The Philosophy of Time
21 de Novembro de 2005 ⋅ Metafísica

O ser do tempo

Desidério Murcho
The Philosophy of Time, org. por Robin Le Poidevin e Murray MacBeath
Oxford: Oxford University Press, 1993, 236 pp.
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O debate moderno sobre a realidade do tempo tem origem num famoso ensaio publicado em 1908 por J. M. E. McTaggart (1866–1925), no qual defendia que o tempo é uma ilusão. O argumento de McTaggart pode ser formulado do seguinte modo: 1) O tempo envolve mudança; 2) só as formas flexionadas de expressão podem exprimir a mudança; 3) mas as formas flexionadas de expressão envolvem contradições; logo, o tempo é irreal. Os filósofos actuais dividem-se entre os que defendem teorias flexionadas e os que defendem teorias não flexionadas. Os primeiros aceitam a premissa 2, mas recusam 3, procurando mostrar por que razão as formas flexionadas não dão origem a contradições. Os segundos aceitam a premissa 3, mas recusam a 2, procurando mostrar que podemos exprimir a mudança sem usar formas flexionadas.

Um segundo problema filosófico central no que respeita ao tempo é o seguinte: O que é existir no tempo? Uma pessoa que existe ao longo de oitenta anos existe só parcialmente em cada dia da sua vida, ou existe completamente em cada um dos seus dias de vida? A discussão moderna do problema da persistência ao longo do tempo tem origem em David Lewis (1941–2001). Este filósofo defende que um particular só existe parcialmente em cada momento da sua existência; a existência total do particular dá-se ao longo de todo o tempo da sua existência. Assim, uma pessoa que vive oitenta anos é uma totalidade com oitenta anos; a cada dia, estamos apenas perante um "segmento temporal" dessa pessoa, mas não perante a pessoa na sua totalidade. Chama-se "perdurabilismo" a esta perspectiva, que se opõe ao "durabilismo". O durabilismo é a perspectiva mais intuitiva segundo a qual os particulares existem completamente em cada momento do tempo. Assim, uma pessoa vive oitenta anos mas está totalmente presente em cada momento do tempo: quando falamos com ela, estamos a falar realmente com ela, e não com um "segmento temporal" dela.

Um terceiro problema filosófico central no que respeita ao tempo, situando-se este sobretudo na área da filosofia da física, é o seguinte: Poderá o tempo existir sem mudança? Que a mudança não pode existir sem tempo é óbvio. Mas os absolutistas defendem que o tempo pode existir sem mudança: o tempo, defendem, é uma substância (razão pela qual a esta teoria também se chama "substantivismo"), e não um mero resultado da existência de particulares em mudança. Em oposição a esta ideia, os relacionistas defendem que o tempo não é coisa alguma além da mudança: sem esta, o tempo não existiria. O debate contemporâneo deste problema deve muito a um influente artigo de Sydney Shoemaker (n. 1931) publicado em 1969 e no qual se apresenta uma imaginativa experiência mental que procura mostrar que é possível ter boas razões para aceitar a existência de tempo sem mudança, ainda que tal coisa seja indetectável em princípio.

Este volume apresenta doze artigos centrais da filosofia contemporânea do tempo, divididos em quatro partes. Além dos artigos referidos de McTaggart e Shoemaker, inclui artigos de Arthur Prior, Mellor, Forbes, Sklar, Dummett e Newton-Smith, entre outros. Quem gosta de pensar nos problemas centrais da metafísica, encontra aqui nacos suculentos da melhor filosofia, servidos por uma esclarecedora e substancial introdução.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (11 de Junho de 2005)
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