A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, de Desidério Murcho
Ensino da filosofia

Filosofia e subjectividade

Desidério Murcho

Uma das ideias erradas sobre a filosofia que dificulta o seu ensino é o mito da subjectividade. Quero falar deste mito, relacionando-o com algo de mais geral que explica a sua génese e tem por sua vez consequências também mais gerais e mais inquietantes.

A mentalidade positivista que adoptámos em Portugal vê as coisas assim: de um lado, estão as ciências e do outro está a completa subjectividade. Neste segundo lado mete-se a filosofia, a história, e tudo o que não é ciência. Este dualismo entre a ciência e as humanidades é falso, desastroso e fruto de uma incompreensão de base quer das humanidades quer da ciência.

Quem defende que a filosofia é subjectiva pensa que a ciência é o que não é e está convencido que a filosofia não é o que é. Essa pessoa pensa que a ciência é um amontoado de resultados, prontos a decorar e a aplicar, para fazer pontes e automóveis e prédios e remédios para os bicos-de-papagaio. E pensa que a filosofia não é um estudo rigoroso, objectivo e científico. E está enganada nos dois casos.

Comecemos pelo primeiro. Não podemos confundir os resultados da ciência com a ciência em si. A melhor maneira de percebermos a diferença é a seguinte. Imaginemos que na Antiguidade egípcia os nossos antepassados tinham descoberto uma espécie de Enciclopédia Galáctica, deixada em terras egípcias por alienígenas. Com base nessa Enciclopédia, os egípcios poderiam fazer pontes e automóveis e tudo o que hoje é o resultado da ciência. Diríamos, nessa circunstância, que os egípcios tinham ciência? Certamente que não. Limitaram-se a aplicar receitas cujos fundamentos desconhecem, como eu posso perfeitamente fazer um magnífico jantar sem perceber nada de culinária, seguindo apenas uma receita muito boa. O problema é pensar-se que a ciência é precisamente uma espécie de receitas, conjuntos de fórmulas “objectivas” para fazer pontes e micro-ondas. Isso não é a ciência; é apenas uma aplicação da ciência. A ciência é o que está antes disso, é a investigação fundamental que procura compreender melhor o mundo que nos rodeia. E é isso que os egípcios do nosso exemplo não têm.

Compreendo que em Portugal se possa ter esta ideia da ciência. Se me é permitida a caricatura, é como aquela criança a quem perguntamos de onde vem o leite e nos responde: “Do supermercado!” O que há de errado com esta criança é não perceber o que aconteceu antes de o leite aparecer no supermercado. O que há de errado na concepção que muitos estudantes têm da ciência é do mesmo teor. A ciência não é na sua maior parte feita em Portugal: é importada. A tecnologia não é portuguesa, e a ciência também não. Os medicamentos que compramos são quase todos de laboratórios estrangeiros, e os livros que usamos nas faculdades são também estrangeiros e esta situação dá às pessoas a ilusão de pensar que a ciência vem dos livros, tal como a criança pensa que o leite vem do supermercado. Tal como o leite, também a ciência passou por um longo processo antes de chegar aos livros que são depois copiados, repetidos, decorados e aplicados em Portugal. A ciência nasceu na cabeça dos seres humanos, nus e sós perante o universo, e sem quaisquer garantias de resultados. Mas quem se limita a consumir ciência como quem consome leite empacotado, não se apercebe disto.

Ora, quando compreendemos o modo como a ciência se faz, desfaz-se o mito de que a ciência é objectiva e a filosofia subjectiva. Em ambos os casos temos actividades humanas que procuram ir além dos nossos preconceitos e limitações, e em ambos os casos temos sucessos e falhanços. A verdadeira diferença entre a filosofia e a ciência é apenas esta: a ciência produz muitos mais resultados consensuais do que a filosofia. Mas quando estamos nas fronteiras do conhecimento, seja na ciência ou na filosofia, estamos sempre na mesma situação: somos seres humanos razoavelmente inteligentes que procuram dar o seu melhor e não têm quaisquer garantias. Quando estamos a desenvolver teorias sobre o início do universo não podemos sentar-nos, decorar meia dúzia de fórmulas, e resolver o problema. Não! Tal como na filosofia, temos de nos confrontar com muitas teorias diferentes e contraditórias, entre as quais não é fácil decidir. O que engrandece a humanidade é haver pessoas que insistem em tentar, quando muitas outras teriam logo desistido por ser tudo “muito subjectivo”.

O que me assusta na ideia que os estudantes fazem da filosofia e da ciência é o alheamento que isto revela e a falta de preparação para enfrentar os desafios humanos mais básicos. Quem pensa que onde há disputa tudo é subjectivo não está preparado para entrar na discussão de ideias que faz avançar o conhecimento e é vítima da ideia infantil de que o leite vem do supermercado — ou seja, que o conhecimento está todo feito e escrito algures. Era bom que os professores preparassem os nossos estudantes não para consumidores e aplicadores acéfalos do conhecimento importado por atacado, mas em participantes de igual direito na comunidade internacional que discute ideias contraditórias e teorias rivais — que é de onde verdadeiramente vem o leite.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Excerto retirado do livro A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, de Desidério Murcho (Plátano, 2002).
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