criticanarede.com · ISSN 1749‑8457
Crítica
Amarok, de Mike Oldfield 1 de Novembro de 2002 · Música

Amarok, de Mike Oldfield
Virgin Records Ltd, 1990, 60m
Comprar

Concebido inicialmente como sequela de Ommadawn (1975) — por muitos considerado a obra-prima de Mike Oldfield — Amarok, o álbum, cedo se revelou ao seu autor uma composição que não lhe permitiria enveredar pela via pouco honesta de fazer dinheiro graças a antigos sucessos, como viria a acontecer com a saga Tubular Bells (1973, 1992, 1998...). A criatura, como acontece a maior parte das vezes durante o processo de criação, ganhou vida e vontade próprias, tornando-se outra coisa. Mais tarde, Oldfield viria a classificá-lo, talvez com um certo despeito, como «um trabalho descabelado». Amarok, contudo, é sob muitos aspectos um álbum-charneira daquilo a que se convencionou chamar música popular e, por isso, injustamente pouco conhecido.

Trata-se de um objecto musical estranho, um monstro sonoro sem interrupções que cresce e se desenvolve durante 60 minutos! Não julgue o leitor, no entanto, que se trata de um álbum enfadonho; bem pelo contrário: não existem 10 segundos nele que não contenham novidade, surpresa, um pormenor a requerer a nossa atenção. Se o critério for o da criatividade, podemos inclusive dizer que estamos na presença de um dos mais imaginativos álbuns da música popular, embora o mesmo não se reduza a este género musical. De facto, bastava este álbum para inscrever o compositor britânico no número daqueles cuja personalidade iconoclasta e colorida os levou a produzir uma «música de carácter» e a superar muitas das fronteiras estritas da música popular, (ou destas designações estanques), como sejam Frank Zappa, Simon Jeffes, Pascal Comelade, Daniel Sepe, John Zorn, Steve Vai, Tom Waits, entre outros.

Em Amarok, existe portanto o estilo inconfundível de Oldfield (um estilo que, de facto, incorpora vários: o folk, a música experimental, o rock, a música minimal repetitiva, o pop, a música infantil, a música ambiental, etc.). Porém, o músico não se limita a repetir «a fórmula». Ao realizar amiúde incursões à música étnica, por exemplo, amplia ainda mais o léxico da sua linguagem musical. Com efeito, neste trabalho, integra a complexidade rítmica da música do Leste Europeu, elementos do flamenco, da música da África do Sul (no álbum participaram tamborileiros zulu), bem como elementos da música celta (tendo contado, neste caso, como noutras ocasiões, com o contributo precioso de Paddy Maloney dos Chieftains). Não se pense, contudo, que se trata aqui de uma adesão fácil à moda do momento: recorde-se que já em 1975, em Ommadawn, Oldfield misturava tambores africanos com gaitas-de-foles e melodias arabizantes, antecipando em muitos anos a hoje chamada World Music.

Para reforçar a ideia de variedade, acrescente-se que no álbum estão presentes coisas tão diversas como escalas pentatónicas, pianissimos seguidos de inesperados fortissimos (mudanças tão bruscas que justificam um aviso humorístico de saúde na capa do disco), um flamenco tocado em ritmo de valsa rápida, um bodhran (tambor irlandês) tocado em «estilo riverdance», uma morris-dance, evocações de blues, de country, de reggae, uma mensagem em morse (pouco delicada, diga-se) para Richard Branson (o dono da editora Virgin), um discurso de uma imitadora de Margaret Thatcher... Para tal diversidade, o multi-instrumentista contou com cerca de 60 instrumentos, sendo 12 deles guitarras de diversos tipos e um grande número de instrumentos de percussão, bem como outros não convencionais como um copo de água, uma escova de dentes, colheres, uma porta, unhas, fogo-de-artifício, vidro, etc..

