Filosofia: Novas Respostas para Antigas Questões
24 de Junho de 2011 ⋅ Filosofia

Novas respostas para velhas perguntas

Nicholas Fearn

Filosofia: Novas Respostas para Antigas Questões, de Nicholas Fearn
Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges
Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2007, pp. 216.
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“Todos os interesses de minha razão, tanto especulativos quanto práticos, combinam-se nas três seguintes questões: 1) Que posso saber? 2) Que devo fazer? 3) Que posso esperar?”
Immanuel Kant

“Sobre qualquer assunto, há sempre espaço para palavras que não sejam as últimas. Na verdade, a maneira habitual de apresentar obras filosóficas me desconcerta. As obras de filosofia são escritas como se seus autores acreditassem serem elas a palavra absolutamente final sobre o assunto.”
Robert Nozick

Os grandes filósofos, como Aristóteles, Immanuel Kant e Ludwig Wittgenstein, conquistaram seu estatuto porque preferiram revolução a evolução. Preferiram introduzir novas idéias e sistemas a trabalhar com os materiais de seus predecessores. O resultado foi que por mais de dois mil e quinhentos anos de filosofia, sucessivos pensadores cobriram a tela dos seus objetos de estudo com tantas pinceladas que não restou qualquer imagem discernível. Só recentemente uma restauração começou a produzir resultados. Camadas foram removidas, e limpezas mais ingênuas, rejeitadas. Velhas impressões foram reveladas à medida que as idéias de antigos pensadores ganharam novos meios de exercer influência; tintas contemporâneas renovaram as linhas mais fortes. Isso se tornou possível graças a novas técnicas na análise de argumentações, novas idéias para pô-las à prova e nova matéria-prima fornecida pelas ciências.

Estamos no momento ideal para fazer uma auditoria da filosofia ocidental. Este livro avalia o estado atual da arte filosófica, fazendo um exame geral do que foi realizado nos últimos anos nas áreas mais candentemente controversas e considerando as mais recentes abordagens sobre problemas enfrentados pela primeira vez na Antigüidade. Para completar minha auditoria, decidi consultar um grupo representativo dos principais participantes nos debates nucleares de várias partes do mundo. Meu trabalho acabou sendo facilitado pela concentração da maior parte das mais excelentes mentes filosóficas em um único — embora grande — lugar, os Estados Unidos. Foi complicado pela idade avançada dos entrevistados, muitos dos quais, inclusive Robert Nozick e W. V. O. Quine, morreram antes que eu conseguisse chegar a vê-los. A maioria dos que sobreviveram mostrou-se receptiva, alguns mais que outros. Vários, como David Chalmers, Jerry Fodor e Colin McGinn, receberam-me cordialmente em suas casas, ao passo que outros, como Thomas Nagel e Alasdair MacIntyre, estavam tão desconfiados de jornalistas que se recusaram a falar comigo. Daniel Dennett e Tyler Burge concordaram gentilmente em me dar segundas tentativas e responder a perguntas extras, ao passo que Jacques Derrida me telefonou antes do amanhecer para se recusar a ajudar, quando eu não estava em condições de discutir.

No fim das contas, consegui entrevistar mais de trinta dos mais destacados pensadores do mundo. Após os primeiros encontros, percebi que a conversa tomava quase sempre a mesma direção. Em primeiro lugar eles me informavam que, infelizmente, houvera pouco progresso no entendimento filosófico durante seu tempo de vida. Em seguida encetavam uma longa exposição que provava o contrário. Parece que o filósofo contemporâneo típico é acima de tudo modesto. A filosofia sempre se ressentiu de expectativas excessivas, mas, se é imprudente declarar uma solução definitiva para qualquer problema filosófico, é igualmente temerário rejeitar tudo que não chegue a tanto como desprovido de valor.

