Dicionário de Filosofia
26 de Setembro de 2010 ⋅ História da filosofia

Alexius Meinong (1853-1920)

Richard Sylvan
Universidade Nacional da Austrália

Filósofo austríaco, foi aluno de Brentano, que o influenciou fortemente. A partir de 1889 foi professor em Graz, onde estabeleceu um influente instituto de psicologia e uma importante escola de filosofia.

As principais investigações de Meinong começam com a sua filosofia da mente, em que apresenta uma análise geral tripartida da experiência mental, incluindo acto, conteúdo e objecto. Uma marca distintiva do mental é que as experiências e estados mentais se dirigem sempre a um objecto. Chama-se por vezes “tese da intencionalidade” a esse direccionamento universal da experiência mental para os objectos. Grande parte da sistematização muitíssimo original de Meinong nasce da investigação dos objectos envolvidos; isto rapidamente vai muito além do sujeito da experiência. Na análise relacional completa das experiências mentais básicas, um sujeito orientado para um objecto, os elementos complementares dão as duas dimensões da direcção e da focagem. O “elemento de acto” significa a maneira como determinado sujeito se direcciona para o objecto em causa, ao passo que o “elemento de conteúdo” dá focagem; é isso que faz pender o direccionamento para um objecto em vez de outro. Por exemplo, a diferença entre pensar num deus e acreditar num deus é uma diferença de acto; a diferença entre pensar num deus e pensar num unicórnio é uma diferença de conteúdo. Grosso modo, ao ajuizar que Pégaso tem asas, o acto é o de ajuizar, o objecto é a proposição (ou objectivo) de que Pégaso tem asas, e o conteúdo é o que direcciona esse ajuizar para essa proposição. Consegue-se obter uma classificação minuciosa dos fenómenos mentais em termos de acto-conteúdo. Em termos genéricos, estes dividem-se em três tipos: 1) apresentações, 2) pressupostos e juízos, e 2) atitudes de afecção e desiderativas. A estas correspondem, aproximadamente, três divisões principais da teoria filosófica de Meinong: teoria dos objectos, teoria dos complexos e teoria do valor.

Teoria dos objectos

A teoria dos objectos representa uma enorme expansão da ontologia, a teoria do que existe, abrangendo desse modo também o que não existe, incluindo quer os objectos que são meramente possíveis, quer os objectos que são impossíveis, e talvez também objectos incompletos. Isto contrasta com toda a metafísica tradicional, em que a ontologia é o centro, que revela um “forte preconceito a favor do efectivo”, tendendo a negligenciar e a mudar a natureza do que não existe resolutamente — não apenas objectos que existem apenas de modo marginal ou vacilante mas, sobretudo, objectos que podem não ter qualquer tipo de ser.

Segundo a teoria geral dos objectos de Meinong, muitos objectos não existem, contudo estes objectos são constituídos de uma ou outra maneira, em virtude dos atributos que têm, e assim podem ser objecto de predicações verdadeiras. Primeiro, todo o objecto tem um carácter (um Sosein). Este carácter é dado por meio de um conjunto de atributos característicos (ou nucleares). Segundo, os objectos têm realmente os seus atributos característicos. Por exemplo, o quadrado redondo é quadrado e redondo; as frases “o quadrado redondo é quadrado” e “a montanha de ouro em que estou a pensar é de ouro” são afirmações verdadeiras, apesar de serem sobre objectos inexistentes. Assim, em terceiro lugar, o modo como os objectos são, tal como isso é dado nos seus atributos característicos, é substancialmente independente de existirem ou não. Este aspecto é aprofundado na tese da independência do Sosein relativamente ao Sein (ser), ou da constituição relativamente à existência. Esta tese faz parte da doutrina de Meinong do Aussersein (ser para lá), que diz respeito a uma classe de objectos para lá do ser de qualquer tipo, subsistência ou existência.

Os objectos dividem-se numa diversidade deslumbrante de categorias. Uma divisão principal separa objectos (básicos) de objectos de ordem superior, que se fundam nos objectos de ordem inferior. Entre os objectos, uma divisão importante entre os objectos inexistentes é entre os meramente possíveis e os impossíveis, cujos atributos se revelam muito enigmáticos para a teoria lógica comum. Referimo-nos a uma montanha de ouro, apesar de não existir; objectos incompletos, como “algo azul”, não tendo atributos definidos quanto à forma violam a lei habitual do terceiro excluído; objectos impossíveis, como o quadrado redondo, violam a lei habitual da não contradição.

Apesar de a própria teoria de Meinong permanecer incompleta no que diz respeito a várias questões de importância, como saber exactamente que atributos são nucleares e que atributos os objectos inexistentes não têm, Meinong indica efectivamente vários outros princípios de grande importância lógica, nomeadamente: 1) um axioma da abstracção de objectos: para todo o Sosein, há um objecto correspondente; 2) liberdade de pensamento e de pressuposto: todo o objecto pode ser pensado e (numa ordem superior) qualquer proposição pode ser pressuposta; 3) o princípio da significação: a significação (Bedeutung) de todo o termo sujeito é um objecto. Estes princípios simplificam e aplanam muitíssimo a teoria lógica geral. Por exemplo, facilitam uma teoria semântica uniforme, dado que todo o termo sujeito funciona inicialmente do mesmo modo, e permitem um tratamento uniforme do facto e da ficção, dado não haver diferença qualitativa entre os caracteres dos objectos, quer existam, quer não.

