What is Good
28 de Abril de 2004 ⋅ Ética

Em busca de uma vida boa

Desidério Murcho
What is Good? The Search for the Best Way to Live, de A. C. Grayling
Londres: Phoenix, 2004, 274 pp.
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Os leitores portugueses de A. C. Grayling já conhecem a sua elegância literária, através do livro O Significado das Coisas (Gradiva). E conhecem também as suas ideias humanistas e as suas críticas à mundividência religiosa. O que desconhecem é o desenvolvimento mais pormenorizado destas ideias, pois o livro onde o autor as expõe acaba de ser editado em língua inglesa. A tese é que o pensamento cristão e a sociedade europeia dominada pelo cristianismo representam um retrocesso cultural e um fechamento mental relativamente à antiguidade clássica, mais rica, diversificada e racional. Grayling defende que o conflito entre a religião e as ciências não começou com a aversão a Galileu mas sim com a imposição da religião cristã, avessa ao estudo livre e racional, o que torna difícil a ciência e outras manifestações culturais independentes da religião. Este ponto de vista não é exactamente novo, nos seus traços gerais; filósofos como Hegel e Nietzsche há muito que tinham pressentido que o mundo cristão representava um empobrecimento cultural relativamente ao mundo da antiguidade grega. E esse era, afinal, o espírito do renascimento.

Grayling centra as suas atenções no problema do sentido da vida e procura mostrar que a resposta cristã a este problema filosófico central representa um recuo relativamente à visão grega das coisas. Apoiando-se em Aristóteles, nos epicuristas, nos estóicos e nos "cínicos" (os seguidores de Diógenes, e não os oportunistas contemporâneos), Grayling procura mostrar que as concepções gregas do florescimento humano conduzem a uma vida mais rica, equilibrada e feliz do que a concepção cristã. Antes de mais, porque do ponto de vista grego não há uma oposição radical entre a razão e a emoção, nem entre o ser humano e o mundo, nem entre o conhecimento do mundo e a compreensão da humanidade. Estas são oposições artificiosas, introduzidas pelo pensamento cristão, que se define contra este mundo porque aspira a outro. É neste contexto que se compreende por que razão os desenvolvimentos científicos actuais constituem um problema para a visão cristã do sentido da vida mas não para a visão humanista, que sempre viu a vida humana integrada no mundo natural. Aristóteles não compreenderia por que motivo as descobertas científicas — quer as de Darwin quer as de Newton e Galileu — são encaradas pelos teístas como obstáculos à tarefa de encontrar sentido para as nossas vidas. A resposta de Aristóteles teria sido precisamente a inversa: é a ignorância da natureza última das coisas que é um obstáculo à eudemonia. E esta é precisamente a tese de Grayling.

Estamos assim perante um livro que coloca em causa muitos dos mitos contemporâneos sobre a vida eudemónica e que apresenta dados, históricos e conceptuais, para que possamos compreender a visão humanista do florescimento humano. Com nove capítulos, é uma obra articulada onde o autor tem espaço para defender ideias que antes (em O Significado das Coisas) tinham apenas sido rapidamente apresentadas. Uma leitura verdadeiramente libertadora, sobretudo entre nós — um país onde um filme como O Crime do Padre Amaro, em pleno séc. XXI, desperta os instintos de censura e fogueira que sempre caracterizaram o pior da cultura portuguesa, e contra os quais, ironicamente, Eça escrevia tão maravilhosamente.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (18 de Outubro de 2003)
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