Teorias da Verdade
28 de Setembro de 2004 ⋅ Metafísica

Publicação oportuna

Orlando Tambosi
Teorias da Verdade: Uma Introdução Crítica, de Richard L. Kirkham
Tradução de Alessandro Zir
São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003, 500 pp., R$ 69,00
Comprar

A questão da verdade, um dos temas mais controversos e estimulantes da filosofia, cuja importância se estende aos problemas da teoria do conhecimento, da lógica, da lingüística e das ciências, é esmiuçada por Richard Kirkham nesta alentada "introdução crítica", publicada originalmente pelo MIT Press em 1992 e agora traduzida por uma pequena editora universitária brasileira. Em dez longos capítulos, cada qual acompanhado de resumo, o livro analisa as principais teorias da verdade, as objeções contra elas levantadas e as respectivas dúvidas a que devem responder.

Procurando desfazer as confusões e ambigüidades que permeiam o tema, Kirkham distingue três grandes projetos que constituem a bibliografia sobre a verdade: o projeto metafísico, o projeto da justificação e o projeto dos atos-de-fala.

O projeto metafísico tenta identificar em que consiste a verdade e tem três subdivisões: a) o projeto extensional, que busca fixar a referência, a denotação (ou seja, a extensão) do predicado "é verdadeiro" (filósofos alinhados: Alfred Tarski e Saul Kripke; "escola teórica": teoria semântica); b) o projeto naturalista, que procura encontrar condições que, em todo mundo naturalmente possível, sejam individualmente necessárias e conjuntamente suficientes para uma afirmação ser verdadeira (em tal mundo); c) o projeto essencialista, que, por sua vez, tenta encontrar condições que, em qualquer mundo possível, sejam individualmente necessárias e conjuntamente suficientes para uma afirmação ser verdadeira em tal mundo (filósofos: C. S. Peirce [pragmatismo], William James [instrumentalismo], Bertrand Russell e J. L Austin [teoria da correspondência], B. Blanshard [teoria coerentista] e Paul Horwich [teoria minimalista]).

O projeto da justificação (Kirkham distingue nitidamente as teorias da verdade das teorias da justificação) busca identificar certas características que a maior parte das afirmações verdadeiras possuem e que faltam à maior parte das afirmações falsas. É em relação a tais características que a provável verdade ou falsidade de uma afirmação pode ser julgada. Em outras palavras, o projeto tenta estabelecer um critério para a verdade. Kirkham alinha a este projeto os filósofos F.H. Bradley (teoria coerentista) e, novamente, William James (instrumentalismo) e B. Blanshard (teoria coerentista), além de vários outros, fundacionalistas.

O projeto dos atos-de-fala tem por objetivo descrever os propósitos locucionários ou ilocucionários de declarações que, por sua aparência gramatical, parecem atribuir a propriedade da verdade algumas afirmações ou crenças (por exemplo, declarações como "a sentença s é verdadeira"). Este projeto tem duas subdivisões: a) o projeto do ato ilocucionário, que procura descrever o que fazemos quando declaramos algo, é seguido pelos filósofos que acham que as declarações em questão não têm propósito ilocucionário (P. F. Strawson [teoria performativa], H. Price [teoria darwiniana]); b) o projeto assertivo, que busca descrever o que dizemos quando declaramos algo, é seguido por aqueles que estão convencidos de que as declarações em questão têm um propósito locucionário. Este projeto também tem duas subdivisões: o projeto da atribuição, que constitui a perspectiva comum (ingênua?), e o projeto da estrutura profunda (de F.P. Ramsey [teoria da redundância], Alan White [teoria avaliativa] e outros).

Kirkham analisa minuciosamente cada um dos projetos, fornecendo exemplos que facilitam a compreensão do leitor a que se dirige (particularmente estudantes de graduação e pós-graduação). Especial atenção é dedicada à teoria semântica de Tarski, uma das mais influentes no século passado, e aos programas de Donald Davidson e Michael Dummett. O autor aponta, aqui, para a distinção entre projetos e programas: "projetos adquirem importância porque soluções para eles podem ser colocadas a serviço de empreendimentos filosóficos mais amplos" — e estes, em geral, é que são "chamados de programas", porque "estão mais próximos dos problemas e das preocupações humanas imediatas do que os próprios projetos". Ao contrário do que se pensa — esclarece Kirkham — Davidson e Dummett não construíram teorias da verdade, mas seguem programas filosóficos mais amplos, procurando "saber se a teoria da verdade de alguma outra pessoa pode ser posta a serviço deste ou daquele programa".

A origem da confusão em relação às teorias da verdade reside, justamente, na indistinção de projeto e programa e na correlata indistinção dos diferentes projetos. Kirkham se propôs a resolver essa confusão juntando as peças de um intrincado quebra-cabeça — tarefa que cumpriu com êxito, num livro que exige leitura atenta para não se perder o fio da meada. Tanto que o próprio autor recomenda que, lido o texto do começo ao fim, releia-se o primeiro capítulo, "Projetos de teorias da verdade", que junta as peças dos diversos projetos. Observe-se, por fim, que uma revisão mais atenta teria livrado a tradução brasileira de alguns pequenos erros (como, por exemplo, o de grafar, por mais de uma vez, o sobrenome da filósofa Susan Haack como Haak), que não chegam, contudo, a comprometer o trabalho, cuja publicação é bastante oportuna.

Orlando Tambosi
o.tambosi@uol.com.br

Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte