3 de Julho de 2016   Filosofia da mente

O tempo e o observador: o onde e o quando da consciência no cérebro

Daniel C. Dennett & Marcel Kinsbourne
Tradução de Luís M. S. Augusto

Não tenho a certeza se os outros não me conseguem ver ou se, uma fracção de segundo após o meu rosto interferir com o seu horizonte, uma milionésima de segundo após terem pousado o seu olhar em mim, eles começam já a varrer-me da sua memória: esquecido antes de chegar a ser o pobre, triste arcanjo de uma recordação. (Ariel Dorfman, Mascara, 1988)

Quando os avanços científicos vão contra as intuições do “senso comum”, as ideias a que nos habituámos subsistem frequentemente, não só para além da sua utilidade ultrapassada, mas até mesmo confundindo os cientistas cujas descobertas as deviam ter destronado. Identificamos aqui um erro de pensamento omnipresente que tem origem precisamente numa tal fidelidade despropositada a quadros habituais, facilmente demonstrável com exemplos retirados de trabalhos recentes nas áreas da psicologia e das neurociências. Embora este seja um texto “teórico”, dirige-se especialmente àqueles que pensam, erroneamente, que não têm teorias e que nem precisam delas. Mostramos como factos incontestáveis acerca das propriedades espácio-temporais de acontecimentos que envolvem transmissão de informação no cérebro nos obrigam a abandonar todo um conjunto de intuições profundamente enraizadas acerca da “corrente de consciência” e da sua relação com acontecimentos com lugar no cérebro.

Na secção 1 apresentamos dois modelos de consciência, o modelo padrão do Teatro Cartesiano e, a nossa alternativa, o modelo das Versões Múltiplas, descrevendo de forma breve quatro fenómenos de interpretação temporal que levantam problemas ao modelo padrão. Dois deles, que fomos buscar à investigação levada a cabo por Libet, têm sido amplamente discutidos por razões metodológicas mas, encobertas na polémica que os envolve, encontram-se as suposições erróneas que trazemos a luz. Na secção 2 identificamos estas ideias intuitivas mas erróneas e mostramos o poder que têm de gerar a confusão em contextos relativamente simples. Demonstramos a superioridade do modelo da consciência das Versões Múltiplas mostrando o modo como ele evita os problemas insolúveis enfrentados pelas versões do Teatro Cartesiano. Na secção 3 mostramos como a fidelidade camuflada ao Teatro Cartesiano tem induzido em erro intérpretes dos fenómenos de Libet e mostramos ainda como o modelo das Versões Múltiplas evita essas confusões.1

1. Dois modelos de consciência

1.1. Materialismo cartesiano: haverá um “observador central” no cérebro?

Onde quer que haja uma mente consciente, há um ponto de vista. Uma mente consciente é um observador que recebe a informação disponível numa determinada sequência (mais ou menos) contínua de tempos e lugares no universo. Uma mente é, pois, um centro de subjectividade, uma coisa que é como ser algo (Farrell 1950; Nagel 1974). O como é ser essa coisa determina-se parcialmente por aquilo de que dispomos para ser observado ou experienciado ao longo da trajectória através do espaço-tempo desse ponto de vista em movimento o qual, no fim de contas, não passa disso: um ponto. Por exemplo, a dissociação surpreendente entre o som de fogos-de-artifício distantes e o seu aparecimento explica-se pelas diferentes velocidades de transmissão do som e da luz, os quais chegam ao observador (àquele ponto) em momentos diferentes, apesar de terem partido da mesma fonte ao mesmo tempo. Mas se perguntarmos onde é que se situa exactamente esse ponto de vista no cérebro, as suposições simples que funcionam tão bem a escalas maiores de espaço e de tempo caem por terra. Hoje é mais do que evidente que não há nenhum ponto no cérebro onde toda a informação convirja, e isto traz consigo algumas consequências que estão longe de ser evidentes.

A luz viaja muito mais rapidamente do que o som, tal como o exemplo dos fogos-de-artifício no-lo recorda, mas o cérebro leva mais tempo a processar estímulos visuais do que a processar estímulos auditivos. Como Pöppel (1985/1988) mostrou, graças a estas diferenças compensatórias, o “horizonte de simultaneidade” é de cerca de 10 metros: a luz e o som que partem de um mesmo ponto situado a cerca de 10 metros dos órgãos dos sentidos do observador produzem respostas neuronais “disponíveis a nível central” ao mesmo tempo. Será que podemos tornar este número mais exacto? Existe um problema. O problema não é somente a medição das distâncias entre o acontecimento exterior e os órgãos dos sentidos, ou das velocidades de transmissão nos vários meios, ou ainda a consideração de diferenças individuais. O problema mais importante é decidir o que havemos de considerar como sendo a “meta de chegada” no cérebro. Pöppel obteve os seus resultados pela comparação de medições comportamentais: tempos de reacção médios (premir botões) a estímulos auditivos e visuais. A diferença vai de 30 a 40 milissegundos, o tempo que o som leva a percorrer aproximadamente 10 metros (o tempo que a luz leva a percorrer 10 metros só infinitesimalmente é diferente de zero). Pöppel usou uma meta de chegada periférica — o comportamento externo — mas a nossa intuição natural é de que a experiência da luz e do som ocorre entre o momento em que as vibrações atingem os nossos órgãos dos sentidos e o momento em que premimos o botão para assinalar essa experiência. E isso passa-se algures centralmente, algures no cérebro nos trajectos excitados entre o órgão sensorial e os músculos que movem o dedo. Aparentemente, se pudéssemos indicar com exactidão onde a experiência ocorreu, poderíamos inferir com exactidão quando ela ocorreu. E vice-versa: se pudéssemos dizer com exactidão quando é que ela aconteceu, poderíamos inferir onde é que no cérebro a experiência consciente se localizou.

Esta imagem do modo como a experiência se deve localizar no cérebro é uma extrapolação natural do facto familiar e inquestionável de que para intervalos de tempo a uma macroescala podemos de facto ordenar acontecimentos nas categorias de “ainda não observado” e “já observado”, localizando o observador e traçando os movimentos dos transmissores da informação com relação a esse ponto. Mas quando pretendemos aplicar este método à explicação de fenómenos envolvendo intervalos muito curtos, deparamo-nos com uma dificuldade lógica: se o “ponto” de vista do observador se estende por um volume bastante extenso no cérebro do observador, o seu próprio sentido subjectivo de sequência e simultaneidade devem ser determinados por outra coisa qualquer que não uma “ordem de chegada” única, porque a ordem de chegada permanece incompletamente definida até especificarmos o destino em causa. Se A vence B numa meta de chegada, mas B vence A numa outra meta, qual dos resultados fixa a sequência subjectiva na consciência (cf. Minsky 1985, p. 61)? Qual o ponto ou quais os pontos de “disponibilidade central” que “contariam” como um determinador de ordem experienciada, e porquê?

Tomemos a evolução temporal do processamento normal da informação visual. Estímulos visuais desencadeiam séries de ocorrências no córtex, as quais gradualmente produzem conteúdos de especificidade crescente. Em diferentes momentos e em diferentes áreas, várias “decisões” são tomadas ou “juízos” são feitos: dito de forma mais literal, partes do cérebro entram em estados que respondem diferencialmente a diferentes características, por exemplo, primeiramente um mero começo do estímulo, depois a forma, mais tarde a cor (num trajecto diferente), o movimento e, por fim, o reconhecimento do objecto. É tentador supor que deve haver algum sítio no cérebro onde “tudo se junta” numa representação ou exibição multimodal que determina definitivamente o conteúdo da consciência experiente em, pelo menos, este sentido: as propriedades temporais das ocorrências com lugar nesse ponto específico da representação determinam as propriedades temporais — de sequência, simultaneidade e tempo real do início, por exemplo — da “corrente de consciência” subjectiva. Esta é a forma errada de pensar que queremos mostrar. Onde é que tudo “se junta”? A resposta, propomos, é: em lugar nenhum. Alguns dos estados com conteúdo distribuídos pelo cérebro extinguem-se num curto espaço de tempo, não deixando quaisquer marcas. Outros há que deixam marcas nos relatos verbais posteriores de experiência e de memória, na “prontidão semântica” (“semantic readiness”) e noutras variedades da estrutura perceptiva, em estados emocionais, em disposições comportamentais, e por aí fora. Alguns destes efeitos — por exemplo, influências em relatos verbais posteriores — são pelo menos sintomáticos de consciência. Mas não há nenhum lugar no cérebro pelo qual todas estas cadeias causais tenham que passar para depositarem os seus conteúdos “na consciência” (ver ainda Damásio 1989).

O cérebro tem que ser capaz de “ligar” ou “correlacionar” e “comparar” vários conteúdos discriminados separadamente, mas os processos que levam a cabo estas unificações são eles próprios distribuídos, não se encontrando todos juntos num qualquer ponto central de decisão e, como resultado, o “ponto de vista do observador” é espacialmente “espalhado”. Se os cérebros computassem a uma velocidade próxima da velocidade da luz, tal como os computadores o fazem, esta distribuição espacial seria insignificante. Mas, dadas as velocidades relativamente lentas de transmissão e de computação dos neurónios, a distribuição espacial dos processos cria um “espalhamento” temporal importante — chegando, como veremos, a algumas centenas de milissegundos — tendo em conta os valores da qual as suposições normais do senso comum acerca da correcção temporal e da chegada ao observador têm que ser substituídas. Para muitas tarefas, a capacidade humana para fazer discriminações de ordem temporal diminui até dar lugar ao puro acaso quando a diferença no momento de início é da ordem dos 50 milissegundos (dependendo das condições do estímulo), mas este limiar variável é o resultado de interacções complexas e não um limite básico da capacidade do cérebro para fazer os juízos de ordem especializados necessários na interpretação e coordenação de fenómenos perceptivos e motores. Precisamos de outros princípios para explicar as maneiras como a ordem temporal subjectiva se constitui, especialmente em casos em que o cérebro tem que lidar com sequências rápidas nos limites das suas capacidades de resolução temporal. Como de costume, o desempenho do cérebro quando posto sob pressão fornece pistas importantes relativas aos seus modos gerais de funcionamento.

Descartes, o primeiro (1662) a pensar a sério acerca do que deve passar-se dentro do corpo do observador, concebeu uma ideia tão aparentemente natural e atraente que influenciou desde então a nossa forma de pensar acerca da consciência e nos permitiu adiar enfrentarmos as aporias — até agora. Descartes concluiu que o cérebro tinha de facto um centro: a glândula pineal, que servia como via de acesso à mente consciente. Este era o único órgão no cérebro que se encontrava no meio, em vez de emparelhado, com versões esquerda e direita. A glândula pineal parecia ser diferente e, visto que a sua função era na época bastante inescrutável (e continua a sê-lo), Descartes atribuiu-lhe um papel: para que uma pessoa se tornasse consciente de algo, mensagens dos sentidos tinham que chegar a esta central, onde ela de imediato causava uma interacção especial — na verdade, mágica — entre o cérebro material do indivíduo e a mente imaterial. Quando a mente consciente decidia então agir fisicamente, enviava uma mensagem de volta “para” o corpo via a glândula pineal. A glândula pineal é, pois, como um teatro no qual se exibe informação para estudo por parte da mente.

A perspectiva de Descartes do papel da glândula pineal como o torniquete da consciência (podemos chamar-lhe o gargalo cartesiano) está irremediavelmente errada. Os problemas que o dualismo interaccionista de Descartes enfrenta, com a sua interacção sistematicamente inexplicável entre o domínio do material e o domínio postulado do imaterial, já eram tomados em consideração no tempo de Descartes, e séculos de reflexão mais não fizeram que endurecer o veredicto: a ideia do Fantasma na Máquina, como Ryle (1949) a ridicularizou, é uma solução inviável para os problemas da mente. Mas, embora o materialismo de vários tipos seja hoje uma posição aceite quase por unanimidade,2 até mesmo os materialistas mais sofisticados hoje em dia se esquecem frequentemente que, assim que a fantasmagórica res cogitans cartesiana é posta de lado, deixa de haver um papel para uma via de acesso centralizada ou, já agora, para qualquer centro funcional para o cérebro. O cérebro é ele próprio o Quartel-general, o ponto onde se encontra o observador final, mas é um erro acreditar que o cérebro possui outros quartéis-generais mais profundos, um qualquer santuário interior, a chegada ao qual é a condição necessária ou suficiente para a experiência consciente.

