The Mind in the Cave
24 de Janeiro de 2004 ⋅ Livros

Arte na caverna

Desidério Murcho
The Mind in the Cave: Consciousness and the Origins of Art, de David Lewis-Williams
Londres: Thames and Hudson, 2002, 320 pp., £18,95
Comprar

Platão encantou o mundo ocidental com a sua alegoria da caverna, representando o estado de falso conhecimento da humanidade, parcelar e imperfeito, como sombras projectadas nas paredes de uma caverna. Contudo, se David Lewis-Williams tiver razão, as imagens projectadas nas paredes das cavernas podem representar não a escravidão cognitiva dos seres humanos, mas a sua libertação. A tese central deste livro é surpreendente. Sob as vestes tranquilizadoras de uma indagação sobre as origens da arte pré-histórica que se encontra em cavernas fabulosas como Lascaux e Altamira, o autor apresenta na realidade toda uma visão sobre o que é ser um ser humano: um homo sapiens. As imagens fortemente coloridas de cavalos e bisontes a que se chama "arte pré-histórica" levantam vários problemas. Antes de mais, porque surgem subitamente com o sapiens sapiens e parecem propagar-se muito rapidamente; depois, porque não parecem corresponder a qualquer conceito do que hoje chamaríamos "arte", dado envolverem tantas vezes a produção de imagens em locais dificilmente acessíveis; e finalmente, porque não parecem conter elementos religiosos.

Apresentando não apenas as suas ideias, mas também as ideias defendidas ao longo da história da arte pré-histórica e da história da antropologia, o autor defende que tais imagens não são criações artísticas, mas mágicas. Nada há de muito especial aqui. O que é surpreendente é o que o autor defende que os nossos antepassados estavam a representar: nada. As imagens não são representações de coisa alguma, mas antes elementos mágicos do mundo dos xamanes, meios para alcançar estados alterados de consciência: alucinações. E é aqui que está a chave para a compreensão não só da arte pré-histórica, mas da nossa própria natureza mais profunda. Os Neandertais poderiam ter pintado se o tivessem desejado; eram suficientemente inteligentes para isso. O que lhes faltava era motivação para tal — porque a sua estrutura neurológica era diferente neste aspecto crucial: não tinham acesso ao mundo além deste mundo, o mundo das alucinações. E é este acesso que empurra o sapiens sapiens para a religião e a arte, lhe alimenta a hubris que o faz dar os saltos quânticos que observamos nos registos pré-históricos. Em suma: somos os filhos dos toxicodependentes, daqueles que adoram o mundo dos sentidos alucinados, quer alcancem este estado pela ingestão de alucinatórios, pela indução de transes através de danças, jejuns ou meditação zen.

Apoiando-se em vários estudos das ciências do cérebro e na antropologia, o autor procura caracterizar os diferentes tipos de estados alucinatórios, o que permite compreender o significado da "arte" pré-histórica, ao mesmo tempo que lança uma nova luz sobre a natureza do espírito ou mente humana. Contudo, não se trata de uma obra dirigida a especialistas, mas sim ao grande público. Numa linguagem clara e acessível, com humor e sem discursos emproados, o autor guia-nos pela história da teoria da evolução de Darwin e a compreensão radicalmente nova que ela permite, pelos desenvolvimentos das ciências do cérebro relevantes para o problema, e pelas diferentes teorias que procuram explicar as imagens pré-históricas. Com 94 ilustrações, das quais 27 são coloridas, estamos perante um livro único: uma teoria espantosa, uma história maravilhosa, um problema fascinante.

Desidério Murcho
Crítica publicada no jornal Público (21 de Junho de 2003)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte