Música
The Spirit of Silence, de Yoshikazu Iwamoto
Buda Records, 56m
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Eis-nos perante um álbum capaz de objectivamente transformar. Isto é, quem se dispuser a ouvi-lo atentamente até ao fim, quem suportar o contacto com esta serenidade terrível sem fugir, ter-se-á muito provavelmente submetido a uma metamorfose profunda. Com a audição deste disco, os hábitos da percepção correm sério risco de se alterar e, por isso, pode ser mudado não só o modo como ouvimos música (a outra música), como também o próprio acto de ouvir (seja o que for, e não apenas música). Aqui, o ouvinte activo, logocêntrico, prenhe de sabedoria, é convidado ao despojamento, ao «aborto de si», para se abrir à simples realidade de «estar aberto». Neste crisol, a audição muda-se em escuta.
Obscuras, estas palavras? Seria necessário ter já escutado tal «espírito do silêncio» para que elas passassem a fazer sentido... Evite-se, no entanto, a mistificação. Três elementos muito concretos colaboram simbioticamente para a magia deste disco: o instrumento, o intérprete e os temas (neste aspecto, o livro que acompanha o CD é um documento precioso).
Estamos na presença de um álbum de um só instrumento, tocado sem qualquer amplificação ou efeito — na era das grandes produções em estúdio, este pormenor torna-se relevante. O instrumento é uma flauta japonesa que dá pelo nome de shakuhachi. Flauta de bambu, munida de quatro furos mais um, lateral. Tem um timbre muito peculiar, em nada semelhante ao das flautas ocidentais. As flautas de Rão Kyao, por exemplo, não obstante o material com que são feitas ser semelhante, nada têm em comum com esta. O shakuhachi possui uma grande riqueza tímbrica — o seu timbre é grave, melancólico e aveludado —, e produz um som amplo e profundo. Inútil é averiguar se estas características se devem à natureza do material com que é feito, se à técnica apuradíssima do intérprete, Yoshikazu Iwamoto, se aos temas interpretados. Muito dificilmente imaginaríamos o shakuhachi a tocar uma melodia rápida, alegre e ritmada. Talvez as características do instrumento não o permitam; mas, sem a perícia de um profissional — de um mestre, mais propriamente —, o instrumento nunca surtiria o efeito radical que é possível reconhecer no disco; tal como é mais que certo que sem as melodias de encanto muito próprio dos temas toda a perícia se esvaziaria em mero tecnicismo.
Para se chegar a escutar o shakuhachi, não basta não abandonar o posto de escuta, porém. É preciso despirmo-nos de todas as representações e prejuízos que tenhamos da música para flauta. Nada tem que ver com os estereótipos de Zanfir, ou das flautas dos Andes, ou mesmo com as belíssimas Sonatas para Flauta de Bach. No entanto, curiosamente e paradoxalmente, se algum correspondente quiséssemos encontrar na música ocidental seria precisamente numa das composições deste mestre barroco, composta embora para um instrumento muito distinto: nada mais nada menos do que nas suas Suites para Violoncelo (sobretudo nos movimentos lentos). Na música de Carlos Nakai, embora mais lírica, também se podem sonhar afinidades...
Quanto à música em si, é uma música «nua» (a mais despojada que conheço), mas quente; intimista, contudo simultaneamente evocativa de paisagens em que nenhuma sombra humana se vislumbra; serena, mesmo que por vezes expressando ansiedade; nocturna, sem que se resuma à melancolia. É uma música rente à respiração e ao silêncio, que evolui ao ritmo entranhas, não linearmente, com grande liberdade, dando a sensação que está a nascer no momento sem qualquer espartilho programático. Uma música que designaria como «espiritual», desde que «espiritual» não se afaste do seu sentido etimológico, ou seja, aquilo que é relativo ao sopro ou ao vento. Na verdade, é fácil, quando a escutamos, imaginar um vento suave ganhando voz, ao passar pelo bocal de uma cana de bambu. E isto sob o luar de uma grande lua cheia.
Este disco é parte integrante de uma colecção da designada Música do Mundo. Porém, parece-me que o seu conteúdo está para além do conceito de típico — muitas vezes o critério que preside as estas colecções. Não é apenas música típica, ou música popular japonesa. É-o sem dúvida, mas tal como as vozes búlgaras ou o canto de Tuva, esta música não se confina ao espaço geográfico que a deu à luz. É uma música que escapa ao estereótipo pela sua qualidade intrínseca e que mergulha as suas raízes na mais profunda tradição da reflexão sobre o humano. Um convite ao mergulho, portanto.
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