselmo ao prosseguir na análise do argumento, quando afirma qua penitus nihil est melius, já supõe provada a existência da Suma Essência. Veremos também nesta obra que será entre a comparação dos termos majus e melius que irá surgir a pertinente questão sobre os atributos entitativos.

Costa Macedo explica no final que o primordial objectivo da sua obra foi mostrar, tal como S. Anselmo com o seu argumento, que não se pode desperdiçar em nada o contributo da razão. Afirma também que, com a criação do argumento, S. Anselmo se demarca de todo o pensamento anterior: “O Proslogion, quanto ao argumento da existência, quanto à pretensão de provar com o mesmo argumento essa existência e atributos e, finalmente, quanto à desejada auto-suficiência desse mesmo argumento, ultrapassa todas as linhas anteriores de pensamento” (p. 181). Talvez por isto mesmo, Costa Macedo sublinhe a importância deste mesmo argumento. Começa por mostrar a sua validade e defende o sentido do próprio argumento face críticas que se lhe seguiram (por exemplo: Gaunilo e S. Tomás de Aquino) e explica que seja qual for a validade de aliquid quo nihil majus cogitare nequit, a grande consequência do argumento foi autonomizar a razão da fé. Esta autonomização da razão permite pensar o nascimento duma ontologia que pode significar um desvelamento do Deus da filosofia e um caminhar para a noção de Ser sola ratione. Esta autonomia da razão vem também redescobrir o homem como natura rationalis, trazendo um novo respeito pelo corpo e pelos sentidos, lembrando que o homem é imagem de Deus e criando um desejo de se assemelhar a Deus e de se subordinar à sua vontade.

Assistimos então, pela obra Anselmo e a Astúcia da Razão, a uma reconstituição do pensamento anselmiano por uma via racionalista. Somos levados ao encontro dum conhecimento sola ratione onde a procura de algo superior à própria a razão a faz sobressair. Conhecemos a autonomia da razão perante a fé e percebemos uma vontade de percorrer os mesmos caminhos rumo ao Absoluto. Com a fundamentação do argumento na definição aliquid quo nihil majus cogitare nequit percebemos que esse mesmo percurso está descrito na própria análise de S. Anselmo. Posto isto, estamos em condições de afirmar que a obra de J. M. Costa Macedo é uma análise minuciosa do pensamento anselmiano, focado numa perspectiva racionalista, mas que é, principalmente, uma homenagem à razão em si.

Helena Costa
helena5costa@gmail.com
Universidade do Porto
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