5 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Mentiras

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Vivemos rodeados de meias verdades, que são as mais perigosas mentiras. Quase nada do que se vê na publicidade ou no discurso dos políticos é inteiramente mentira, mas também quase nada é rigorosamente verdade. E a mentira é tanto mais perigosa quando se alimenta deste lusco-fusco da verdade a meio-gás precisamente porque não pode ser claramente denunciada. Não é inteiramente mentira que os produtos publicitados têm as propriedades anunciadas, nem é inteiramente mentira o que dizem os políticos; mas também não é realmente verdade, nem a verdade mais relevante. Acontece que a verdade mais relevante não tem interesse para quem nos quer manipular porque não permitiria a manipulação: "Olhe, há carradas de produtos concorrentes e o nosso é mais ou menos igual ao da concorrência, mais coisa menos coisa, mas compre antes o nosso, por favor". Esta não é uma boa estratégia publicitária. "Na verdade, não há praticamente diferença entre mim e o outro candidato a primeiro-ministro, quer em termos de ideias quer em termos de competência ou inteligência, mas por favor vote em mim". Nem sentado vale a pena esperar por um político que se publicite deste modo.

A mentira com que nos habituámos a viver é um desastre educativo. Andamos anos a dizer às crianças que é importante não mentir e depois elas descobrem um dia que quase todas as relações sociais e institucionais, políticas e empresariais, são baseadas na mentira e na manipulação. Isto provoca em alguns recém-adultos uma revolta vaga contra a sociedade, sem que saibam exactamente contra o quê. Outros resolvem juntar-se à onda de mentiras e manipulação para assim conseguirem vingar. E todos ficamos pior porque ninguém pode ser verdadeiramente feliz vivendo uma mentira, ainda que disfarçada de meias verdades. A vida é mais tranquila quando vivemos honestamente e não procuramos manipular o parceiro, mas não é assim que organizámos o nosso modo de vida.

Pagamos mais barato o jornal, mas mais de metade das páginas são publicidade a produtos que compramos mais caros para que as empresas possam anunciar no jornal que assim compramos mais barato. Protestamos contra tanta publicidade mas alimentamos a televisão gratuita, subsidiada com os lucros das empresas que nos vendem produtos mais caros para poderem pagar os anúncios na televisão, e o mesmo acontece na Internet. Poderíamos pagar directamente os jornais, a televisão e as publicações que lemos na Internet, e assim haveria mais honestidade e menos mentira, mas não o fazemos. Subsidiamos a mentira e protestamos contra ela, mentindo a nós mesmos no acto de protestar.

Procurar um modo de vida mais honesto e denunciar a mentira pode parecer um mero gesto romântico sem efeitos práticos, uma mera utopia. Mas nem todas as utopias são irrealizáveis, e não poderemos saber se esta o é enquanto não tentarmos realizá-la. Ainda que a mentira não seja totalmente eliminável, poderá ser pelo menos drasticamente limitada. E um passo na direcção da honestidade é um passo que vale a pena.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (30 de Setembro de 2008)
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