Enigmas da Existência
19 de Janeiro de 2007 ⋅ Metafísica

Chocolates e metafísica

Desidério Murcho
Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, de Earl Conee e Theodore Sider
Tradução de Vítor Guerreiro
Revisão científica de Desidério Murcho
Lisboa: Bizâncio, Março de 2010, 272 pp.
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Em 1928, Álvaro de Campos declarava em "A Tabacaria" que "não há mais metafísica no mundo senão chocolates". À sua maneira, talvez esta fosse mais uma das muitas tentativas de assassinato da metafísica — tendo esta a vantagem nada desprezível de ser literariamente genial. Surpreendentemente, foram os próprios filósofos que tentaram acabar com a metafísica, mas talvez não o tenham feito para se dedicar aos chocolates. A origem desta má-vontade contra a metafísica é o velho hábito pouco recomendável de deitar fora os inocentes bebés com a água — suja, presume-se — do banho. Felizmente, as coisas mudaram há muito, e a metafísica renasce hoje em toda a sua plenitude. Em Janeiro de 1996, Alex Olivier escrevia estas palavras numa das mais influentes revistas académicas de filosofia, a Mind:

"A metafísica sobreviveu a muitas tentativas de assassinato. O pedido de Hume para lançar os livros à fogueira não foi atendido excepto pelos seus descendentes distantes, os positivistas lógicos, cuja troça teatral da metafísica deu origem a meia dúzia de risotas baratas. Agora o espectáculo chegou ao fim e a metafísica séria floresce uma vez mais."

Contudo, para compreender os estudos metafísicos fascinantes que têm florescido a partir dos anos setenta do séc. XX é necessário começar por ler algumas boas introduções e antologias de metafísica. Uma das mais recentes e bem conseguidas introduções, dirigidas ao grande público, é este pequeno livro de Earl Conee e Theodore Sider. Com dez pequenos capítulos, dedicados a nove problemas centrais da metafísica, este pequeno livro distingue-se por não se apresentar como um manual escolar, mas antes como um livro de divulgação. O objectivo é fazer o leitor pensar e sentir a urgência e a realidade dos problemas da metafísica, que não se reduzem a meros formalismos escolares para fazer exames. Sem referir filósofos nem bibliografia, os autores apresentam e desenvolvem os problemas, teorias e argumentos da metafísica como enigmas fascinantes que nos prendem directamente pela sua densidade e sofisticação. Os problemas abordados são os seguintes: a identidade pessoal, o fatalismo, a natureza do tempo, a existência de Deus, o sentido da existência (ou seja, por que há algo e não o nada), o aparente conflito entre o determinismo da natureza e o livre-arbítrio humano, o problema da constituição, o problema dos universais e a natureza da necessidade e da possibilidade. O último capítulo é sobre a natureza da própria metafísica.

Os autores abordam directamente cada problema filosófico, a partir da experiência que todos temos das coisas, e não a partir da história do problema. Evidentemente, o percurso conceptual escolhido pelos autores reflecte a história das teorias e argumentos mais relevantes. Mas o leitor sente directamente a força dos problemas, teorias e argumentos, e este é o aspecto mais bem conseguido deste livrinho. Por exemplo, ao apresentar o problema da constituição, os autores começam com um argumento simples:

"Quando temos uma estátua de barro na mão, estamos de facto a segurar dois objectos físicos: uma estátua e um pedaço de barro. Pois se partirmos a estátua, esta é destruída, mas o pedaço de barro continua a existir."

Dado que é surpreendente pensar que dois objectos físicos distintos podem ocupar exactamente o mesmo espaço, algo está errado neste argumento. Mas o quê? Para pensar sobre este e outros problemas fascinantes, atire-se a este livrinho — mas não se esqueça dos chocolates.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (22 de Julho de 2006)
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