Chamemos materialismo cartesiano a esta ideia de um tal ponto centrado no cérebro, visto que é a perspectiva a que se chega quando se põe de lado o dualismo de Descartes sem se eliminar a imagem que lhe está associada de um teatro central (mas material) onde “tudo se junta”. Uma vez explicada, é óbvia que esta é uma má ideia, não só porque, como uma questão de facto empírica, nada na neuroanatomia funcional do cérebro sugere um tal ponto de encontro geral, mas também porque postular um tal centro seria aparentemente o primeiro passo numa regressão ao infinito de homúnculos demasiado poderosos. Se todas as tarefas que Descartes atribuiu à mente imaterial têm que ser assumidas por um subsistema “consciente”, a sua própria actividade terá que ser ou sistematicamente misteriosa, ou decomposta na actividade de subsistemas paralelos que começam a duplicar as tarefas das partes “não conscientes” de todo o cérebro. Quer alguém defenda ou não explicitamente o materialismo cartesiano, algumas suposições omnipresentes da teorização contemporânea pressupõem esta perspectiva dúbia. Nós mostramos que a imagística persuasiva do Teatro Cartesiano, na sua forma materialista, continua a reafirmar-se sob diversas roupagens e por uma variedade de razões aparentemente convincentes. Pensar nos seus termos não é seguir um atalho inofensivo; é um mau hábito. Uma das suas implicações mais sedutoras é a suposição de que uma distinção pode sempre ser estabelecida entre “ainda não observado” e “já observado”. Mas, como acabámos de defender, esta distinção não pode ser estabelecida quando descemos à escala que nos coloca dentro dos limites da extensão espacio-temporal na qual se realizam as várias discriminações. Dentro deste “ponto de vista” alargado, distinções espaciais e temporais perdem o sentido que têm em contextos mais latos.

Podemos ver melhor as características fundamentais do modelo do Teatro Cartesiano contrastando-o com a alternativa que propomos, o modelo das Versões Múltiplas:

Todas as operações perceptivas e, já agora, todas as operações de pensamento e de acção, se realizam através de processos multipistas de interpretação e de elaboração que ocorrem num espaço de tempo de centenas de milissegundos, tempo durante o qual podem ocorrer várias adições, incorporações, correcções e sobreposições de conteúdo, em várias ordens. As detecções ou as discriminações de propriedades têm que ser feitas uma só vez. Isto é, uma vez feita uma “observação” localizada, especializada, o conteúdo de informação assim fixado não tem que ser enviado para um outro lugar qualquer para ser rediscriminado por um qualquer disciminador “mor”. Por outras palavras, não leva a uma re-presentação da propriedade já discriminada para o uso da audiência no Teatro Cartesiano. O modo como uma discriminação localizada contribui para o estado dominante do cérebro (e logo para a consciência) e o efeito que ela tem nele pode mudar de um momento para o outro, dependendo da restante actividade no cérebro. Versões da experiência podem ser revistas a uma grande velocidade e nenhuma delas é mais correcta do que as outras. Cada uma delas reflecte a situação no momento em que é criada. Estas fixações de conteúdo distribuídas espacial e temporalmente são elas próprias precisamente localizáveis no espaço e no tempo, mas os seus momentos de início não determinam o início da consciência do seu conteúdo. Trata-se sempre de uma questão em aberto saber se um qualquer conteúdo específico assim discriminado chegará a aparecer como um elemento na experiência consciente. Estas discriminações de conteúdo distribuídas produzem, com o passar do tempo, algo como uma corrente ou sequência narrativa sujeita a revisões contínuas por muitos processos distribuídos pelo cérebro e que continuam indefinidamente no futuro (cf. o modelo de Calvin [1990] da consciência como “rotação de cenários” (“scenario-spinning”). Esta corrente de consciência só é algo como uma narrativa devido à sua multiplicidade; a cada instante há múltiplas “versões” de fragmentos narrativos em diferentes estádios de “montagem” em diferentes partes do cérebro. Sondar esta corrente a diferentes intervalos produz efeitos diferentes, provoca diferentes relatos narrativos por parte do sujeito. Se adiarmos a sondagem por demasiado tempo (por exemplo, uma noite inteira) o resultado pode bem ser não haver qualquer narrativa — ou então haver uma narrativa que foi digerida ou “reconstruída racionalmente” ao ponto de a sua integridade ser mínima. Se se efectuar a sondagem “demasiado cedo”, pode-se recolher dados acerca da rapidez com que se realiza uma determinada discriminação na corrente, mas isto ao preço de perturbar o progresso normal da corrente. Mais importante, o modelo das Versões Múltiplas evita o erro tentador de supor que deve haver uma única narrativa (a versão “definitiva” ou “publicada”) que é canónica — que representa a verdadeira corrente de consciência do sujeito, quer o investigador (ou até mesmo o sujeito) consiga ter acesso a ela quer não.

Os pontos principais em que este modelo difere do modelo tácito rival do Teatro Cartesiano podem ser resumidos:

  1. Discriminações localizadas não são percursores de re-presentações do conteúdo discriminado por um discriminador mais central.
  2. As propriedades objectivas temporais de estados discriminatórios podem ser determinadas, mas não determinam propriedades temporais da experiência subjectiva.
  3. A “corrente de consciência” não é uma narrativa única, definitiva. É uma corrente em paralelo de conteúdos contraditórios em constante revisão, não sendo possível eleger nenhum dos seus fios narrativos como canónico — como a versão verdadeira da experiência consciente.

As diferentes implicações destes dois modelos serão mostradas pela análise de alguns fenómenos intrigantes que parecem primeiramente indicar que a mente “prega partidas com o tempo” (Outras implicações do modelo dos Esboços Múltiplos são examinadas em pormenor por Dennett 1991).

1.2. Algumas “anomalias temporais” da consciência

Em variadas condições as pessoas relatam experiências nas quais o ordenamento temporal dos elementos na sua consciência, ou a relação temporal desses elementos com a actividade paralela nos seus cérebros, parece ser anómalo ou até mesmo paradoxal. Alguns cientistas teóricos (Libet 1982, 1985a; Popper e Eccles 1977) defenderam que estas anomalias temporais são prova da existência de uma mente imaterial que interage com o cérebro de uma forma inexplicável em termos físicos. Outros (Goodman 1978; Libet 1985b), embora evitando qualquer comprometimento com o dualismo, propuseram interpretações dos fenómenos que parecem desafiar a sequência temporal estabelecida de causa e efeito. Mais recentemente, um outro teórico (Penrose 1989 — ver ainda a recensão de vários livros em Behavioral and Brain Sciences [BBS] 13 (4) 1990) sugeriu que uma explicação materialista destes fenómenos necessitaria de uma revolução na física elementar. Estas perspectivas radicais têm sido alvo de duras críticas, mas estas não levaram em conta a possibilidade de a aparência de anomalia nestes casos resultar de erros conceptuais que estão de tal modo profundamente enraizados nas formas de pensar habituais que até mesmo muitos dos críticos caíram nas mesmas armadilhas. Concordamos com Libet e com outros que defendem que estas anomalias temporais são importantes, mas temos uma opinião diferente acerca do seu significado.

Centrar-nos-emos em quatro exemplos resumidos abaixo. Dois deles, extraídos do trabalho de Libet, têm sido focos da máxima das atenções e têm provocado especulações extremamente radicais mas, porque críticas de carácter técnico às suas experiências e à interpretação das mesmas levantam dúvidas acerca dos fenómenos que ele afirma ter descoberto, começamos com um tratamento de dois fenómenos mais simples, cuja existência não foi posta em causa mas cuja interpretação levanta os mesmos problemas fundamentais. Servimo-nos destes casos mais simples para mostrar a superioridade do modelo das Versões Múltiplas em relação ao modelo tradicional do Teatro Cartesiano, a seguir ao que aplicaremos as conclusões tiradas no cenário mais complicado das controvérsias que envolvem o trabalho de Libet. A nossa tese é a de que ainda que não se soubesse da existência dos fenómenos de Libet, os nossos conhecimentos teóricos podem facilmente explicar a possibilidade de fenómenos deste tipo pseudo-anómalo e até mesmo prevê-los.

O fenómeno phi

Muitas experiências mostraram a existência do movimento aparente ou fenómeno phi (Kolers e von Grünau 1976; ver também Kolers 1972; van der Waals e Roelofs 1930; e o tratamento em Goodman 1978). Se dois ou mais pequenos círculos separados no máximo por 4 graus de ângulo visual forem iluminados por breves instantes em rápida sucessão, um único círculo parecerá mover-se. Este é o princípio da nossa percepção do movimento no cinema e na televisão. Primeiramente estudado de forma sistemática por Wertheimer (1912; para um tratamento histórico ver Kolers 1972; Sarris 1989), o fenómeno phi foi sujeito a muitas variantes de experimentação. Uma das mais impressionantes é relatada por Kolers e von Grünau (1976). O filósofo Nelson Goodman tinha perguntado a Kolers se o fenómeno phi persistiria caso os dois círculos iluminados fossem de cores diferentes e, caso tal se verificasse, o que aconteceria à cor “do” círculo à medida que “ele” se movesse? Desapareceria a ilusão de movimento, sendo substituída por dois círculos iluminando-se de forma intermitente? Dar-se-ia que o círculo “em movimento” ilusório mudaria gradualmente de uma cor para a outra, desenhando uma trajectória na roda de cores? A resposta, quando Kolers e von Grünau realizaram a experiência, foi surpreendente: o círculo parece começar a mover-se e depois mudar de cor abruptamente no meio da sua trajectória ilusória em direcção ao segundo círculo. Goodman perguntou-se: “Como é que somos capazes de […] preencher (fill in) o círculo nos espaços-tempos intervenientes ao longo de um trajecto do primeiro flash para o segundo antes de esse segundo flash ocorrer?” (1978, p. 73; pode-se pôr a mesma questão relativamente a qualquer phi, mas a mudança de cor a meio caminho põe o problema de forma mais evidente). A menos que haja pré-cognição, o conteúdo ilusório não pode ser criado até após uma identificação do segundo círculo ocorrer no cérebro. Mas, se esta identificação do segundo círculo já está na “experiência consciente”, não seria já demasiado tarde para entrepor a cena ilusória da “mudança de cor durante o movimento” entre a experiência consciente do círculo 1 e a experiência consciente do círculo 2? Como é que o cérebro faz este truque de ilusionismo? Van der Waals e Roelofs (1930) propuseram que o movimento que ocorre é produzido retrospectivamente, gerado somente após a ocorrência do segundo flash e “projectado para trás no tempo” (Goodman 1978, p. 74), uma formulação verbal que faz lembrar o “envio para trás no tempo” (“backwards referral in time”) de Libet. Mas o que é quer dizer que este movimento experienciado é “projectado para trás no tempo”?

O “coelho” cutâneo

O braço do sujeito da experiência está pousado numa almofada em cima de uma mesa e transmissores telegráficos mecânicos de ondas quadradas são colocados em dois ou três pontos ao longo do braço até cerca de 30 centímetros uns dos outros (Geldard e Sherrick 1972; ver também Geldard 1977; Geldard e Sherrick 1983, 1986). Aplica-se uma série de batidas rítmicas, por exemplo, 5 no pulso seguidas de 2 junto ao cotovelo e mais 3 no braço superior. Estas batidas são aplicadas a intervalos de entre 50 e 200 milissegundos. Deste modo uma série de batidas pode durar menos do que um segundo ou chegar a dois ou três segundos. O efeito surpreendente é que, para os sujeitos, as batidas parecem avançar numa sequência regular ao longo de pontos equidistantes pelo braço acima — como se um animal pequeno estive a saltar ao longo do braço. Como é que o cérebro sabia que após as 5 batidas no pulso iriam ocorrer algumas batidas junto ao cotovelo? A “partida” das batidas experienciada a partir do pulso começa com a segunda batida e contudo, em catch trials nos quais nunca se chega a administrar as últimas batidas junto ao cotovelo, todas as cinco batidas do pulso são sentidas no pulso como previsto. O cérebro não pode obviamente “saber” acerca de uma batida no cotovelo até depois de ela ter ocorrido. Talvez, podemos conjecturar, o cérebro atrase a experiência consciente até todas as batidas terem sido “recebidas” e então, algures na subida até à sede da consciência (seja lá isso o que for), reveja os dados de modo a que estes se enquadrem numa teoria do movimento e envie a versão corrigida para a consciência. Mas será que o cérebro adiaria sempre a resposta a uma batida no caso de outras se lhe seguirem? Caso contrário, como é que ele “sabe” quando deve atrasar?

