11 de Março de 2016   Metafísica

Metafísica e filosofia da mente

E. J. Lowe
Tradução de Eduardo Benkendorf

A filosofia da mente não trata apenas da análise filosófica de conceitos mentais ou psicológicos. Está também intimamente relacionada com problemas metafísicos. A metafísica – que tem sido tradicionalmente considerada a raiz de toda a filosofia – é a investigação sistemática da estrutura mais fundamental da realidade. Inclui, como uma importante subdivisão, a ontologia: o estudo acerca de quais categorias gerais de coisas existem ou poderiam existir. A filosofia da mente está relacionada com a metafísica porque precisa dizer algo sobre o estatuto ontológico dos sujeitos de experiência e seu lugar no esquema mais amplo de coisas. Nenhuma ciência particular – nem mesmo a física, muito menos a psicologia – podem roubar o papel da metafísica, porque toda a ciência particular pressupõe um quadro metafísico no qual interpreta os seus resultados experimentais. Sem uma concepção geral coerente do todo da realidade, não podemos ter a esperança de tornar compatíveis as teorias e observações das muitas e diferentes ciências: e fornecer tal concepção não é a tarefa de qualquer uma daquelas ciências, mas sim da metafísica.

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Algumas pessoas pensam que a era da metafísica já passou, e que aquilo que os metafísicos pretendem alcançar é um sonho impossível. Alegam que é uma ilusão supor que os seres humanos podem formular e justificar uma imagem não distorcida da estrutura fundamental da realidade – ou porque a realidade é inacessível para nós ou então porque seria um mito supor que exista, afinal de contas, uma realidade independente de nossas crenças. A estes céticos respondo que o exercício da metafísica é inevitável para qualquer ser racional e que eles mesmos demonstram isso nas objeções que levantam contra ela. Dizer que a realidade é inacessível para nós ou que não há qualquer realidade independente de nossas crenças é apenas fazer uma afirmação metafísica. E se responderem admitindo-o mas, ao mesmo tempo, negando que eles ou qualquer outra pessoa possa justificar afirmações metafísicas por meio de argumentos cuidadosamente pensados, então minha resposta é dupla. Primeiramente, a menos que possam apresentar alguma razão para pensar que as afirmações metafísicas nunca são justificáveis, não vejo por que deveria eu aceitar o que eles dizem sobre isto. Em segundo lugar, se pretendem abandonar completamente os argumentos cuidadosamente pensados, mesmo aqueles em defesa das suas próprias posições, então não tenho nada mais a dizer-lhes porque se excluíram de qualquer debate adicional.

A metafísica é inevitável para qualquer pensador racional, mas isto não quer dizer que o pensamento e o raciocínio metafísicos sejam fáceis ou infalíveis. A certeza absoluta não é mais alcançável em metafísica do que o é em qualquer outro campo de investigação racional, e é injusto criticar a metafísica por falhar em fornecer aquilo que não se espera que nenhuma outra disciplina – nem mesmo a matemática – forneça. Tampouco a boa metafísica é conduzida à parte das investigações empíricas. Se quisermos saber sobre a estrutura fundamental da realidade, não podemos ignorar o que os cientistas empíricos bem informados nos contam sobre o que, em sua opinião, existe no mundo. No entanto, a ciência pretende apenas estabelecer o que de fato existe, dadas as provas empíricas que temos disponíveis. Ela nem pretende e nem pode nos dizer o que poderia ou não poderia existir, muito menos o que deveria existir, pois estas são questões que vão além do escopo de qualquer prova empírica. Contudo, a ciência em si só pode usar a prova empírica para estabelecer o que existe de fato à luz de uma concepção coerente do que poderia ou não poderia existir, porque a prova empírica só pode ser prova para a existência de coisas das quais a existência é no mínimo genuinamente possível. E fornecer tal concepção é uma das tarefas principais da metafísica.1

O objetivo destas observações é enfatizar que não pode haver progresso seja na filosofia da mente seja na psicologia empírica se a metafísica for ignorada ou abandonada. Os métodos e descobertas dos psicólogos empíricos e outros cientistas, por mais valiosos que sejam, não substituem a metafísica nas investigações do filósofo da mente. Tampouco deveria a nossa metafísica estar servilmente subordinada à moda científica predominante. Os cientistas têm inevitavelmente suas próprias crenças metafísicas, frequentemente não-ditas e não-refletidas, mas para um filósofo seria uma completa renúncia da responsabilidade filosófica adotar a perspectiva metafísica de um grupo de cientistas apenas em respeito à sua importância como cientistas. Teremos a oportunidade para atender a este aviso de tempos em tempos no nosso exame dos problemas que filosofia da mente nos coloca.

E. J. Lowe

Retirado de An Introduction to Philosophy of Mind, de E. J. Lowe (Cambridge: Cambridge Univ. Press, 2000), pp. 3–6.

Nota

  1. Explico em mais detalhes as minhas opiniões sobre a metafísica e as sua importância no meu livro The possibility of Metaphysics: Substance, Identity and Time (Oxford: Clarendon Press, 1998), ch. 1.