Teoria dos complexos

Entre os objectos complexos, os que são compostos por outros itens são todos, agregados relacionais e objectos de ordem superior (os que contêm objectos como constituintes). Entre estes últimos, os objectivos são os objectos dos pressupostos e juízos. Um pressuposto como “os discos voadores são ilusórios” não significa um objecto básico nem um objecto concreto, antes um objectivo, o ser ilusório dos discos voadores, um objecto de ordem superior que contém os discos voadores como constituintes. Ou seja, os pressupostos, como os juízos, tomam os objectivos por objectos. De facto, um objectivo é o que os filósofos habitualmente chamam proposição ou facto complexo. Do mesmo modo que há objectos que não existem, também há objectivos que não ocorrem, i.e., proposições falsas. Tais objectivos são também objectos genuínos, com uma constituição independente do pensamento ou da expressão. Esta teoria de objectivos ajuda imediatamente a eliminar enigmas tradicionais, como a questão de saber como podemos exprimir o que não é, ou acreditar nisso. Meinong argumenta, mais em geral, que só a teoria dos pressupostos e da sua significação pode explicar adequadamente fenómenos como a apreensão de factos negativos; a natureza da inferência, do diálogo e da comunicação em geral; e até a natureza do lúdico e dos jogos, assim como da arte.

Teoria da evidência e da apreensão de objectos

Os objectos que não existem desempenham um papel crucial na apreensão dos que existem e na aquisição do conhecimento. Os objectos incompletos, indeterminados em muitos aspectos, são os meios pelos quais temos acesso mental a objectos que existem e cujos traços estão inteiramente determinados. Por exemplo, percepcionamos uma zebra em termos de um objecto, datum, sem qualquer número determinado de listas pretas. Na epistemologia, Meinong ajusta a teoria dos indícios de Brentano e da auto-evidência (os juízos a priori não são afectados pela existência ou inexistência dos seus objectos) e, mais ousadamente, introduz uma noção de evidência presumida (Vermutungsevidenz), que é necessária para compreender, e justificar, a percepção, a memória e a indução. Descobrimos os elementos enganadores, pela sua falta de coerência relativamente ao nosso corpo geral de conhecimento. Assim, prescrições evidentes podem ser directamente evidentes sem serem certas, podendo até ser ocasionalmente falsas. Meinong resolve de maneira holista os problemas que esta consequência inabitual parece gerar (antecipando a concepção posterior de John Rawls, por exemplo, de um equilíbrio reflexivo). Por exemplo, tais fragmentos de conhecimento podem ser comparados com cartas num baralho, nenhuma das quais pode ficar sozinha de pé, mas que colocadas de pé em conjunto podem sustentar-se mutuamente.

Teoria do valor

Na teoria do valor (impessoal) do Meinong da maturidade, há características ou formas de objectos, incluindo características de valor e universais de valor, que são discernidas por meio das nossas emoções e desejos, por apresentação emocional. (A teoria anterior de Meinong do valor pessoal é significativamente diferente, sendo muito mais psicológica.) Isto é, as emoções e desejos, como as percepções sensoriais, têm funções cognitivas subsidiárias. A teoria não é subjectiva nem objectiva, nem uma teoria do sentido moral, dado nenhum sentido especial existir, existindo apenas uma base emocional para avaliar dados e outra informação semelhante. Por exemplo, o sentimento de reverência ao entrar numa floresta densa direcciona-nos para o esplendor da floresta. O esplendor apresentado desse modo emocional sem dúvida que se baseia em características naturais da floresta, tal como os seus vários níveis, a diversidade de habitats, e a diversidade e dimensões imensas das suas árvores. Mas, uma vez mais, o valor em causa, o esplendor, não se reduz a uma qualquer soma destas características naturais, tal como não se reduz a características da sua apresentação, nem a aspectos dos seus métodos de verificação. Meinong não visa uma análise redutiva do valor, que seria inapropriado para objectos de valor distintos “lá fora”, independentes de nós; ao invés, está a trabalhar na direcção de uma teoria totalmente fenomenológica do valor.

O processo de avaliação também revela vários géneros de objectos de valoração de ordem superior, universais de valor; o agradável, o desejável e o obrigatório (de um ou de outro tipo), entre outros, são revelados (por abstração), juntamente com o bem e a beleza. Isto leva Meinong a uma classificação e investigação detalhada de dignitativos, que correspondem a conceitos axiológicos, e desideritativos, que correspondem a conceitos deônticos.

Algumas obras: Über Annahmen 1902; Gesammelte Abhandlungen, 2 vol., 1913-1914; Über Möglichkeit und Wahrscheinlichkeit 1915; Über emotionale Präsentation 1917. Leituras: J. N. Findlay, Meinong's Theory of Objects and Values 1963; Karel Lambert, Meinong and the Principle of Independence 1983; R. Grossman, Meinong 1999.

Richard Sylvan
Retirado de Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner (Lisboa: Edições 70, 2010)
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