“Envio para trás no tempo”

Sabe-se desde Penfield e Jasper (1954) que a estimulação eléctrica directa de pontos no córtex somatosensorial pode induzir sensações em partes correspondentes do corpo. Por exemplo, a estimulação de um ponto no córtex somatosensorial esquerdo pode provocar a sensação de um formigamento breve na mão direita do sujeito. Libet comparou a evolução temporal desse formigamento induzido a nível cortical com sensações semelhantes produzidas de maneira habitual aplicando um breve impulso eléctrico na própria mão (Libet 1965, 1981, 1982, 1985a; Libet et al. 1979; ver ainda Churchland 1981a, 1981b; Dennett 1979; Honderich 1984; Popper e Eccles 1977). Ele defendeu que, embora em cada caso fosse necessário um tempo considerável (aproximadamente 500 milissegundos) para se alcançar a “adequação neuronal” (o estádio em que processos corticais culminam para dar origem a uma experiência consciente de um formigamento), quando a própria mão tinha sido estimulada a experiência era “automaticamente […] enviada para trás no tempo.”

Surpreendentemente, Libet relatou casos em que o córtex esquerdo de um sujeito fora estimulado antes de a sua mão esquerda ser estimulada, caso em seríamos levados a pensar que se sentiriam dois formigamentos: primeiro na mão direita (induzida a nível cortical) e em seguida na mão esquerda. Na verdade, contudo, o relato subjectivo foi revertido: “primeiro a esquerda, depois a direita”. Mesmo em casos de estimulação simultânea, poderíamos ter pensado, o formigamento na mão esquerda deveria ser sentido em segundo lugar, devido à distância suplementar (cerca de um metro) que os impulsos nervosos têm que percorrer da mão esquerda até ao cérebro.

Libet interpreta os seus resultados como levantando um desafio sério ao materialismo: “Uma dissociação entre os tempos dos acontecimentos “mental” e “físico” correspondentes poderia parecer levantar sérias dificuldades, ainda que não inultrapassáveis, à […] teoria da identidade psiconeuronal” (1979, p. 222). Segundo Eccles, este desafio não pode ser vencido:

“Este procedimento de antecipação não parece poder ser explicável por nenhum processo neurofisiológico. Trata-se provavelmente de uma estratégia aprendida pela mente autoconsciente […] a experiência sensorial antecipativa é atribuível à capacidade da mente autoconsciente para fazer pequenos ajustes temporais, ou seja, para pregar partidas com o tempo.” (Popper e Eccles 1977, p. 364).

O atraso subjectivo da consciência da intenção

Noutras experiências Libet pediu a sujeitos que tomassem decisões “espontâneas” para flectir uma mão no pulso enquanto anotavam a posição de um ponto em movimento circular (na verdade, o “segundo ponteiro” num relógio) no momento preciso em que formavam a intenção (Libet 1985a, 1987, 1989; ver também as notas). Os relatos dos sujeitos destas simultaneidades subjectivas foram então relacionados com as cronometragens de ocorrências electrofisiológicas significativas nos seus cérebros. Libet verificou que estas “decisões conscientes” se situavam entre 350 a 400 milissegundos após o aparecimento de “potenciais de prontidão” (readiness potentials) que ele conseguira registar com eléctrodos colocados no couro cabeludo, o que, segundo ele, regista as ocorrências neuronais que determinam as acções voluntárias desempenhadas. Ele conclui que “o despoletar cerebral de uma acção voluntária espontânea tem início inconscientemente” (1985a, p. 529). Que a nossa consciência possa ficar atrás em relação aos processos cerebrais que controlam o nosso corpo, tal parece a alguns uma perspectiva inquietante e até mesmo deprimente, excluindo um “papel executivo” real (contraposto a ilusório) para “o eu consciente”. (Ver os tratamentos da questão por muitos comentadores em BBS: Eccles 1985; Mortenson 1985; Van Gulick 1985; e Pagels 1988, pp. 233ss; e ainda Calvin 1990, pp. 80–81. Para uma perspectiva próxima da nossa, ver Harnad 1982).

Em nenhum destes casos haveria quaisquer sinais de anomalia caso renunciássemos à oportunidade de registar os relatos verbais dos sujeitos acerca das suas experiências e de os submeter a uma análise semântica. Nenhuns sons parecem sair das cabeças antes de os lábios se mexerem, nem as mãos se movem antes dos acontecimentos cerebrais que presumivelmente as causam, nem os acontecimentos têm lugar no córtex antes dos estímulos que são tidos como a sua fonte. Vistas estritamente como o comportamento interno e externo de um sistema de controlo implementado biologicamente para um corpo, os acontecimentos observados e cronometrados nas experiências mencionadas não mostram quaisquer violações aparentes da causalidade mecânica elementar — do tipo para o qual a física galilaica/newtoniana representa o modelo padrão aproximado. Foi Libet quem o disse em primeiro lugar: “É importante termos em mente que estes envios e correcções subjectivas ocorrem aparentemente ao nível da “esfera” mental; eles não são visíveis, como tal, nas actividades a níveis neuronais” (1982, p. 241).

Dito de forma mais neutra (enquanto aguardamos elucidação do que Libet entende por “’esfera’ mental”), só através das verbalizações dos sujeitos acerca das suas experiências subjectivas conseguimos ter acesso a uma perspectiva a partir da qual as anomalias podem surgir.3 Uma vez as suas verbalizações (incluindo o premir comunicativo de botões, etc.; Dennett 1982) interpretadas como uma sequência de actos de fala, o seu conteúdo gera uma série temporal, a sequência subjectiva da corrente de consciência. Pode-se então tentar correlacionar esta série com o registo de outra série temporal, a sequência objectiva dos acontecimentos observados no ambiente e no sistema nervoso. São as óbvias faltas de registo, mantendo constante a suposição de que as causas precedem o seu efeito, que constituem as presumíveis anomalias (cf. Hoy 1982).

Poderíamos, então, “fazer desaparecer os problemas”, bastando para tal recusar levar a sério os relatos introspectivos. Embora alguns behavioristas convictos se agarrem confortavelmente ao princípio abstémio de “Evitar o conteúdo!” (Dennett 1978), nós preferimos aceitar o desafio para dar sentido àquilo que Libet chama “um aspecto fenomenológico básico da nossa experiência humana em relação ao funcionamento cerebral” (1985a, p. 534).

“Os relatos por parte de sujeitos acerca das suas diferentes experiências […] não eram elaborações teóricas mas observações empíricas. […] O método da introspecção pode ter as suas limitações, mas pode ser usado de forma apropriada dentro do quadro das ciências naturais e é absolutamente essencial quando se pretende obter dados experimentais acerca do problema da mente-corpo.” (Libet 1987, p. 785)

Em cada um dos exemplos uma deslocação aparente no tempo ameaça a tese, à primeira vista plausível, de que as nossas percepções conscientes são causadas por acontecimentos nos nossos sistemas nervosos e que os nossos actos conscientes, por sua vez, provocam acontecimentos nos nossos sistemas nervosos que controlam o nosso comportamento corporal. À primeira vista, os fenómenos anómalos mostram que estes dois elos causais estandardizados não podem ser mantidos, a menos que abandonemos um princípio elementar — alguns diriam um princípio logicamente necessário: as causas precedem os seus efeitos. Parece que num caso (atraso subjectivo da consciência da intenção) as nossas intenções conscientes ocorrem demasiado tarde para poderem ser as causas das suas expressões ou implementações corporais e, nos outros casos, as percepções ocorrem demasiado cedo para poderem ter sido causadas pelos seus estímulos. A alternativa alucinante que postula que algo no cérebro (ou “eu consciente”) pode “pregar partidas com o tempo” “projectando” acontecimentos mentais para trás no tempo exigiria que abandonássemos o princípio elementar de que as causas precedem os seus efeitos.

Há uma convicção amplamente partilhada de que não se dá o caso que uma tal consequência revolucionária se siga de qualquer um destes fenómenos, convicção que partilhamos. Mas alguns dos argumentos mais importantes que têm sido propostos em defesa desta convicção insistem em apoiar as pressuposições erradas que fizeram com que os fenómenos aparecessem como anómalos em primeiro lugar. Estas pressuposições são ainda mais insidiosas porque, embora nas suas formas manifestas e evidentes elas sejam peremptoriamente rejeitadas por todos, recobram dissimuladamente a sua influência, distorcendo a análise e impedindo os teóricos de ver outras explicações.

2. Os modelos em acção: identificando os erros sedutores

2.1. A representação das propriedades temporais versus as propriedades temporais das representações

O cérebro, como o sistema de controlo responsável por resolver os problemas de tempo real de um corpo postos pela interacção com o ambiente, está sob uma pressão temporal significativa. Tem que, por vezes, conseguir modular o seu output de acordo com o seu input dentro de uma janela de tempo que não permite qualquer atraso. De facto, muitas acções só podem ser iniciadas balisticamente; não há tempo nenhum para retorno da informação (feedback) para ajustar os sinais de controlo. Outras tarefas, como a percepção da fala, estariam para além das limitações físicas do maquinismo cerebral se não se servissem de engenhosas estratégias antecipativas que se alimentam de redundâncias no input. (Libermann 1970).

Como é que então o cérebro se mantém a par da informação temporal de que ele claramente necessita? Considere-se o seguinte problema: visto que a distância de um dedo do pé ao cérebro é muito maior que a distância da anca ao cérebro, do ombro ao cérebro ou da testa ao cérebro, estímulos aplicados simultaneamente nestes pontos diferentes chegarão ao Quartel-general em sucessão escalonada se a velocidade de transmissão for constante ao longo de todos os trajectos. Como é que (podemos ser tentados a perguntar) o cérebro “assegura simultaneidade central de representação de estímulos distalmente simultâneos”? Isto encoraja-nos a pôr a hipótese de um mecanismo de “circuito de atraso” (“delay loop”) que poderia armazenar os estímulos que chegam mais cedo até estes poderem ser postos “em sincronia” com aqueles que chegam mais tarde, mas isto é um erro. O cérebro não deveria resolver este problema por uma razão técnica muito simples: desperdiça tempo precioso ao consagrar todo o leque de operações a um plano que “prevê o pior dos cenários”. Porque é que sinais importantes partindo da testa (por exemplo) deveriam aguardar ociosamente na antecâmera, só porque há a possibilidade de um dia haver uma ocasião em que sinais paralelos dos dedos dos pés tenham que lhes ser comparados (ou “ligados”)?

O cérebro usa por vezes “memórias-tampão” para proteger a interface entre os seus processos internos e o mundo exterior assíncrono (Neisser 1967; Newell et al. 1989; Sperling 1960), mas há também meios para o cérebro usar a informação temporal de que necessita sem os atrasos exigidos para impor uma sincronia perfeita. O principal princípio de design pode ser facilmente mostrado através de um exemplo no qual um problema comparável é confrontado e resolvido (em grande medida), embora numa escala temporal e espacial bastante diferente.