Durante os últimos cinqüenta anos, a revolução caiu de moda no mundo filosófico. As respostas tenderam a vir em tamanhos menores do que as do passado — assim como os pensadores que as proferem, acrescentariam os sarcásticos. Mesmo os sarcásticos, porém, admitiriam que a competência técnica é elevada como nunca. Hoje, um aluno de graduação em filosofia que se preze seria capaz de se sair razoavelmente bem num debate com qualquer pensador ilustre da Antigüidade. Há menos gurus, menos gigantes, mas maior divisão do trabalho num campo cada vez mais fragmentado e especializado. Aparentemente, há menos concordância entre essas diversas escolas, mas o consenso é muitas vezes mais forte do que parece, pois uma vez que um campo tenha sido mais ou menos solucionado, os que continuam trabalhando nele tendem a ser os excêntricos. Por exemplo, embora grande parte dos cientistas esteja convencida de que extraterrestres não estiveram visitando a Terra em discos voadores recentemente, uma revisão da bibliografia especializada sobre “seqüestro por extraterrestres” mostra que quase todos os chamados “especialistas” acreditam firmemente em óvnis e homenzinhos verdes. Isso ocorre porque a maioria dos cientistas tem coisas melhores a fazer que tratar de questões já resolvidas com razoável grau de certeza.

A filosofia entrou numa era pós-heróica. Os filósofos contemporâneos esperam fazer a nossa compreensão aumentar por acréscimos mínimos, à medida que constroem sobre uma realização partilhada — o trabalho de mais de vinte e seis mil profissionais no mundo todo, segundo o Centro de Documentação Filosófica —, iluminada pelo mais recente trabalho no resto das humanidades e nas ciências. O papel do gênio diminuiu, talvez porque tenham sido escassos nos últimos anos, talvez porque se leva muito tempo para reconhecê-los como tal, mas mais provavelmente porque a disciplina aprendeu com os seus erros imperialistas. Um desses erros é ir além das próprias possibilidades. No início do século XIX, o filósofo alemão Georg Hegel usou seu sistema filosófico para prever que só poderia haver sete planetas no sistema solar. Hoje, espera-se, os filósofos têm uma idéia melhor do que pode e do que não pode ser resolvido mediante raciocínio lógico. Tampouco consideram necessário virar sua disciplina de cabeça para baixo a fim de resolver problemas filosóficos. Não há necessidade de revolução quando um progresso constante, permanente, já está sendo feito.

Os filósofos de hoje rememoram pelo menos cinco grandes revoluções nas idéias. A primeira foi o nascimento da razão como um instrumento para desvendar a verdade nos séculos V e VI a.C., que chega até nós através das obras sobreviventes dos filósofos pré-socráticos e dos diálogos de Platão. Fundando-se nas idéias de seu mestre, Sócrates, Platão sustentou que nossas idéias são corretas ou errôneas na medida em que correspondem às “Formas” sobrenaturais da Beleza, da Bondade, da Coragem e assim por diante. Platão afirmava que esses modelos eram objetos em si mesmos — mais reais, de fato, que os objetos que encontramos no mundo físico, porque eram perfeitos, puros, eternos e imutáveis. Sustentou que, empregando a razão de maneira apropriada, poderíamos chegar a ver essas verdades e alcançar o conhecimento genuíno com que substituir a mera “opinião” que em geral nos satisfaz. O único limite era o material com que tínhamos de trabalhar — pois o mundo físico contém apenas cópias das verdades eternas.

No século XVIII, em Königsberg, a segunda grande revolução foi levada a cabo quando Immanuel Kant transferiu a ênfase para o sujeito humano. Tudo que vemos e ouvimos, tudo que a mente apreende, tem, pensava ele, de ser moldado pelos sentidos e o intelecto para nossa compreensão. Nunca podemos contemplar a natureza intrínseca das coisas, como sonhava Platão. Só o que podemos conhecer algum dia é uma versão antrópica de Deus, da Virtude e da Beleza. Na formulação de Kant, quanto mais conhecemos as capacidades de nossas próprias mentes, mais nos aproximamos do verdadeiro conhecimento. Só podemos compreender os limites de nosso mundo examinando os limites do pensamento humano.