O resultado de uma tal abundância de instrumentos e efeitos, aliada à duração da peça, pode dar a impressão de que Oldfield cedeu uma vez mais à megalomania contraída na década de 70 — a que o viu nascer a solo —, porém, Amarok tem muito pouco em comum com a megalomania do rock sinfónico e/ou psicadélico. Não que, alguma vez, não tenha pretendido e tentado fazer o mesmo que fizeram os Yes, os Pink Floyd, os Genesis, ou os Jethro Tull, mas, ironicamente, por incapacidade — e, sobretudo, devido à obsessão de controlar todos os aspectos da composição e da gravação, acabando por fazer discos praticamente sozinho — os seus trabalhos não têm as mesmas características. Em abono da ideia de que Amarok não é um épico à maneira dos trabalhos antigos desses grupos, diga-se que esta obra em particular é em grande parte miniatural, se bem que composta por muitas miniaturas. Assim, o requisito da coerência não é aqui respeitado (como, de resto, não o é em quase nenhuma das peças do compositor). Segundo este critério, Amarok é de facto um trabalho incoerente, diletante, «descabelado». Será um fruto pós-moderno: desmesurado (uma enormidade!), mas, dado o seu carácter fragmentário, muito longe de ser um épico ou uma sinfonia. Contudo, onde uns vêem defeito outros vêem virtude...

Claro que, se o critério for o da erudição, Oldfield apresentará muitos limites. Infelizmente (?) para o jovem promissor que era em 1974, são verdadeiras ainda as palavras do seu amigo, compositor de música contemporânea e discípulo de Luigi Nono, David Bedford:

«certamente, em termos clássicos, a música de Oldfield tende a ser extremamente ingénua. [...] O compositor mais próximo na campo da música clássica em quem se poderia pensar seria alguém como Messiaen que simplesmente mantém blocos repetitivos. Portanto, nesta perspectiva, ele não tem um sentido melódico clássico, porque ele não desenvolve as suas melodias» (revista Let it Rock, Dezembro de 1974).

Porém, a música erudita nunca deixou de ser uma das referências do músico. A 5ª Sinfonia de Sibelius inspirou o seu Tubular Bells (ler artigo de The Guardian, 25/8/1995). Tem feito versões e citações de compositores como Bach, Vivaldi, Rossini, Chostakovitch, Erik Satie, Saint-Saëns. Finalmente, no caso particular de Amarok, são evidentes os ecos de Bártok e de Stravinski (uma paixão sua), sobretudo ao nível dos compassos compostos e dos ritmos irregulares. Além de que o rondó e a variação, típicas da musica erudita, são uma constante neste disco. O único elemento que ainda lhe confere alguma unidade (se se quiser insistir no critério da coerência)... Mas Oldfield não é, definitivamente, um erudito. Nem tem que o ser. Por um lado, a simplicidade não se confunde necessariamente com facilitismo (são exemplares a minúcia com que trabalha o material sonoro e a contenção do uso da guitarra — o único instrumento que considera dominar verdadeiramente — em função do todo); por outro, os conhecimentos teóricos também não são conditio sine qua non para a composição de peças de música de qualidade. Apesar do facto de o seu temperamento experimental (e por vezes interesseiro) o ter levado já às raias do ridículo, é um criativo capaz de fazer música simples mas com arte.

Não obstante os critérios que usemos para analisar a obra, maravilhemo-nos com ela ou não, Amarok é um trabalho que merece ser fruído e estudado (análises da sua estrutura em Tubular.net). Constitui um exercício invulgar de construção e de imaginação, muito acima da maior parte da música divulgada pelos mass-media. Só por isto já valeria a pena conhecê-lo; mas, se o leitor é alguém que já conhece algumas obras do músico, é conveniente dizer também que Amarok constitui uma boa síntese de alguns dos melhores momentos da produção oldfieldiana.

Apoie a Crítica fazendo uma subscrição ou clicando na publicidade. Sem o seu apoio não é possível continuar a editar a Crítica. Com o seu apoio, os tradutores podem ser pagos, o trabalho de formatar e editar a Crítica é também remunerado, e as despesas com o servidor não têm de ser suportadas pelo Director. Todas as são bem-vindas.
· Imprimir · Termos de utilização
Reproduza livremente mas, por favor, cite a fonte.
Copyright © 1997–2008 criticanarede.com · ISSN 1749-8457
Reproduza livremente mas, por favor, cite a fonte.
Termos de utilização: http://criticanarede.com/termos.html.
Copyright © 1997–2008 criticanarede.com
ISSN 1749‑8457