Pense-se nas dificuldades de comunicação enfrentadas pelo extenso Império Britânico antes do advento do rádio e do telégrafo que se podem exemplificar com a Batalha de Nova Orleães. No dia 8 de Janeiro de 1815, 15 dias após a paz ter sido assinada na Bélgica, mais de um milhar de soldados britânicos foram mortos nesta batalha desnecessária. Podemos servir- nos deste incidente infeliz para ver como funcionava o sistema. Suponhamos que no dia 1 se assinava o tratado na Bélgica, sendo a notícia transmitida por via terrestre e por via marítima para a América, para a Índia e para a África. Quinze dias depois tem lugar a batalha em Nova Orleães e a notícia da derrota é transmitida por via terrestre e por via marítima para a Inglaterra, para a Índia e por aí fora. No vigésimo dia, já demasiado tarde, a notícia do tratado (e a ordem de rendição) chega a Nova Orleães. No trigésimo-quinto dia, suponhamos, a notícia da derrota chega a Calcutá, mas a notícia do tratado só chega lá no quadragésimo dia (por um percurso lento por terra). Para o comandante-chefe em Calcutá a batalha “pareceria” ter tido lugar antes de o tratado ter sido assinado — não fosse o hábito de datar as cartas, o que lhe permite fazer a correcção necessária.

Estes parceiros de comunicação resolveram os seus problemas de transmissão de informação relativa ao tempo integrando representações da informação temporal relevante no conteúdo dos seus sinais, de modo a que o tempo de chegada dos próprios sinais fosse estritamente irrelevante para a informação que eles transmitiam. Uma data escrita no início de uma carta (ou um carimbo datado no envelope) fornece ao destinatário informação acerca de quando é que ela foi enviada, informação essa que sobrevive a qualquer atraso na chegada.4 Esta distinção entre tempo representado (pelo carimbo) e tempo de representação (o dia em que chega a carta) é uma instância de uma distinção habitual entre conteúdo e transmissor e, embora os pormenores desta solução específica não estejam disponíveis para os comunicadores do cérebro (porque eles não “sabem a data” de quando enviaram as suas mensagens), o princípio geral da distinção conteúdo/transmissor é importante para os modelos de processamento de informação do cérebro, e isto de formas que ainda não foram bem avaliadas.5

De um modo geral, temos que distinguir propriedades de representantes de propriedades de representados (Neumann 1990); pode-se gritar “baixinho, em bicos de pés” a plenos pulmões que há imagens gigantescas de objectos microscópicos e quadros a óleo de pintores a fazer esquiços a carvão. A primeira frase de uma descrição escrita de um homem em pé não tem que descrever a sua cabeça, nem a última frase tem que lhe descrever os pés. Pensar o contrário é sobrepor confusamente dois espaços diferentes: o espaço representante e o espaço representado. O mesmo se aplica no que diz respeito ao tempo. Tome-se a expressão proferida “uma intensa, breve irradiação de luz vermelha”. O seu início é “uma intensa” e o fim é “luz vermelha”. Essas porções dessa ocorrência verbal não são elas mesmas representações de começos ou términos de uma breve irradiação vermelha (cf. Efron 1967, p. 714). Nenhum acontecimento informativo no sistema nervoso pode ter uma duração igual a zero (da mesma forma que não pode ter uma extensão espacial igual a zero) tendo, logo, um início e um término separados por algum espaço de tempo. Se ele representa um acontecimento na experiência, então o acontecimento que ele representa tem, também ele, que ter uma duração diferente de zero, um início, um meio e um término. Mas não temos nenhuma razão para pensar que o início do representante representa o início do representado.6

De modo semelhante, a representação pelo cérebro de “A antes de B” não tem que se realizar por, primeiro:

um representante de A,

seguido de:

um representante de B.

“B depois de A” é um exemplo de um transmissor (falado) que representa A como sendo anterior a B e o cérebro pode servir-se da mesma liberdade de localização temporal. O que é importante para o cérebro não é necessariamente quando acontecimentos representantes individuais têm lugar em várias partes do cérebro (desde que decorram a tempo de controlar as coisas que têm que ser controladas!), mas o seu conteúdo temporal. Ou seja, o que é importante é que o cérebro possa continuar a controlar acontecimentos “sob a suposição de que A ocorreu antes de B”, quer a informação de que A ocorreu entre no sistema relevante do cérebro e seja reconhecida como tal antes ou depois da informação de que B ocorreu, quer não. (Lembremo-nos do comandante-chefe em Calcutá: primeiro ele foi informado acerca da batalha e depois foi informado acerca das tréguas, mas porque ele pode tirar deste facto a informação que as tréguas ocorreram primeiro, ele pode agir de acordo com isso.) Sistemas em diversas partes do cérebro podem, em princípio, servir-se de um tal processamento de informação e é por isso que fixar o momento exacto do aparecimento de um qualquer elemento representante em algum sítio no cérebro não fornece uma referência temporal relativamente à qual outros elementos na sequência subjectiva possam — ou devam — ser colocados.

Como é que as propriedades temporais são realmente inferidas pelo cérebro? Sistemas de “selos datados” e “carimbos dos correios” não são teoricamente impossíveis (Glynn 1990), mas há um meio mais barato, menos infalível mas biologicamente mais plausível: aquilo que podemos chamar uma fixação que leve em consideração o conteúdo (content-sensitive settling). Uma analogia útil pode ser o estúdio de cinema onde a pista sonora é “sincronizada” com o filme. Os vários segmentos de fita sonora podem ter perdido todas as referências temporais, pelo que não há um meio mecânico simples de os sincronizar adequadamente com as imagens. Mas fazê-los andar para a frente e para trás relativamente ao filme e procurar convergências resulta habitualmente em alcançar de forma rápida o “melhor par”. O bater da claquete no início de cada tomada fornece uma referência dupla, uma batida sonora e visual, para fazer correr a fita até se alcançar a sincronia, ajustando o resto da fita e das imagens ao mesmo tempo. Mas há geralmente tantos pontos de correspondência mutuamente salientes que esta referência convencional no início de cada tomada mais não é que uma referência conveniente. Obter a sincronia certa depende do conteúdo do filme e da fita, mas não da análise sofisticada do conteúdo. Um montador de filmes que não soubesse japonês acharia a tarefa de sincronizar uma pista sonora japonesa com um filme japonês difícil e aborrecida, mas não impossível. Para além disso, a ordem temporal dos estádios do processo de pôr as peças em sincronia é independente do conteúdo do produto; o montador pode ocupar-se da tomada três antes de se ocupar da tomada dois e, em princípio, poderia mesmo fazer todo o trabalho “revertendo” a ordem dos segmentos.

Processos bastante “estúpidos” podem fazer vaivéns e fixações semelhantes no cérebro. A computação da profundidade em estereogramas de pontos aleatórios (Julesz 1971) é um problema espacial para o qual podemos facilmente conceber análogos temporais. Se o sistema receber pares em estéreo de imagens, a sincronia globalmente óptima pode ser encontrada sem primeiro termos que submeter cada colecção de dados a um elaborado processo de extracção de propriedades. Há suficientes coincidências de saliência de nível inferior — os pontos individuais num estéreograma de pontos aleatórios — para prescrever uma solução. Em princípio, pois, o cérebro pode resolver alguns dos seus problemas de inferência temporal através de um processo deste tipo, recolhendo dados não dos olhos esquerdo e direito, mas de quaisquer fontes de informação que estejam envolvidas num processo que requer juízos temporais. (Ver Gallistel, 1990, especialmente pp. 539–49, para um tratamento dos requisitos para a “especificação espacio-temporal”.)

Daqui se seguem duas coisas importantes. Primeiro, umas tais inferências temporais podem ser tiradas (umas tais discriminações podem ser feitas) comparando o conteúdo (de nível inferior) de várias colecções de dados, e este processo em tempo real não necessita de decorrer na ordem temporal que o seu produto representa no fim. Segundo, uma vez tirada uma tal inferência temporal, o que pode acontecer antes de propriedades de nível superior terem sido extraídas por outros processos, ela não tem que ser feita de novo! Não tem que haver uma representação posterior na qual as propriedades de nível superior sejam “apresentadas” numa sequência de tempo real para o uso de um segundo ajuizador de sequência. Por outras palavras, tendo tirado inferências a partir destas justaposições de informação temporal, o cérebro pode representar os resultados em qualquer formato que se adeque às suas necessidades e recursos — não necessariamente um formato em que “o tempo seja usado para representar o tempo”.

Persiste a suspeita irritante de que, enquanto o cérebro pode tirar partido desta liberdade representacional para outras propriedades, ele não o pode fazer para a propriedade de sequência temporal. Mellor formulou explicitamente esta suposição, considerando-a demasiado óbvia para necessitar de qualquer apoio:

“Suponhamos, por exemplo, que eu vejo um acontecimento e preceder um outro, e. Eu tenho que primeiro ver e e depois e, sendo a minha visão de e de algum modo recordada na minha visão de e. Isto é, a minha visão de e afecta a minha visão de e: isto é o que me faz — correcta ou erradamente — ver e preceder e, em vez do contrário. Mas ver e a preceder e significa ver primeiro e. Assim, a ordem causal das minhas percepções destes acontecimentos, ao fixar a ordem temporal que eu percepciono como sendo a que eles têm, fixa a ordem temporal das próprias percepções […]. O facto surpreendente […] deveria ser notado, nomeadamente que as percepções de ordem temporal necessitam de percepções ordenadas temporalmente. Nenhuma outra propriedade ou relação tem que ser integrada deste modo em percepções de si [nossa enfâse]: percepções de forma e cor, por exemplo, não precisam elas próprias de ser correspondentemente formadas ou coloridas. (Mellor 1981, p. 8)

Pensamos que isto é falso, mas contém algo que está correcto. Visto que a função fundamental de representação no cérebro é controlar o comportamento em tempo real, a correcção temporal das representações é até um certo ponto essencial para a sua tarefa, e isto de duas maneiras. Em primeiro lugar, a correcção temporal pode, no início de um processo perceptivo, ser o que determina o conteúdo. Pense-se em como distinguir um círculo movendo-se da direita para a esquerda de um círculo movendo-se da esquerda para a direita numa tela de projecção. A única diferença entre os dois pode ser a ordem temporal na qual duas imagens (ou mais) são projectadas. Se o cérebro determina “primeiro A, depois B”, o círculo é visto como movendo-se numa direcção; se o cérebro determina “primeiro B, depois A”, o círculo é visto como movendo-se na direcção oposta. A discriminação é pois, como uma questão de lógica, baseada na capacidade do cérebro para fazer um juízo de ordem temporal de um nível de resolução específico. Os fotogramas de cinema são habitualmente expostos a uma velocidade de 24 por segundo e, assim, o sistema visual pode distinguir a ordem entre estímulos que ocorrem dentro dos cerca de 50 milissegundos. Isto quer dizer que as propriedades temporais reais dos sinais — os seus momentos de início, a sua velocidade no sistema e, daí, os seus momentos de chegada — têm que ser rigorosamente controladas até uma tal discriminação ser feita. Mas uma vez feita a nível local por um circuito qualquer no sistema visual (mesmo até a um nível tão periférico como as células gangliares da retina do coelho! — Barlow e Levick 1965), o conteúdo “da esquerda para a direita” pode então ser enviado, de uma maneira temporariamente desleixada, para um ponto qualquer no cérebro onde esta informação relativa à direcção possa ser posta a uso. Deste modo podemos explicar o facto de outro modo intrigante de que, em intervalos entre estímulos nos quais as pessoas são incapazes de desempenhos acima do mero acaso em juízos de ordem temporal, elas desempenham sem quaisquer erros outros juízos que exigem logicamente a mesma acuidade temporal. Por isso Efron (1973) mostrou que os sujeitos podiam facilmente distinguir sons, flashes e vibrações que diferiam somente na ordem em que dois estímulos componentes ocorriam numa fracção do intervalo entre estímulos no qual eles podem especificar explicitamente a sua ordem.

Uma outra restrição imposta à questão temporal já foi mencionada por alto mais acima: não importa a ordem em que as representações ocorrem desde que elas ocorram a tempo de contribuir para o controlo do comportamento apropriado. A função de um representante pode depender de ele conseguir cumprir um tempo limite, o que é uma propriedade temporal do transmissor que faz a representação. Isto torna-se especialmente evidente em ambientes pressionados temporalmente como a Iniciativa de Defesa Estratégica virtual. O problema não é como fazer que os sistemas de computadores representem, com exactidão, lançamentos de mísseis, mas como representar um lançamento de míssil com exactidão durante o curto espaço de tempo em que ainda se pode fazer algo em relação a isso. Uma mensagem de que um míssil foi lançado às 6:04:23.678 horas EST (Eastern Standard Time) pode representar para sempre com exactidão o momento do lançamento, mas a sua utilidade pode cessar às 6:05 EST. Para qualquer tarefa de controlo, pois, há uma janela de controlo temporal dentro da qual os parâmetros temporais dos representantes podem, em princípio, ser alterados à vontade.

