Life and Meaning
24 de Junho de 2004 ⋅ Ética

Os sentidos da vida

Desidério Murcho
Life and Meaning: A Reader, org. por Oswald Hanfling
Oxford: Blackwell, 1998, 256 pp., £16.99
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A imensa vitalidade da melhor filosofia contemporânea permitiu reactivar o estudo de problemas que outras tradições filosóficas abandonaram ao desvario das associações selvagens de ideias, das etimologias bárbaras e do repetitorium historiográfico. E é bom que assim seja, pois quem tem vocação filosófica quer pensar sem rodeios nos problemas tradicionais da filosofia — porque são esses problemas perenes que preocupam qualquer ser que pense de forma minimamente sistemática. Só esta atitude, aliás, permite o diálogo com a própria história da filosofia, que não é feita de historiadores da filosofia mas de filósofos — e se lemos o que eles escreveram não é para anotar passivamente as suas ideias em parágrafos bizantinos, mas para perguntar "Será que eles têm razão?" E isto é que é fazer filosofia e dialogar com a tradição.

Esta colectânea sobre o problema filosófico do sentido da vida oferece ao leitor amplas oportunidades para pensar por si mesmo neste problema. O organizador dividiu os ensaios escolhidos em quatro partes. A primeira intitula-se "Será que a Vida tem Sentido?" e apresenta oito ensaios. Alguns são excertos relevantes para o tema, como passagens do livro bíblico do Eclesiastes e da interessante A Minha Confissão, de Leão Tolstoi. Seguem-se ensaios de Kurt Baier, Richard Taylor, Thomas Nagel e Moritz Schlick, entre outros. A segunda parte, intitulada "Morte, Sofrimento e o Valor da Vida", apresenta ensaios de Lucrécio, Derek Parfit, Schopenhauer, G.E. Moore, Jonathan Glover e Peter Singer, entre outros. Na terceira parte, "Natureza e Sociedade", encontram-se ensaios de Rousseau, Hobbes, Aristóteles e John Stuart Mill. Por fim, na quarta parte ("Prazer, Felicidade e Realização Pessoal"), apresentam-se ensaios de Platão, John Stuart Mill, Nozick, Aristóteles, Bradley e Sartre.

A colectânea abrange assim alguns dos mais importantes temas relacionados com o problema do sentido da vida. Quando nos perguntamos se a vida tem sentido temos de começar por esclarecer o que se quer dizer com "sentido", neste contexto. Em geral, uma actividade com sentido é uma actividade com uma dada finalidade (intrínseca ou instrumental) que tem valor objectivo ou subjectivo. Assim, o problema de saber se a vida tem sentido é equivalente a saber se a vida tem uma finalidade e se essa finalidade tem valor. Dado ser óbvio que há imensas actividades humanas que têm finalidades com valor, e até valor objectivo, resta saber se a vida como um todo tem sentido desde que algumas das actividades desenvolvidas na vida tenham valor, ou se, pelo contrário, é necessário que a vida como um todo tenha, separadamente, uma finalidade com valor. As respostas religiosas costumam insistir na ideia de que, porque a vida é brutalmente interrompida pela morte, nenhuma das nossas actividades tem valor objectivo, apesar de poder ter valor subjectivo. Do ponto de vista religioso, a imortalidade da alma e uma finalidade exterior determinada por Deus é uma condição prévia para o sentido da vida. Muitos autores contemporâneos disputam esta ideia, defendendo que se a vida tivesse uma finalidade exterior, dada por Deus, não teria realmente qualquer sentido e seria profundamente ofensivo para a autonomia dos seres humanos. Poder pensar por si próprio neste importante problema filosófico é o que esta excelente colectânea proporciona.

Desidério Murcho
Texto publicado no jornal Público (27 de Dezembro de 2003)
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