Old Steps, High Tide, de BUR?BLUE
5 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Melhorar o ensino

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

As sucessivas reformas educativas a que temos assistido desde 1974 mudaram muito o ensino. Mas o que precisávamos, então como hoje, era melhorá-lo. Infelizmente, as reformas mudam o ensino, mas não o melhoram. Quando se imagina como seria o ensino hoje se nenhuma reforma se tivesse feito — excepto a natural actualização dos conteúdos dos programas — não se vê o que estaria pior comparando com o que efectivamente temos.

O ensino não se melhora com catadupas de legislação, reformas, novas regras, novas fantasias educativas. As políticas mediáticas de que os responsáveis educativos tanto gostam não têm geralmente qualquer impacto causal visível na qualidade do ensino. Infelizmente, são precisamente essas políticas que lhes dão currículo. Por outro lado, estes responsáveis são incapazes de escrever um artigo de vinte páginas sobre física ou história que ajude estudantes ou professores destas matérias a compreender melhor a física ou a história. Por isso, temos reformas que se sucedem, mas o trabalho de qualidade, quando é feito, passa ao lado dos responsáveis educativos, que até o vêem com maus olhos.

Como se melhora então o ensino? Com dois tipos de coisas, e ambas são demasiado humildes e quotidianas para serem mediáticas e consequentemente são desinteressantes para os políticos. Em primeiro lugar, melhora-se o ensino escrevendo e traduzindo bons livros para estudantes e professores, com uma linguagem clara e directa, e que sejam cientificamente sólidos e didacticamente lúcidos. Estes materiais podem então ser usados para estudar, discutir em sala de aula, manusear. É um sinal da miséria a que chegámos que seja preciso recordar às pessoas que os livros de qualidade são a base do ensino de excelência.

Em segundo lugar, estimulando uma mentalidade que permita a professores e estudantes melhorar o seu trabalho. Isto implica deixar de usar a escola e a cultura como instrumentos que servem para oprimir as pessoas que não sabem dizer "epistemologicamente" sem gaguejar; implica parar de encarar a história ou a física quântica como instrumentos de opressão social, como tem sido tradição entre as classes letradas portuguesas.

Finalmente, é preciso abandonar o preconceito aristocrático segundo o qual os pobres são geneticamente idiotas e por isso só podem interessar-se por rap e jogos de computador, mas não por medicina ou astronomia. Os exames de fantasia e a eliminação das disciplinas e dos conteúdos vistos como "difíceis" resultam deste preconceito quase racista. Se abandonarmos este preconceito, fazemos então a pergunta educativa crucial: "Como mostrar aos estudantes culturalmente mais carenciados a importância de coisas de que eles infelizmente nunca ouviram falar em casa?" E uma parte da resposta leva-nos outra vez para a importância dos livros; livros de contornos bem definidos, com uma linguagem simples, acessíveis, mas cientificamente rigorosos e capazes de transmitir o gosto pelo estudo. É disso que precisamos no ensino, e não de mais reformas.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (27 de Janeiro de 2009)
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