Os tempos limites que delimitam essas janelas não são fixos, mas sim dependentes da tarefa a desempenhar. Se, em vez de interceptar mísseis, você está a escrever as suas memórias ou a responder a um interrogatório nas audiências do Caso Watergate (Neisser 1981), você pode recuperar a informação relativa à sequência de acontecimentos na sua vida de que necessita para controlar as suas acções em quase qualquer ordem e pode levar o tempo que quiser a tirar inferências.

Estes dois factores explicam o que é plausível na teoria de Mellor sem defender a conclusão implícita de que todas as percepções de ordem temporal têm que ser realizadas num único lugar, por um processo que respeita uma a uma uma sucessão de “percepções” ou de outras representações. Após os processos perceptivos dentro do observador terem iniciado o seu trabalho, fornecendo as discriminações necessárias, não vale a pena tentar desfazer o seu trabalho para arranjar uma ocupação para um observador ainda mais interior.

As causas têm que preceder os efeitos. Este princípio elementar assegura que as janelas de controlo temporal se unam em ambas as pontas: pelo momento mais cedo no qual a informação podia chegar ao sistema e pelo momento mais tardio em que a informação podia contribuir causalmente para o controlo de um determinado comportamento. Para além disso, o princípio aplica-se aos múltiplos processos distribuídos que realizam esse controlo. Qualquer processo específico que necessite de informação de alguma fonte tem que esperar por essa informação; ela não pode chegar lá até chegar lá. Isto é o que exclui explicações “mágicas” ou de pré-cognição no fenómeno phi com mudança de cores, por exemplo. O conteúdo círculo verde não pode ser atribuído a nenhum acontecimento, consciente ou inconsciente, até a luz do círculo verde ter chegado ao olho e despoletado a actividade neuronal normal no sistema visual até ao nível em que a discriminação de verde é efectuada. Para além disso, todo o conteúdo relatado ou expresso de qualquer outra forma no comportamento que se segue tem que ter estado “presente” (no lugar relevante no cérebro, mas não necessariamente na consciência) a tempo de ter contribuído causalmente para esse comportamento. Por exemplo, se um sujeito numa experiência diz “cão” em resposta a um estímulo visual, podemos trabalhar em sentido contrário a partir desse comportamento, o qual foi obviamente ditado por um processo que tinha o conteúdo cão (a menos que o sujeito diga “cão” como resposta a todos os estímulos ou passe o dia a dizer “cão cão cão…”, etc.). E visto que são necessários cerca de 100 milissegundos para executar uma intenção verbal deste tipo, podemos ter a certeza que o conteúdo cão estava presente nas (toscamente) áreas da linguagem no cérebro cerca de uns 100 milissegundos antes do enunciado. Trabalhando a partir da outra ponta, podemos determinar o momento mais cedo em que o conteúdo cão podia ter sido processado ou extraído pelo sistema visual do input da retina e até mesmo, talvez, seguir a sua criação e posterior trajectória através do sistema visual e em direcção às áreas da linguagem.

O que seria verdadeiramente anómalo (na verdade, um caso para lamentações e ranger de dentes) seria se o tempo passado entre o estímulo cão e o enunciado “cão” fosse menor que o tempo fisicamente necessário para este conteúdo ser fixado e transmitido através do sistema. Não foram, contudo, descobertas tais anomalias. Só quando tentamos comparar a sequência de acontecimentos assim detectáveis na corrente de processamento objectiva com a sequência subjectiva do sujeito como indicada pelo que o sujeito diz de seguida é que podemos obter algum sinal de anomalia.

2.2. Revisões orwellianas e estalinescas: a ilusão de uma distinção

Vamos agora ver como é que os dois modelos diferentes, o do Teatro Cartesiano e o das Versões Múltiplas, lidam com as presumíveis anomalias, começando pelos fenómenos mais simples e menos controversos. O modelo do Teatro Cartesiano postula a existência de uma área no cérebro onde o que acontece “importa”; ou seja, postula que as propriedades de acontecimentos com lugar dentro desta área definível em termos funcionais (seja lá ela qual for) são propriedades determinantes ou constitutivas da experiência consciente. (O modelo vale para todas as propriedades da experiência subjectiva, mas concentramo-nos agora nas propriedades temporais.) Isto implica que todas as revisões de conteúdo efectuadas pelo cérebro podem ser localizadas em relação a esta zona, uma implicação profundamente intuitiva — mas falsa — que pode ser explicada através de uma experiência de pensamento.

Suponha que interferimos com o seu cérebro, inserindo na sua memória uma mulher fictícia com um chapéu onde uma tal mulher não se encontrava (por ex., na festa no domingo). Se na segunda-feira, quando você se lembra da festa, você se lembrar dela e não tiver quaisquer motivos internos para duvidar sequer da veracidade da sua memória, poderíamos todos estar de acordo com o facto de que na verdade você nunca a viu; isto é, não na festa no domingo. É claro, a sua experiência posterior de recordação (fictícia) pode ser o mais intensa possível e na terça-feira podemos decerto estar de acordo que você teve experiências conscientes intensas de ter estado na festa uma mulher com um chapéu, mas a primeira dessas experiências, insistiríamos nós, fora na segunda-feira e não no domingo (embora a si lhe pareça ter sido de modo diferente).

Não temos o poder de inserir memórias fictícias por meio de neurocirurgia mas, por vezes, as nossas memórias pregam-nos partidas, pelo que aquilo que ainda não conseguimos fazer por meio de cirurgia acontece naturalmente no cérebro. Por vezes, parece que recordamos, mesmo de forma muita intensa, experiências que nunca tivemos. Podemos chamar orwellianas a essas contaminações ou revisões experimentais da memória, evocando a imagem terrível do Ministro da Verdade na obra de George Orwell, 1984, que reescrevia atarefadamente a história e proibia assim o acesso ao passado (real) a todos aqueles que se seguiam.

A revisão orwelliana é uma maneira de enganar a posteridade. Uma outra maneira de o fazer é encenar pseudojulgamentos, apresentações cuidadosamente planeadas de falsos testemunhos e de confissões falsas, completadas com provas forjadas. Podemos chamar estalinesco a este estratagema. Note-se que, se habitualmente estamos conscientes de qual dos modos de falsificação foi usado connosco, o orwelliano ou o estalinesco, isso deve-se a uma questão de sorte. Numa campanha de falsa informação bem-sucedida, caso nos perguntássemos se os relatos nos jornais eram relatos orwellianos de julgamentos que nunca tinham tido lugar, ou relatos verídicos de pseudojulgamentos que tinham realmente decorrido, poderíamos ser incapazes de dizer qual a diferença. Se todos os traços — jornais, gravações em vídeo, memórias pessoais, inscrições em pedras funerárias, testemunhas vivas, e por aí fora — tiverem sido apagados ou alterados, não teremos qualquer maneira de saber que tipo de falsificação é que aconteceu: uma falsificação primeiro, culminando num julgamento encenado cuja história verídica temos agora à nossa frente, ou após uma execução sumária, uma falsificação da história escondendo o acto. Nenhum julgamento de nenhuma espécie teve realmente lugar.

A distinção entre a realidade e a aparência (posterior) e a distinção entre métodos orwellianos e estalinescos de produzir arquivos enganadores ocorre sem quaisquer problemas no dia-a-dia em escalas de tempo macroscópicas. Podemos até pensar que estas distinções se aplicam sempre sem quaisquer problemas. Essa é a maneira de pensar que produz a ilusão cognitiva do materialismo cartesiano. Podemos apanhá-la em flagrante delito numa experiência de pensamento que difere da primeira somente a nível da escala temporal.

Suponha que uma mulher de cabelos compridos passa por si a correr. Cerca de um segundo depois disto, uma memória subterrânea de uma mulher vista anteriormente — uma mulher de cabelos curtos e com óculos — contamina a memória daquilo que acabou de ver: ao pedirem-lhe um minuto depois os pormenores da mulher que acabou de ver você relata, sincera mas erroneamente, que ela tinha óculos. Tal como no caso anterior, estamos prontos a afirmar que a sua experiência visual original, em contraste com a memória dela segundos mais tarde, não foi a de uma mulher com óculos. Mas por causa das contaminações da memória posteriores, a si parece-lhe claramente que, no primeiro instante em que a viu, os óculos dela lhe chamaram a atenção. Ocorreu uma revisão orwelliana, pós-experiencial: houve um breve instante, antes de a contaminação da memória ter lugar, em que não lhe pareceu que ela tinha óculos. Para esse breve instante, a realidade da sua experiência consciente era a de uma mulher de cabelos compridos sem óculos, mas este facto histórico tornou-se inactivo; não deixou qualquer traço graças à contaminação da memória que ocorreu um segundo depois de você a ter visto momentaneamente.

Esta compreensão do sucedido é, contudo, ameaçada por uma explicação alternativa. As suas memórias subterrâneas anteriores daquela mulher de cabelos curtos com os óculos podiam ter contaminado, com a mesma facilidade, a sua experiência no percurso ascendente, no processamento de informação que ocorre “antes da consciência”, pelo que você realmente alucinou no que diz respeito aos óculos logo desde o começo da sua experiência. Nesse caso, a sua memória obsessiva da mulher com óculos estaria a pregar-lhe uma partida estalinesca, criando um “pseudojulgamento” para você experienciar e que você recorda então com exactidão posteriormente graças ao registo na sua memória. Para uma intuição ingénua, estes dois casos não podiam ser mais diferentes. Contado da primeira maneira, você não tem nenhuma alucinação no instante em que a mulher passa por si a correr, mas tem alucinações de memória posteriores: você tem memórias falsas da sua experiência verídica (“real”). Contado da segunda maneira, você alucina quando ela passa por si a correr e depois disso lembra-se com exactidão dessa alucinação (que “ocorreu de facto na consciência”). Certamente que se trata de possibilidades distintas, independentemente da precisão com que dividimos o tempo, não é verdade?

Não. Aqui a distinção entre alterações perceptivas e alterações de memória, que noutras escalas é tão clara, não tem uma aplicação garantida. Entrámos na zona enevoada na qual o ponto de vista do sujeito está espacial e temporalmente espalhado e a questão de orwelliano ou estalinesco? (pós-experiencial ou pré-experiencial) não precisa de ter uma resposta. A fronteira entre percepção e memória, tal como a maior parte das fronteiras entre categorias, não é clara, como já muitas vezes se chamou a atenção.

Há uma janela temporal que teve início quando a mulher de cabelos longos passou a correr excitando as suas retinas e que terminou quando você expressou — para si próprio ou para alguém — a sua convicção posterior de que ela usava óculos. Num determinado momento durante este intervalo, o conteúdo usando óculos foi acrescentado enganosamente ao conteúdo mulher de cabelos longos. Podemos supor (e podemos confirmar pormenorizadamente no fim) que houve um breve momento em que o conteúdo mulher de cabelo comprido já tinha sido discriminado no cérebro, mas antes do conteúdo usando óculos lhe ter sido erroneamente “ligado”. De facto, seria plausível supor que esta discriminação de uma mulher de cabelo comprido foi o que despoletou a memória da mulher anterior com os óculos. O que não saberíamos, contudo, é se esta ligação enganosa acontecera antes ou depois do facto — o facto presumível de “experiência consciente real”. Você estava primeiro consciente de uma mulher de cabelo comprido sem óculos e depois ficou consciente de uma mulher de cabelo comprido com óculos, uma consciência posterior que lhe varreu da memória a primeira experiência? Ou será que o próprio primeiro instante de experiência consciente já estava enganosamente marcado com óculos? Se o materialismo cartesiano estivesse correcto, esta pergunta teria que ter uma resposta, mesmo se nós — e você — não conseguíssemos determiná-la em retrospectiva por nenhum teste, pois o conteúdo que “chegou à meta em primeiro lugar” foi ou mulher de cabelo comprido ou mulher de cabelo comprido com óculos. Mas o que é que acontece a esta questão se o cartesianismo materialista estiver errado (como concordamos quase por unanimidade)? Poder-se-á manter a distinção entre revisões de conteúdo pré-experiencial e pós-experiencial?

Uma análise do fenómeno phi mostra que não. No primeiro teste (i.e. sem condicionamento), os sujeitos relatam ter visto a cor do círculo em movimento mudar a meio da sua trajectória de vermelho para verde — um relato precisado pelo uso engenhoso que Koler fez de um instrumento apontador que os sujeitos, em retrospectiva, mas assim que possível, “sobrepunham” à trajectória do círculo em movimento aparente; as localizações assim obtidas com o uso do apontador tinham o conteúdo: “O círculo mudou de cor mais ou menos aqui” (Koler e von Grünau 1976, p. 330). Lembremo-nos da expressão do enigma por parte de Goodman (1978, p. 73): “Como é que somos capazes […] de preencher (fill in) o círculo nos lugares-tempos intermédios ao longo de uma trajectória do primeiro para o segundo flash antes de esse segundo flash ocorrer?”

Considere-se, em primeiro lugar, um mecanismo estalinesco: na sala de montagem do cérebro, situada antes da consciência, há um atraso, uma folga na fita como o “tape delay” (lapso temporal) usado nas emissões ao vivo, o que dá aos censores na sala de controlo alguns segundos para sobrepor um “bip” às palavras obscenas antes de emitirem o sinal. Na sala de montagem, primeiro o quadro A, do círculo vermelho, chega, e depois, quando o quadro B, o quadro do círculo verde, chega, alguns quadros intersticiais (C e D) podem ser criados e depois inseridos no filme (na ordem A, C, D, B) na sua trajectória para a projecção no teatro da consciência. Quando o “produto acabado” chega à consciência, já tem a sua inserção ilusória.

Alternativamente, há a hipótese de um mecanismo orwelliano: pouco tempo depois da consciência do primeiro círculo e do segundo círculo (sem nenhuma ilusão de movimento aparente), um destes “historiadores” revisionistas, na central receptora do arquivo da memória do cérebro, verifica que a história não retocada deste incidente não faz sentido, pelo que “interpreta” os acontecimentos brutos — vermelho seguido de verde — inventando uma narrativa acerca da passagem intermédia, completa com uma mudança de cor a meio do caminho, e instala esta história, incorporando as suas anotações, os quadros C e D, no arquivo da memória, para todas as referências futuras. Porque ele trabalha rapidamente, dentro de uma fracção de segundo — o período de tempo necessário para elaborar (mas não proferir) um relato verbal daquilo que você experienciou —, o registo em que você confia, armazenado no arquivo da memória, já está contaminado. Você diz e acredita que viu o movimento e a mudança de cor ilusórios, mas isso é, na verdade, uma alucinação da memória, não uma recordação exacta da sua consciência original.

Como é que poderíamos ver qual destas hipóteses está correcta? Poderia parecer que poderíamos excluir muito simplesmente a hipótese estalinesca, devido ao atraso na consciência que ela postula. Na experiência de Kolers e von Grünau havia uma diferença de 200 milissegundos entre o aparecimento do círculo vermelho e do círculo verde e visto que, por hipótese, a experiência integral não pode ser composta pela sala de montagem até depois de o conteúdo círculo verde ter chegado à sala de montagem, a consciência do círculo vermelho inicial terá que ser adiada por pelo menos um período de tempo equivalente. (Se a sala de montagem enviasse o conteúdo círculo vermelho para o teatro da consciência imediatamente, antes de receber o quadro B e fabricando depois os quadros C e D, o sujeito provavelmente experienciaria uma falha no filme, um atraso perceptível de cerca de 200 milissegundos entre A e C.)

Suponha que pedimos a sujeitos para premirem um botão “assim que percepcionem um círculo vermelho”. Encontraríamos uma diferença pequena ou nula no tempo de resposta a um círculo vermelho por oposição a um círculo vermelho seguido 200 milissegundos depois por um círculo verde (caso em que os sujeitos relatam movimento aparente com mudança de cor). Isto poderá ser porque há sempre um atraso de pelo menos 200 milissegundos na consciência, mas exceptuando a improbabilidade biológica de um tal desperdício de tempo, há indícios de muitos quadrantes de que respostas sob controlo consciente, embora mais lentas do que respostas como o piscar dos olhos reflexo, ocorrem com latências tão próximas do mínimo quanto é fisicamente possível; depois de subtrair os tempos de transmissão demonstráveis para cadeias de impulsos que chegam e que partem e do tempo de preparação de resposta, sobra pouco tempo no “processamento central” no qual se possa esconder um atraso de 200 milissegundos. Logo, as respostas teriam que ter sido iniciadas antes da discriminação do segundo estímulo, o círculo verde. Isto pareceria favorecer inequivocamente o mecanismo orwelliano, pós-experiencial: assim que o sujeito fica consciente do círculo vermelho, ele inicia um premir do botão. Enquanto esse premir do botão se está a formar, ele tem consciência do círculo verde. Então ambas as experiências são varridas da memória, substuídas na memória pelo registo revisionista do círculo vermelho em movimento tornando- se depois verde a meio do percurso. O sujeito relata prontamente e com sinceridade (mas erradamente) ter visto o círculo vermelho a mover-se em direcção ao círculo verde antes de mudar de cor.

Caso o sujeito insistisse que estava verdadeiramente consciente desde o início do movimento e da mudança de cor do círculo vermelho, o teórico orwelliano mostrar-lhe-ia com firmeza que ele estava enganado; que a sua memória lhe está a pregar partidas; que o facto de que ele premiu o botão no momento em que o fez é uma prova concludente de que ele estava consciente do círculo vermelho (estacionário) antes de o círculo verde ter sequer aparecido. Afinal de contas, as intruções que ele tinha eram de premir o botão quando ficasse consciente de um círculo vermelho. Ele deve ter ficado consciente do círculo vermelho cerca de uns 200 milissegundos antes de poder ter ficado consciente dele a mover-se e a tornar-se verde. Se não é assim que as coisas lhe parecem ter decorrido, ele está pura e simplesmente enganado.

O defensor da alternativa estalinesca (pré-experiencial) não é, contudo, derrotado por isto. Na verdade, insiste ele, o sujeito reagiu ao círculo vermelho antes de estar consciente dele! As instruções que o sujeito tinha (reagir a um círculo vermelho) tinham de algum modo passado da consciência para a sala de montagem, o que inconscientemente iniciara o premir do botão antes de enviar a versão montada (quadros ACDB) para a consciência para “visionamento”. A memória do sujeito não lhe pregou nenhuma partida; ele está a relatar exactamente aquilo de que estava consciente, excepto se ele insistir que premiu o botão após ter visto conscientemente o círculo vermelho; o seu premir do botão “prematuro” foi inconscientemente (ou pré-conscientemente) despoletado (cf. Velmans 1991).

Enquanto a teoria estalinesca postula uma reacção de premir o botão a uma detecção inconsciente de um círculo vermelho, a teoria orwelliana postula a experiência consciente de um círculo vermelho que é imediatamente varrida da memória pelos acontecimentos que se seguem. Eis o problema: temos dois modelos diferentes daquilo que acontece no fenómeno phi: um postula um preenchimento (filling in) estalinesco no trajecto ascendente, pré- experiencial, e o outro postula uma “revisão da memória” orwelliana no trajecto descendente, pós-experiencial, e ambos são consistentes com seja lá o que for que o sujeito diga, pense ou recorde. Note-se que a incapacidade de distinguir estas duas possibilidades não se aplica somente aos observadores externos que, podemos pensar, não têm acesso a alguns dados privados aos quais o sujeito tinha “acesso privilegiado”. Você, enquanto sujeito numa experiência de fenómeno phi, não poderia descobrir nada na experiência a partir da sua perspectiva de primeira pessoa que favorecesse uma teoria em deterimento da outra; a experiência “parecer-lhe-ia a mesma” em qualquer dos relatos. À medida que o intervalo entre os estímulos é aumentado, os sujeitos passam da visão de movimento aparente à visão de flashes individuais fixos. Há uma série de intervalos intermediários nos quais a fenomenologia é de certa maneira paradoxal: você vê os círculos como dois flashes fixos e como uma coisa movendo-se. Este tipo de movimento aparente é facilmente distinguível do tipo de movimento aparente mais rápido e mais uniforme do cinema, por exemplo, mas a capacidade que você tem de fazer esta distinção não é relevante para a disputa entre o teórico orwelliano e o teórico estalinesco. Eles concordam um com o outro que você pode fazer esta discriminação dadas as condições certas; aquilo em que eles discordam é sobre como descrever os casos de movimento aparente que você não consegue distinguir do movimento real — os casos em que você realmente percepciona (mal) o movimento ilusório. Em termos gerais, nestes casos é a sua memória que lhe está a pregar partidas ou serão somente os seus olhos que lhe estão a pregar partidas? Você não consegue fazer a distinção “a partir de dentro”.

Podemos ver a mesma indistinguibilidade de uma forma até mais clara quando vemos o modo como os dois modelos diferentes lidam com o fenómeno bem estudado de metacontraste (para um comentário, ver Breitmeyer 1984). Se um estímulo for iluminado por breves instantes numa tela e depois for seguido, após um breve intervalo entre estímulos, por um segundo estímulo “mascarado” (“masking”), os sujeitos relatam ter visto só o segundo estímulo. (E se você se puser no lugar do sujeito pode verificar por si mesmo; você poderá jurar que só houve um flash.) A descrição-padrão de tais fenómenos é a de que o segundo estímulo de algum modo impede a experiência consciente do primeiro estímulo (por outras palavras, ele de algum modo assalta de emboscada o primeiro estímulo no seu caminho para a consciência). Mas as pessoas podem, contudo, acertar na maioria das vezes se lhes for pedido que digam se houve dois estímulos. Isto só mostra mais uma vez que os estímulos podem ter os seus efeitos em nós sem que estejamos conscientes deles. Este comportamento-padrão é, com efeito, o modelo estalinesco de metacontraste: o primeiro estímulo nunca chega a actuar no palco da consciência; ele tem os efeitos que tiver de forma inteiramente inconsciente. Mas acabámos de revelar um segundo modelo, orwelliano, de metacontraste: os sujeitos estão de facto conscientes do primeiro estímulo (o que “explicaria” a sua capacidade de acertar), mas a sua memória desta experiência consciente é quase completamente apagada pelo segundo estímulo (razão pela qual eles negam tê-lo visto, apesar do seu sucesso em acertar, superior ao mero acaso, denunciar o contrário).7

Ambas as versões do Teatro Cartesiano, a orwelliana e a estalinesca, podem facilmente explicar todos os dados — não só os dados que já temos, mas também os dados que podemos imaginar vir a ter no futuro. Ambas explicam os relatos verbais: uma das teorias diz que eles estão inocentemente errados, enquanto a outra diz que eles são relatos exactos de “erros” experienciados. (Um veredicto semelhante é sugerido nos comentários de Hollender 1986; ver especialmente Dixon 1986; Erdelyi 1986; Marcel 1986; Merikle and Cheesman 1986). Elas estão de acordo acerca de precisamente onde é que no cérebro o conteúdo errado entra nos trajectos causais; elas só discordam acerca do facto de essa localização ser pré ou pós-experiencial. Ambas explicam os efeitos não-verbais: uma diz que eles são o resultado de conteúdos discriminados inconscientemente, enquanto a outra diz que eles são o resultado de conteúdos discriminados conscientemente mas esquecidos. Elas estão de acordo acerca de precisamente onde e como é que essas discriminações ocorrem no cérebro; elas só discordam acerca de deverem interpretar esses processos como ocorrendo dentro ou fora do círculo encantado da consciência. Por fim, ambas explicam os dados subjectivos — aquilo que se pode obter “a partir da perspectiva da primeira pessoa” — porque estão de acordo acerca de como as coisas devem “parecer” aos sujeitos: os sujeitos deviam ser incapazes de dizer qual a diferença entre experiências mal concebidas e experiências imediatamente mal recordadas. Assim, apesar das primeiras impressões, só há na verdade uma diferença verbal entre as duas teorias (cf. Reingold and Merikle 1990). Elas contam exactamente a mesma história, excepto no que diz respeito ao lugar em que colocam uma mítica Divisória Continental, um ponto no tempo (e logo um lugar no espaço) cuja localização de grão fino não corresponde a nada que os sujeitos as possam ajudar a localizar, e cuja localização é ainda neutra em relação a todas as outras características das suas teorias. Esta é uma diferença que não faz diferença nenhuma.

