Free Will
29 de Maio de 2005 ⋅ Metafísica

Ilusão e livre-arbítrio

Desidério Murcho
Free Will: A Very Short Introduction, de Thomas Pink
Oxford: Oxford University Press, 2004, 144 pp.
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O problema do livre-arbítrio é um tema central da metafísica e da ética. A ideia intuitiva é que ter livre-arbítrio é poder controlar apenas pela nossa vontade as nossas acções. Assim, os movimentos automáticos do corpo, como o bater do coração, não são fruto do livre-arbítrio; mas caminhar mais ou menos depressa é algo que podemos controlar pela nossa vontade apenas.

O livre-arbítrio desempenha um papel central na nossa concepção da ética e consequentemente na nossa organização jurídica. Quando se prova em tribunal que João morreu porque Jacinto fez algo, a condenação de Jacinto pode depender de sabermos se o que Jacinto fez foi ou não fruto do seu livre-arbítrio. E em muitos casos considera-se que uma pessoa é inimputável porque se considera que não tem realmente livre-arbítrio, ou não tinha livre-arbítrio numa dada ocasião. Contudo, justificar a nossa concepção intuitiva de livre-arbítrio é muito difícil.

Ao longo da história da filosofia, como Thomas Pink sublinha neste livrinho, o problema foi formulado de maneiras diferentes. Hoje em dia as pessoas estão mais familiarizadas com a formulação que nasceu da visão mecanicista e determinista da ciência moderna, e a que Hobbes deu eco. Essa formulação é a seguinte: dado qualquer acontecimento A no universo, há outro acontecimento ou conjunto de acontecimentos que, só por si, determinam A causal e totalmente. Assim, o movimento actual do planeta Terra é inteiramente o efeito causal de outros acontecimentos anteriores; e esses acontecimentos são igualmente o efeito causal de outros — e assim por diante até ao princípio dos tempos. Mas se isto for assim, então a minha decisão de caminhar mais depressa já estava determinada muito antes de eu ter nascido, e tudo o que eu tenho é a ilusão de controlo: eu decidi, mas a decisão não foi realmente minha porque eu não poderia ter feito outra coisa. Não poderia ter feito outra coisa porque não poderia ter querido fazer outra coisa. Os medievais entendiam o problema de outra maneira: se Deus é presciente, então nós não podemos realmente ter livre-arbítrio porque Deus já sabia desde o princípio dos tempos que eu iria decidir caminhar mais depressa. Em qualquer das versões, o livre-arbítrio humano revela-se ilusório.

O problema mais profundo, contudo, é que mesmo que o universo não seja inteiramente determinado (nomeadamente devido a fenómenos quânticos), o livre-arbítrio não pode ser identificado com a aleatoriedade ou a mera ausência de cadeias causais exaustivas. Decidir livremente caminhar mais depressa é muito diferente de começar aleatoriamente a caminhar mais depressa. E se respondermos que o livre-arbítrio é a capacidade para agir em função da razão, estaremos também a eliminar o livre-arbítrio tal como correntemente o entendemos, pois estar determinado a agir segundo os ditames da razão revela tão pouco livre-arbítrio como estar determinado a agir aleatoriamente, ou a agir em função do estado causal do mundo de há dois biliões de anos. O livre-arbítrio é algo que se situa entre o determinismo e a aleatoriedade, entre a razão e a sua ausência. Compreender a natureza do livre-arbítrio, e se será afinal uma ilusão, é um dos temas centrais da filosofia e este pequeno livro guia o leitor com mestria inigualável pelos aspectos centrais do debate. Dada a sua precisão, concisão, profundidade e clareza, é um ponto de partida ideal para o grande público.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (22 de Janeiro de 2005)
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