O Que é uma Vida Bem Sucedida?
27 de Setembro de 2004 ⋅ Ética

Frágil felicidade

Leandro Anésio Coelho
O Que é uma Vida Bem Sucedida?, de Luc Ferry
Tradução de Karina Jannini
Rio de Janeiro: Difel, 2004, 350 pp.
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Prefaciado por Daniel Balavoine, o filósofo francês Luc Ferry já foi traduzido para vinte e cinco idiomas e atualmente é ministro da Juventude, da Educação Nacional e da Pesquisa em seu país. Não é difícil entender o sucesso da sua obra, pois ela já chama a atenção do leitor contemporâneo já no título, pois se acredita que quase todas as pessoas estejam em busca de uma resposta para a pergunta que Ferry intitula sua obra.

O livro divide-se em cinco partes, a saber: 1) ter êxito na vida: as metamorfoses do ideal; o momento Nietzschiano ou a vida bem-sucedida como a vida mais "intensa"; 2) posteridades de Nietzsche; quatro versões da vida após a morte de Deus; 3) "vida quotidiana", "vida de boêmio", vida de empresa" ou "vida desalienada"; 4) a sabedoria dos antigos ou a vida em harmonia com a ordem cósmica; 5) o mundo terreno encantado pelo além; um humanismo do homem-deus. A vida boa como vida em harmonia com a condição humana.

Pela própria estrutura da obra de Ferry, percebe-se que o autor deseja acompanhar na linha da história as respostas que a humanidade foi dando à pergunta "o que é uma vida bem sucedida?". O autor traça, também, uma discussão entre a diferença dos termos uma vida bem-sucedida e uma vida boa.

Já nos preliminares da obra a preocupação é reconhecer as respostas que a contemporaneidade dá para a indagação sobre a vida boa ou bem-sucedida. Trata-se de se ser bem sucedido socialmente, algo inerente aos valores construídos pela nossa sociedade. Alguns acreditam que ter uma vida boa é ser amado, bonito, ganhar muito dinheiro, ser inteligente, ter status e querido na sociedade. Com base nesses valores (atuais na nossa sociedade), discute-se no prefácio o significado de termos como "êxito", "tédio" e "inveja". Obtém êxito quem alcança esses valores construídos por uma sociedade moderna, valores intrínsecos à estrutura da sociedade na qual vivemos. Concomitantemente, atingir esse estágio é tedioso, pois o indivíduo passa a fazer parte de um todo muito maior, "funcionando" simplesmente para esse todo não parar. O autor faz aqui uma comparação do mundo com o giroscópio, o qual deve rodar simplesmente para não cair (cf. p. 20). Esse tédio surge quando se percebe ter entrado numa espécie de técnica (o autor usa esse termo e melhor o define) do mundo, que sufoca as demais potencialidades do homem. A inveja surge de forma corriqueira, muito mais do que se possa imaginar. Basta que um homem olhe para outro que possua maior sucesso na sociedade e se pergunte porque o outro tem mais do que ele se os dois são iguais. Vivendo nesta técnica da sociedade moderna não se encontra resposta para esse questionamento, o que se revela grande sofrimento para o homem menos abastado.

Ao fazer a pergunta o que é uma vida boa ou bem-sucedida frente ao mundo antigo, a resposta inevitável é preparar-se para a transcendência, ou seja, preparar-se para uma vida boa seguinte, o que ainda está por vir. Durante séculos a humanidade pensa dessa forma, que a melhor vida é aquela que prepara o homem, no sentido genérico da palavra, para o encontro com Deus, ou para as maravilhas posteriores que virão, o pós-morte. Trata-se do sobre-humano, de uma filosofia da transcendência, na qual diagnostica o melhor do homem (e da vida) fora dele mesmo. "Durante séculos, e pelo menos após o nascimento da filosofia na Antiguidade, questionar a respeito da "vida boa" significava, inicialmente, empenhar-se na busca de um princípio transcendente, de uma entidade externa e superior à humanidade, que lhe permitisse apreciar o valor de uma existência singular." (cf. p. 15).

Ao longo da história do pensamento da humanidade, muito tempo depois do que o autor chama de a "morte de deus" (refere-se ao período Nietzschiano), o homem começa a entender que o melhor da vida, ou o caminho para se atingir uma vida boa, não é depois, mas agora; não está fora do homem, mas nele mesmo. Só ele tem condições de tornar a sua vida o melhor possível, já que o melhor da sua existência não se revela depois, mas neste momento, enquanto se existe! O melhor da sua vida não está fora, mas no próprio indivíduo. Mais do que a morte de deus, é a desnecessidade da transcendência e, vimos aqui, a valorização da filosofia transcendental, do idealismo alemão, muito mais do período kantiano. O homem deve conhecer as suas potencialidades (o autor não usa esse termo) e discernir as melhores escolhas para ter uma vida boa ou bem sucedida de acordo com suas características. Mesmo abandonando o conceito de vida boa do homem antigo, a transcendência, podemos, mesmo assim, reportarmo-nos à sabedoria daquele povo, com esse novo entendimento de vida bem sucedida, lembrando-nos do oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo!"

Todas as partes da obra são essenciais para se entender a pergunta que norteia o livro e as possíveis respostas. Mas Ferry deixa para redigir de forma objetiva sobre a pergunta "o que é uma vida bem-sucedida?" no último capitulo da sua produção, quando responde: "Talvez simplesmente uma vida que prende aos olhos dos homens algo dessa grandeza e dessa luz da qual se refere Hugo [refere-se a um poema de Hugo que fala da grandeza do velho em relação ao tempo, da sua visão geral sobre a história e de como isso se revela uma luz]. Frágil felicidade? Provavelmente. Ela parecerá pouca em comparação com as promessas da religião, mas muita, em minha opinião, em relação às exigências do humanismo." (p. 350).

Leandro Anésio Coelho
Universidade Federal de São João del-Rei, Brasil
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