The Oxford Handbook of Metaphysics
18 de Agosto de 2007 ⋅ Metafísica

Cinco átomos a mais?

Desidério Murcho
The Oxford Handbook of Metaphysics, org. por Michael J. Loux e Dean W. Zimmerman
Oxford: Oxford University Press, 2005, 736
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Um dos factos mais notórios do dinamismo filosófico das últimas três décadas tem sido o aparecimento de imensa investigação da mais alta qualidade na área da metafísica. Na introdução deste volume, os organizadores traçam a história recente deste feliz regresso da metafísica, em oposição às doutrinas antimetafísicas que resultavam mais ou menos directamente do positivismo lógico (que era um tanto incoerente, pois atacava a metafísica ao mesmo tempo que defendia teses genuinamente metafísicas). Quine e Strawson são dois dos filósofos responsáveis pela reabilitação da metafísica, o que não deixa de ser curioso porque "tinham as suas raízes na tradição antimetafísica que ajudaram a demolir" (p. 2). Mas, de diferentes maneiras, acabaram por abraçar a metafísica. No caso de Quine, preocupava-o as implicações ontológicas das teorias — quer das teorias científicas e lógicas, quer das teorias filosóficas. Quine procurava garantir que as teorias que aceitamos não pressupõem a existência de entidades que não quereremos aceitar. No caso de Strawson, a sua reabilitação da metafísica deu-se por via da descrição dos pressupostos metafísicos implícitos nos nossos esquemas conceptuais, procurando caracterizar cuidadosamente a metafísica implícita no nosso pensamento corrente e científico.

Esta obra ímpar pertence à colecção "Oxford Handbooks", que publicou já volumes dedicados à estética, epistemologia, livre-arbítrio, filosofia do direito e ética prática. A obra tem oito partes, respectivamente dedicadas às seguintes áreas: o problema dos universais; a existência e a identidade; a modalidade e os mundos possíveis; a natureza do tempo e da persistência; acontecimentos, causalidade e as implicações filosóficas da física quântica; a natureza do mental; o problema do livre-arbítrio; e o desafio do anti-realismo e da vagueza. Os artigos são da autoria de alguns dos mais importantes filósofos contemporâneos, autores de importantes estudos na área da metafísica, entre os quais se destacam E. J. Lowe, Peter van Inwagen, Kit Fine, Theodore Sider, Peter Simons, Michael Tooley, Hartry Field, Jaegwon Kim, Ernest Sosa e Timothy Williamson. Tendo como público-alvo estudantes e investigadores, exige da parte do leitor alguma familiaridade com a filosofia. É relativamente sofisticada, mas apresenta os temas de forma directa e precisa, sem ejaculatórias jactâncias linguísticas.

No nosso pensamento quotidiano mais banal escondem-se problemas ontológicos fundamentais. Por exemplo, podemos falar tranquilamente do filho que Wittgenstein nunca teve mas poderia ter tido — um "possibilia", como se diz no linguarejar técnico da filosofia clássica. Contudo, estas misteriosas entidades que não existem mas poderiam ter existido levantam perplexidades filosóficas notórias. Além disso, resultados básicos da lógica modal, estabelecidos pela filósofa Ruth Barcan Marcus, parecem contrariar a nossa intuição quotidiana de que há tais entidades. O pressuposto metafísico em causa é a ideia de que o número de entidades efectivamente existentes poderia ter sido diferente do que é — poderia haver mais cinco átomos do que os que efectivamente existem. Mas será esta intuição metafísica elementar uma mera ilusão? Há razões para pensar que sim. Se quiser saber porquê, estude o capítulo 6 deste livro.

Desidério Murcho
Texto publicado no jornal Público (2 de Fevereiro de 2007)
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