The Pig that Wants to be Eaten
18 de Fevereiro de 2009 ⋅ Filosofia política

O paradoxo do pão indiano

Julian Baggini

No que diz respeito a acontecimentos reveladores, a chegada de pães indianos à mesa dificilmente será o mais dramático. Mas deu a Saskia o tipo de choque mental que modificaria profundamente a sua maneira de pensar.

O problema era que o empregado de mesa que serviu os pães indianos não era de ascendência indiana, mas sim um branco anglo-saxónico. Isto incomodou Saskia, pois para ela, um dos prazeres de jantar fora um prato de caril era a sensação de saborear uma cultura estrangeira. Se o empregado lhe tivesse servido um bife e empadão não teria sido mais incongruente do que a sua cor de pele.

Quanto mais pensava no assunto, todavia, menos sentido fazia. Saskia considerava-se multiculturalista. Isto é, apreciava positivamente a variedade de culturas que uma sociedade etnicamente diversa sustenta. Mas o seu prazer dependia de outras pessoas permanecerem etnicamente distintas. Ela só podia gozar de uma vida a esvoaçar entre muitas culturas diferentes se outros permanecessem firmemente enraizados numa delas. Para ela ser multiculturalista, outros tinham de ser monoculturalistas. Que impacto tem isso no seu ideal de uma sociedade multicultural?

Saskia tem razão em sentir-se desconfortável. Há um problema no seio do multiculturalismo liberal. Este defende o respeito por outras culturas, mas o que valoriza acima de tudo é a capacidade de transcender uma cultura e valorizar muitas. Isto coloca uma restrição fundamental ao alcance de tal respeito. A pessoa ideal é o multiculturalista que pode visitar uma mesquita, ler escrituras hindus e praticar meditação budista. Os que permanecem numa tradição não dão corpo a estes ideais, e portanto, apesar do discurso sobre o "respeito", só podem ser encarados como inferiores ao multiculturalista, com a sua abertura de espírito.

Há aqui um pouco da mentalidade de jardim zoológico. O multiculturalista quer andar por aí a admirar diferentes maneiras de viver, mas só pode fazê-lo se diversas maneiras de viver se mantiverem mais ou menos intactas. As diferentes subculturas na sociedade são portanto como jaulas, e se houver demasiadas pessoas a entrar ou a sair delas, tornam-se menos interessantes e o multiculturalista deixa de poder apontar para elas e sorrir. Se todos fossem tão culturalmente promíscuos como estes, haveria menos diversidade genuína com que se deliciarem. E assim os multiculturalistas têm de permanecer uma elite, parasitários relativamente às monoculturas internamente homogéneas.

Pode-se argumentar que é possível simultaneamente ser um multiculturalista e estar comprometido com uma cultura particular. O paradigma aqui é o do devoto muçulmano ou cristão que não obstante tem um profundo respeito por outras religiões e sistemas de crença e está sempre preparado para aprender com eles.

Todavia, a tolerância e o respeito por outras culturas não são o mesmo que valorizar todas as culturas de uma maneira mais ou menos igual. Para o multiculturalista, o melhor ponto de vista é aquele que vê mérito em todos. Mas não se pode ser um cristão, muçulmano, judeu ou mesmo um ateu dedicado e acreditar sinceramente nisto. Pode haver tolerância, ou mesmo respeito, por outras culturas, mas se um cristão realmente acreditasse que o islão é tão valioso como o cristianismo, por que seria um cristão?

Eis o dilema multiculturalista. Pode-se ter uma sociedade com muitas culturas que se respeitem entre si. Chame-se a isso "multiculturalismo" se se quiser. Mas se queremos defender um multiculturalismo que valoriza a própria diversidade e considera que todas as culturas têm igual mérito, então temos ou de aceitar que aqueles que vivem numa só cultura têm uma forma de vida inferior — o que parece ir contra a ideia de respeito por todas as culturas — ou temos de argumentar a favor da erosão das divisões entre culturas distintas, de maneira a que as pessoas valorizem cada vez mais as culturas dos outros — o que levará a um decréscimo no tipo de diversidade que afirmamos valorizar.

No nosso exemplo concreto, para que Saskia continue a desfrutar uma diversidade de culturas, tem de esperar que outros não abracem o multiculturalismo de uma maneira tão completa quanto ela o faz.

Julian Baggini

Tradução de Vítor Guerreiro
Retirado de The Pig That Wants to be Eaten: And Ninety-nine Other Thought Experiments (Granta Books, 2006); edição brasileira: O Porco Filósofo (Relume-Dumara, 2006)
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