Pensemos numa analogia contemporânea. Com o advento do processamento de texto, das publicações assistidas por computador e do correio electrónico, estamos a perder a distinção previamente bastante rígida entre redacção de pré-publicação e correcção pós- publicação de “erratas”. Com versões múltiplas em circulação electrónica e com o autor a fazer prontamente revisões em resposta a comentários recebidos por correio electrónico, chamar a uma destas versões o texto canónico — o texto do “registo bibliográfico”, aquele para citar nas nossas próprias publicações — torna-se uma questão um tanto ou quanto arbitrária. Frequentemente a maior parte dos destinatários, os leitores cuja leitura do texto importa, só lêm uma das primeiras versões; a versão “publicada” é arquivada e torna-se inactiva. Se aquilo de que estamos à procura são efeitos importantes, então a maior parte, se não a totalidade, dos efeitos importantes de escrever um texto estão agora espalhados por muitas versões, não sendo adiados até depois da publicação. Costumava ser ao contrário; quase todos os efeitos importantes de um texto ocorriam após aparecimento num livro ou revista e devido a ele aparecer desse modo. Todos os factos estão lá, e agora que as várias possibilidades de “meio” de publicação podem ser vistas como já não sendo importantes, se pensamos que precisamos sequer dessa distinção, teremos que decidir arbitrariamente o que é que conta como publicação de um texto. Não há nenhum auge natural ou ponto decisivo no trajecto que vai da versão em rascunho ao arquivo.

De igual modo — e esta é a implicação fundamental do modelo das Versões Múltiplas —, se quisermos decidir-nos por um momento de processamento no cérebro como sendo o momento de consciência, este momento terá que ser arbitrário. Podemos sempre “fixar um limite” na corrente de processamento no cérebro, mas não há quaisquer diferenças funcionais que possam levar a declarar todos os estádios e revisões anteriores como ajustamentos inconscientes ou pré-conscientes e todas as correcções do conteúdo posteriores (como são reveladas pela recordação) como contaminação pós-experiencial da memória. A distinção deixa de funcionar nas proximidades.

Uma outra implicação do modelo das Versões Múltiplas, por oposição ao Teatro Cartesiano, é a de que não há necessidade — nem espaço — para o tipo de preenchimento (filling in) sugerido pelos quadros C e D. Comentando a experiência de Kolers, Goodman observa que ela “parece deixar-nos uma escolha entre uma teoria de construção retrospectiva e uma crença na clarividência” (1978, p. 83). O que é pois a “construção retrospectiva”?

“Quer se pense que a percepção do primeiro flash é atrasada, preservada ou recordada [ênfase nossa], eu chamo a isto a teoria da construção retrospectiva — a teoria de que a construção percebida como ocorrendo entre os dois flashes é concluída não antes do segundo.”

Parece, à primeira vista, que Goodman não toma partido entre uma teoria estalinesca (a percepção do primeiro flash é atrasada) e uma teoria orwelliana (a percepção do primeiro flash é preservada ou recordada), mas o seu revisionista orwelliano não se limita a ajustar juízos; ele constrói material para preencher as falhas: “Cada um dos espaços ao longo de um trajecto entre os dois flashes é preenchido […] com uma das cores iluminadas por breves instantes e não com cores intermediárias sucessivas” (Goodman 1978, p. 85). O que Goodman não leva em conta é a possibilidade de que o cérebro não tenha, na verdade, que dar-se ao trabalho de preencher nada com uma “construção”, visto que ninguém está a olhar. Como o modelo das Versões Múltiplas torna explícito, uma vez uma discriminação feita uma vez, ela não tem que ser feita outra vez; o cérebro muito simplesmente se ajusta à conclusão que é tirada, tornando a nova interpretação da informação disponível para a modulação de comportamento posterior. Lembremo-nos do comandante-chefe em Calcutá; ele só tinha que julgar que as tréguas tinham ocorrido antes da batalha; ele não tinha que montar também uma espécie de cortejo de “reconstituição histórica” ao qual pudesse assistir, no qual ele recebe as cartas pela ordem “correcta”.

De igual modo, quando Goodman (1978) propõe que “o movimento intermédio é produzido retrospectivamente, construído só depois de o segundo flash ocorrer, e projectado para trás no tempo”, isto sugere de forma inquietante que um filme final é feito e depois projectado por um projector mágico cujo feixe de projecção viaja, de algum modo, para trás no tempo em direcção à tela da mente. Quer isto seja simplesmente aquilo que Van der Waals e Roelofs (1930) tinham em mente quando propuseram a “construção retrospectiva”, quer não, é o que levou presumivelmente Kolers (1972, p. 184) a rejeitar a hipótese deles, insistindo que toda e qualquer construção é levada a cabo em “tempo real”. Porque razão, contudo, deveria o cérebro dar-se ao trabalho de “produzir” o “movimento intermédio”? Porque é que não concluímos pura e simplesmente que houve movimento intermédio e codificamos esse conteúdo “retrospectivo” na corrente de processamento? Isto bastaria para que parecesse ao sujeito que um movimento intermédio fora experienciado.

O nosso modelo das Versões Múltiplas concorda com Goodman que, retrospectivamente, o cérebro cria o conteúdo (o juízo) de que houve movimento intermédio e este conteúdo fica então disponível para controlar a actividade e deixar a sua marca na memória. Mas o nosso modelo defende que o cérebro não se dá ao trabalho de “construir” quaisquer representações que se dão ao trabalho de preencher os espaços vazios. Isso seria um desperdício de tempo e (se é que podemos dizer) de tinta. O juízo já lá está, pelo que o cérebro pode continuar com outras tarefas!

A “projecção para trás no tempo” de Goodman, tal como o “envio para trás no tempo” de Libet, é uma expressão ambígua. Pode querer dizer algo razoável e justificável: uma referência a um certo tempo passado é incluída no conteúdo. Segundo esta leitura, tratar-se-ia de uma asserção como “Este romance leva-nos até à antiga Roma” que quase ninguém interpretaria de um modo metafisicamente extravagante, como querendo dizer que o romance seria uma espécie de máquina de viajar no tempo. Esta é a leitura consistente com outras perspectivas de Goodman, mas Kolers interpretou-a aparentemente como querendo dizer algo de radical em termos metafísicos: que houve uma projecção de facto de uma coisa que ocorreu num determinado tempo para um outro tempo. Como veremos, a mesma ambiguidade condiciona a interpretação que Libet faz dos seus fenómenos.

O modelo do Teatro Cartesiano cria questões enigmáticas artificiais que não podem ser respondidas, enquanto no nosso modelo estas questões não se podem pôr com sentido. Isto vê-se quando aplicamos ambos os modelos a outras experiências que investigam as fronteiras da distinção entre percepção e memória. Uma condição habitualmente suficiente, mas não necessária, para se ter experienciado algo é o relato verbal posterior, e este é o caso fulcral à volta do qual todos os casos enigmáticos giram. Suponhamos que embora o nosso cérebro tenha registado — isto é, respondido a — (alguns aspectos de) um acontecimento, algo intervém entre essa resposta interna e uma ocasião posterior para um relato verbal. Se não houve tempo ou oportunidade para uma resposta inicial manifesta de qualquer tipo e se os acontecimentos que ocorrem entretanto impedem que respostas manifestas posteriores (verbais ou de outro tipo) incluam referências a algum(ns) aspecto(s) do primeiro acontecimento, isto cria uma questão enigmática: será que eles nunca foram percebidos conscientemente, ou terão eles sido rapidamente esquecidos?

Considere-se a capacidade normal de apreensão. Várias letras são expostas simultaneamente por breves instantes. Algumas são identificadas. As restantes foram sem dúvida vistas. O sujeito insiste que elas estavam lá, ele sabe quantas eram e tem a impressão que elas eram claras e distintas. Contudo, não as consegue identificar. Ele não terá conseguido vê-las “realmente” ou tê-las-á “esquecido” rapidamente? Considere-se alternativamente um teste de capacidade de memória acústica realizado a um ritmo rápido, por exemplo, de 4 itens por segundo, de modo a que o sujeito forçosamente não possa responder até a ocorrência acústica ter terminado. Ele identifica alguns, outros não. Contudo, subjectivamente ele ouviu- os todos distintamente e igualmente bem. Será que ele não os ouviu realmente ou terá esquecido o resto?

E se, em circunstâncias ainda mais restritivas tais como o metacontraste, o sujeito não chega sequer a estar convencido de que os itens que ele não consegue recordar estavam lá, deveremos considerar este juízo como uma razão determinante para dizermos que ele não os experienciou, mesmo que se prove que eles deixaram outros traços de conteúdo no seu comportamento posterior? A haver um Teatro Cartesiano, estas perguntas exigem resposta porque aquilo que entra no teatro e o momento em que entra é presumivelmente fixo, mesmo que as fronteiras apareçam difusas devido a limitações humanas de percepção e memória.

O nosso modelo das Versões Múltiplas sugere uma perspectiva diferente acerca destes fenómenos. Quando muita coisa acontece em pouco tempo, o cérebro pode fazer suposições simplificadoras (para uma perspectiva favorável a esta, ver Marcel 1983). No metacontraste, o primeiro estímulo pode ser um disco e o segundo estímulo um anel que se adapte ao contorno exterior do espaço em que o disco fora exposto. O contorno exterior de um disco rapidamente se torna no contorno interior de um anel. O cérebro, inicialmente informado somente de que algo acontecera (algo com um contorno circular num determinado sítio), rapidamente recebe a confirmação de que houvera de facto um anel, com um contorno interior e exterior. Sem quaisquer outros indícios de que houve um disco, o cérebro chega à conclusão cautelosa de que só houve um anel. Deveríamos insistir que o disco foi experienciado porque se o anel não tivesse interferido o disco teria sido relatado? O nosso modelo de como o fenómeno foi causado mostra que não há nenhuma maneira justificável de resolver tais disputas acerca das fronteiras: informação acerca do disco esteve por breves instantes numa posição funcional para contribuir para um relato posterior, mas este estado cessou; não há qualquer razão para insistir que este estado estava dentro do círculo encantado da consciência até ser sobreposto por outro estado ou, de modo oposto, para insistir que ele nunca chegou a atingir este estado. Nada de observável a observadores “interiores” ou “exteriores” poderia distinguir estas possibilidades.

Na cor phi, os processos que determinam que o segundo círculo é verde e de que há movimento decorrem aproximadamente ao mesmo tempo (em diferentes partes do cérebro) e contribuem no final para o processo que conclui que o círculo vermelho se moveu e se tornou repentinamente verde a meio do trajecto. Essa conclusão é tirada de forma suficientemente rápida, no caso-padrão, para ofuscar ou substituir quaisquer conteúdos paralelos antes de eles poderem contribuir para a formulação de um relato. Assim, o sujeito diz — e crê — somente (n)aquilo que Kolers e von Grünau observam, e isso é aquilo de que o sujeito estava consciente. Estivera o sujeito também consciente uma fracção de segundo mais cedo do círculo vermelho fixo? Pergunte-lhe. Se o intervalo entre os estímulos for de algum modo aumentado, haverá uma altura em que o sujeito de facto relata uma experiência de primeiro um círculo vermelho fixo e depois um círculo verde, e de seguida uma sensação manifestamente retrospectiva de que o círculo vermelho se movera (se “deve ter” movido) e mudara de cor. Esta experiência tem — como o próprio sujeito lhe poderá dizer — uma fenomenologia bastante diferente. O movimento aparente é experienciado nessas condições, mas é nitidamente diferente do movimento normal e de tipos mais rápidos de movimento aparente. De que modo é esse movimento diferente? O sujeito nota a diferença! Neste caso parece-lhe de facto como se só mais tarde ele “se desse conta” que houvera movimento. Mas nos casos em que falta este elemento retrospectivo ainda se dá o caso que a discriminação do ‘movimento com mudança de cor’ se realiza após as cores e as localizações dos círculos serem discriminadas — e não é preciso nenhum processo posterior de preenchimento.

