3 Gymnopédies & other piano works, de Erik Satie Música

3 Gymnopédies & other piano works, de Erik Satie
Pascal Rogé, piano
Decca, 1984
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S ão cada vez mais numerosas as interpretações de obras para piano de Erik Satie, principalmente das famosas Gymnopédies e das Gnossiennes. Entre elas continua a sobressair a excelente gravação de 1984 do pianista Pascal Rogé.

Tanto as Gymnopédies como as Gnossiennes foram escritas ainda no século XIX, o que não deixa de causar admiração, sobretudo se pensarmos que a sua simplicidade quase irreal e o seu despojamento musical contrastam radicalmente com a grandiosidade e a complexidade harmónica do universo musical wagneriano. Universo a que os compositores do final do século XIX se tinham vergado completamente. E até na sua duração estas pequenas peças para piano (entre 2 e 4 minutos cada) se destacam de tudo o que então se podia ouvir. São peças que soam inegavelmente a século XX e que abriram as portas a uma verdadeira revolução musical francesa que começou com Debussy.

A música de Satie foi na altura apreciada por poucos e desprezada pela maioria dos compositores e críticos musicais. Diversas fragilidades lhe costumavam ser apontadas, a mais importante das quais se referia à sua deficiente formação enquanto compositor e pianista. Dizia-se então que as suas miniaturas musicais com escalas pouco convencionais, harmonias estranhas e uma total ausência de virtuosismo instrumental eram apenas o reflexo de um compositor de fracos recursos técnicos. A verdade é que Satie tinha consciência das suas debilidades, tanto que em 1905 chegou a frequentar aulas com músicos prestigiados, abandonando por algum tempo a vida boémia a que se entregara com empenho — incluindo as sessões do Café du Chat Noir, em Montmartre, onde tocava todas as noites sob o nome de Gymnopédiste. Só que, entretanto, acabou por se desinteressar das aulas e, após cerca de 15 anos sem compor, decidiu retomar a composição e regressar à vida nocturna de Paris. Mas as suas peças continuaram a ser profundamente originais e discretamente subversivas, buscando inspiração num ambiente artístico estranho aos circuitos institucionais: os bares e cabarets que ele conhecia tão bem. A originalidade das suas peças manifestava-se também, com algum humor, nos próprios títulos que escolhia: Sonatina Burocrática; Prelúdios Flácidos (ambos incluídos neste disco e o último dos quais é dedicado a um cão); Desportos e Divertimentos; Antepenúltimos Pensamentos. Tentou ainda refutar a crítica de que as suas obras careciam de forma ao compor um conjunto de sete peças a que deu o nome de Três Peças em Forma de Pêra. Entre as obras que não se destinam ao piano, destacam-se a cantata Socrate e o ballet Parade, o qual contou com a colaboração do seu amigo Jean Cocteau e que incluía uma máquina de escrever e uma pistola no leque de instrumentos usados. Quando morreu, em 1925, consumido pela exigente vida nocturna parisiense da época, tinha já conquistado um lugar único na música francesa e a admiração de figuras como Ravel. Também o iconoclasta John Cage viria a ser um dos grandes admiradores de Satie.

Além das 3 Gymnopédies e das 6 Gnossiennes, este disco contém as já referidas Sonatine Bureaucratique e 4 Préludes Flasques, e ainda outras peças das quais destaco Je te Veux, Embryons Desséchées e Le Picadilly.

Ao ouvir as três Gymnopédies quase se pode imaginar o compositor descontraidamente encostado ao piano à espera que o acaso lhe indique as teclas a tocar. Dá a ideia que o pianista está num sereno improviso solitário, à espera que cada nota lhe sugira a nota seguinte. São peças frágeis, contidas e que até parece que conseguimos inventar se nos puserem um piano à frente. A melodia é estranhamente bela e suave, deixando que o silêncio se mostre entre cada som como se o tempo não contasse. Tudo é muito calmo, quase como um sussurro que nos convida a fechar os olhos e a escutar apenas as notas a chegar uma a uma. Debussy foi dos primeiros a admirar e a descobrir estas peças, tanto que se deu ao trabalho de orquestrar a primeira e a terceira.

As seis Gnossiennes são, tal como as Gymnopédies, pequenas peças suaves e delicadas, mas melodicamente mais diversificadas e com um forte sabor exótico conseguido por escalas pouco usuais (principalmente na N.º 1 e na N.º 4). Também as Gnossiennes parecem esboços musicais semi-improvisados, até porque Satie nem sequer incluiu barras a dividir os compassos na pauta. A Gnossienne N.º 5 é de uma suavidade e de uma beleza melódica desarmantes. Dura pouco mais de 4 minutos, mas apetece que nunca acabe.

Je te Veux é um momento de descontração musical, daqueles que Satie compunha para tocar à noite nos bares de Montmartre. O tempo é o de uma valsa, mas que em nada faz lembrar Viena. Imagina-se um ambiente informal e acolhedor, com o ruído da animação nocturna ao fundo, e não o brilho aristocrático e pomposo dos bailes vienenses.

Embryons Desséchées é a peça mais longa (6:11) de todo o disco. Tem duas partes distintas que se alternam: a primeira mais forte e rápida e a segunda mais lenta e melodiosa. Termina com veemência repetindo várias vezes o mesmo acorde. É uma peça estranha, mas com um ar já bastante moderno.

O disco termina com Le Picadilly, mais uma peça com que Satie divertia os intelectuais e pintores que se costumavam encontrar no bar onde tocava. Trata-se de um misto de vaudeville e de jazz, música que por essa altura surgira na América.

Resta falar da interpretação. Pascal Rogé toca estas peças conseguindo transmitir o desprendimento que a música de Satie sugere e nunca sente a tentação de se afirmar como protagonista. A música sai natural e tranquilamente do piano. Toda a melancolia da música de Satie se encontra em cada peça interpretada, mesmo na ligeira e despreocupada Je te Veux. Rogé é um pianista que nos oferece um Satie verdadeiramente anti-romântico, num disco com um som muito bom. Até parece que temos o pianista em casa a tocar para nós.

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