No caso do “coelho” cutâneo, a deslocação no espaço (ao longo do braço) é registada temporalmente pelo cérebro. O número de batidas é também registado. Embora na realidade física as batidas tenham sido agrupadas em localizações específicas, a hipótese simplificadora é a de que elas foram distribuídas de forma regular ao longo da extensão espacio-temporal da experiência. O cérebro cai nesta interpretação simples mas errada após as batidas serem registadas e isto tem como efeito eliminar interpretações anteriores (parciais) das batidas, mas alguns efeitos colaterais dessas interpretações (por exemplo, a interpretação de que houve cinco batidas, de que houve mais do que duas batidas, etc.) podem subsistir.

Embora diferentes propriedades sejam de facto extraídas por diferentes grupos neuronais a ritmos diferentes (por ex., localização contra forma contra cor), e embora caso nos fosse pedido para responder à presença de cada uma delas isoladamente nós o fizéssemos com latências diferentes, percepcionamos acontecimentos, não uma corrente subtil sucessivamente analisada de elementos ou propriedades perceptivas. Como Efron chama a atenção:

“Não há quaisquer razões para uma suposição a priori de que a especificidade da nossa consciência de um objecto de percepção, ou de um aspecto desse objecto, aumente ou cresça gradualmente após o seu começo, indo da experiência menos específica até uma experiência maximamente específica. […] Não se dá o caso, quando observamos pela primeira vez um objecto com visão central, que experienciemos esse objecto de modo passageiro como ele nos apareceria com o máximo de visão periférica, depois como ele apareceria com menos visão periférica. […] De igual modo, quando viramos a nossa atenção de um objecto da consciência para outro, não há experiência de especificidade “crescente” do novo objecto da consciência — nós pura e simplesmente percebemos o novo objecto.” (1967, p. 721)

Haverá um “momento óptimo de sondagem”? Na suposição plausível de que após algum tempo essas narrativas se degradam de modo relativamente constante devido a um esquecimento de pormenores e a uma ornamentação egocêntrica (aquilo que eu deveria ter dito na festa tem tendência a tornar-se naquilo que eu realmente disse na festa), justifica-se a sondagem “o mais rapidamente possível” a seguir à sequência de estímulos que nos interessa. Ao mesmo tempo, devemos evitar interferir com o fenómeno com uma sondagem prematura. Visto que a percepção se torna imperceptivelmente em memória, e a interpretação “imediata” se torna imperceptivelmente em reconstituição racional, não há um ponto culminante único, omniabarcante, para o qual direccionar as nossas sondas. Qualquer sonda pode provocar uma narrativa (ou fragmento narrativo) e toda e qualquer narrativa assim evocada determina uma “linha temporal”, uma sequência subjectiva de acontecimentos a partir do ponto de vista de um observador. Esta linha temporal pode então ser comparada com outras, em especial com a sequência objectiva de acontecimentos que tiveram lugar no cérebro desse observador. Pelas razões que comentámos, estas duas linhas temporais podem não se sobrepor num registo ortogonal. Pode haver diferenças de ordem que provoquem curvas.

Não há nada de metafisicamente extravagante ou enigmático nesta falha de sincronia (Snyder 1988). Não é mais misterioso nem vai mais contra a causalidade do que sabermos que as cenas individuais nos filmes são frequentemente filmadas fora de sequência, ou de que quando você lê a frase “O Berto chegou à festa depois da Sara mas a Joana chegou antes deles os dois” você fica a saber sobre a chegada do Berto antes de saber da chegada anterior da Joana. O espaço e o tempo da representação é um quadro de referência; o espaço e o tempo daquilo que a representação representa é outro. Mas este facto metafisicamente inócuo não deixa contudo de alicerçar uma categoria metafísica fundamental: quando uma porção do mundo vem, deste modo, compor um fio de narrativas, essa porção do mundo é um observador. Isso é aquilo que é haver um observador no mundo, um algo que é como ser algo.

4. Conclusão

O modelo das Versões Múltiplas tem muitas outras implicações para as teorias científicas da consciência (Dennett 1991), mas a nossa conclusão principal neste artigo restringe-se às propriedades temporais da experiência: a representação da sequência na corrente da consciência é um produto dos processos interpretativos do cérebro, e não um reflexo directo da sequência de acontecimentos que compõem esses processos. De facto, como Jackedoff nos chamou a atenção, aquilo que pretendemos defender neste artigo é a extensão directa à experiência do tempo da sabedoria comum acerca da experiência do espaço; a representação do espaço no cérebro nem sempre usa ‘espaço no cérebro’ para representar o espaço, e a representação do tempo no cérebro nem sempre usa ‘tempo no cérebro’. Pode-se objectar que os argumentos aqui apresentados são ineficazes para destronar a verdade ainda óbvia de que as nossas experiências de acontecimentos ocorrem na mesma ordem em que nós experienciamos a sua ocorrência. Se alguém pensar o pensamento “um, dois, três, quatro, cinco”, o seu pensamento de “um” ocorre antes do seu pensamento de “dois”, e por aí fora. O exemplo realmente mostra uma tese que é verdadeira em geral e parece de facto não apresentar excepções, desde que restrinjamos a nossa atenção a fenómenos psicológicos de duração “normal”, de macroescala. Mas as experiências que escolhemos para analisar dizem respeito a acontecimentos que estão restringidos por períodos de tempo excepcionalmente curtos de umas quantas centenas de milissegundos. A esta escala, mostrámos nós, a suposição correntemente aceite cai por terra.

Pode-se pensar, então, que estamos a lidar só com casos especiais. Estes casos restritos podem revelar, como uma questão interessante, como é que o cérebro lida com sobrecargas de informação mas, poder-se-á pensar, eles não são representativos do modo mais habitual do funcionamento cerebral. É exactamente o contrário, como se pode esperar tendo em vista a propensão bem conhecida do cérebro para aplicar um número limitado de mecanismos básicos a um leque alargado de situações. Os processos de revisão que são revelados de forma surpreendente nos casos que incluem uma pressão temporal continuam indefinidamente à medida que o cérebro responde às exigências ininterruptas de cognição e controlo. Por exemplo, à medida que o tempo passa a seguir à ocorrência de um acontecimento, esse acontecimento pode ser chamado de novo à memória episódica, mas de modo sempre cada vez mais limitado. Após alguns dias, um acontecimento que pode ter-se desenrolado ao longo de minutos ou mais longa ainda é recordado como tendo ocorrido num período de tempo tão curto como aqueles de que temos estado a tratar. Tais memórias apresentam-se, não como versões vagas ou empobrecidas, mas sim como versões internamente coerentes, simplificadas, daquilo que se considera ser os elementos mais importantes. A sucessão temporal é habitualmente uma das primeiras vítimas desta reorganização do acontecimento, sendo sacrificada a favor de informação (aparentemente) mais útil (como exemplificado no fenómeno phi).

Percebemos — e recordamos — acontecimentos perceptivos, não um gotejar sucessivamente analisado de elementos ou propriedades perceptivas encadeados em sucessão como se fixados num filme ininterrupto. Diferentes propriedades dos acontecimentos são de facto extraídas por grupos neuronais diferentes a diferentes ritmos (por ex., localizações contra forma contra cor) e as pessoas, se lhes pedissem que reagissem à presença de cada uma delas isoladamente, fá-lo-iam com diferentes latências, dependendo de qual delas se tratava e de outros factores bem estudados. A correcção temporal relativa dos inputs desempenha um papel necessário na determinação da informação ou do conteúdo da experiência, mas não está necessariamente ligada a nenhum estádio ou momento no tempo durante o processamento central. A prontidão com que podemos reagir a um isoladamente e a prontidão com que podemos reagir ao outro, isso não indica exactamente qual será a relação temporal dos dois em percepções que incluem ambos.

Não há nada de teoricamente errado com o objectivo de obter informação precisa relativamente à correcção temporal nas operações mentais ou nas trocas de informação no cérebro (Wasserman e Kong 1979). É de facto fundamental para o desenvolvimento de uma boa teoria das funções de controlo do cérebro sabermos exactamente quando e onde convergem vários fluxos informacionais, quando é que ocorrem “inferências”, “correspondências” e “ligações”. Mas estes pormenores temporais e espaciais não nos dizem nada directamente a respeito dos conteúdos da consciência. A sequência temporal na consciência é, dentro dos limites em que uma qualquer janela temporal de controlo delimita a nossa investigação, pura e simplesmente uma questão de conteúdo representado, não a correcção temporal da representação.

Daniel C. Dennett & Marcel Kinsbourne

Publicado originalmente em Behavioural and Brain Sciences (1992), 15, 183–247. Os autores concederam permissão para a tradução portuguesa e publicação deste texto.

Notas

  1. Não se traduz aqui esta secção na medida em que o essencial da teoria de Daniel Dennett e de Marcel Kinsbourne se encontra nas secções 1 e 2. (N. do T.)

  2. Uma excepção filosófica é Vendler (1972, 1984) que pretende salvar o dualismo cartesiano. Eccles (ex.: Popper e Eccles 1977) representa uma excepção científica.

  3. Que tal a hipótese de um Robinson Crusoe cientista solitário que executa todas estas experiências em si próprio sem recorrer à linguagem? Seriam as anomalias visíveis para este observador solitário? E que tal reproduzir estas experiências com animais sem linguagem? Seríamos tentados a interpretar os resultados da mesma maneira? Seria tal procedimento correcto? Estas são todas elas boas perguntas, mas as suas respostas são complicadas e temos que as deixar para outra ocasião.

  4. Um tal “carimbo” pode, em princípio, ser adicionado a um transmissor de conteúdo a qualquer altura durante o seu trajecto; se todos os elementos que chegam a um determinado lugar vêm do mesmo sítio, pela mesma via e à mesma velocidade, o seu “momento de partida” em relação ao destino original pode ser retroactivamente carimbado neles, bastando para tal subtrair uma constante do seu tempo de chegada à estação intermédia. Esta é uma possibilidade técnica que é provavelmente usada pelo cérebro para fazer certos ajustes automáticos para tempos de percurso normalizados.

  5. “A essência de muita da investigação que tem sido feita no campo da codificação sensorial pode destilar-se numa única ideia especialmente importante — qualquer código candidato pode representar qualquer dimensão perceptiva; não há necessidade de uma relação isomórfica entre os dados neuronais e os dados psicofísicos. O espaço pode representar o tempo, o tempo pode representar o espaço, o lugar pode representar a qualidade, e as funções neuronais não-lineares podem sem dúvida representar funções psicofísicas lineares ou não-lineares de igual modo” (Uttal 1979). Esta é uma ideia amplamente aceite mas, como mostraremos, alguns teóricos compreendem-na (mal) reintroduzindo tacitamente o “isomorfismo” desnecessário numa posterior tradução ou “projecção” vagamente imaginadas na consciência.

  6. Cf. Pylyshyn 1979: “Ninguém (…) está disposto a falar literalmente das propriedades físicas de um acontecimento mental como a sua cor, tamanho, massa e por aí fora — embora falemos delas como representando tais propriedades (ou tendo o conteúdo experiencial delas). Por exemplo, ninguém diria propriamente de um pensamento (ou imagem) que ele é grande ou vermelho mas tão somente que é um pensamento acerca de algo grande ou vermelho (ou que é a imagem de algo grande ou vermelho). (…) Deveria surpreender-nos, pois, o facto de falarmos tão livremente da duração de um acontecimento mental.”

  7. P.S. Churchland (1981a, p. 172) marca uma diferença entre “mascarar no sentido habitual” e “apagar na memória a curto prazo”, o que possivelmente se trata de uma alusão a estas duas possibilidades, mas não nos diz como é que podemos distingui-las.