A terceira grande revolução ocorreu mais ou menos na mesma época, na Grã-Bretanha. John Locke e David Hume haviam aplicado a metodologia científica de seu predecessor do século XVII, Francis Bacon, elaborando um sistema filosófico conhecido como “empirismo”. Segundo os empiristas, só podíamos conhecer o que estava no âmbito de nossa experiência. A razão por si mesma não era capaz de descobrir nada de novo, mas meramente de rearticular o conhecimento já fornecido pelos sentidos.

No século XIX, mais uma revolução ocorreu quando o pensador alemão Georg Hegel iniciou o estudo do que o Homem pode vir a ser, em vez do que simplesmente é, citando as forças históricas que superam a razão na criação de novas idéias e modos de vida. Sua “dialética” acompanha o choque de movimentos opostos para mapear “o progresso na consciência da liberdade”, e ele definiu o estado que encarnava esse desenvolvimento como “a marcha de Deus pelo mundo”. Ali onde Hegel atacou a razão a partir de cima, seu compatriota Friedrich Nietzsche solapou-a com um apelo ao motivo. Afirmou que os valores são transformados em verdade pela “Vontade de Poder” dos indivíduos, não por qualquer recurso a fatos e observação. De um golpe, Nietzsche forneceu as bases para a antifilosofia conhecida como “pós-modernismo”, que continua tão apreciada nos departamentos de humanidades.

No início do século XX, os limites se estreitaram quando filósofos como o austríaco Ludwig Wittgenstein criaram uma quinta revolução, propondo que os limites do pensamento eram delineados pelos limites da linguagem em que era conduzido. Os padrões para a avaliação da verdade não residiam nem no céu nem nos confins da mente, mas na gramática da prática pública. Quando imaginavam estar examinando a natureza das coisas, os filósofos estavam apenas, afirmaram Wittgenstein e seus seguidores, retirando palavras de seu contexto. Os objetos de estudo apropriados eram, para Platão, entidades semidivinas e, para Kant, as estruturas da consciência. Agora, filósofos “analíticos” limitavam-se a analisar os grunhidos e as sacudidelas físicas que os seres humanos usam para se comunicar. Por prazer, podiam perseguir e eliminar vestígios de pensamento metafísico e declarar problemas “ dissolvidos”. Por exemplo, o filósofo inglês Gilbert Ryle afirmou que a questão de onde localizar o eu consciente era um “erro categorial” do tipo cometido por alguém que visita os colégios de Oxford e pergunta onde fica a “universidade”, ou contempla uma procissão de batalhões e regimentos e pergunta quando o “exército” vai desfilar.

Hoje os filósofos ocidentais estão imbuídos de todas essas mudanças, mas uma em particular arrebatou sua imaginação nos últimos anos: a promessa empirista de uma filosofia “científica”. Bertrand Russell comparou certa vez os ramos do conhecimento humano com um arquivo, em que o material discutido pelos filósofos encontrava-se no compartimento rotulado “Não Sei”. Depois que descobrimos o bastante sobre determinado assunto para abordar suas questões de maneira sistemática, os conteúdos são removidos para um novo compartimento com outro título, seja “Física”, “Psicologia” ou “Economia”. Essa é uma descrição razoável da história da filosofia, que resultou periodicamente em novas disciplinas, novas ciências. Ela explica também a ilusão de que a filosofia nunca conclui coisa alguma. Os filósofos nunca obtêm reconhecimento por seus sucessos, pois assim que fazem um progresso real sobre um problema, este é retirado de suas mãos e entregue a novos guardiões. Sir Isaac Newton escreveu os Principia como filósofo, assim como Adam Smith A Riqueza das Nações, mas hoje são lembrados como físico e economista, respectivamente. O pensador contemporâneo Noam Chomsky é descrito ao mesmo tempo como filósofo e fundador da lingüística, mas a primeira metade de seu título será um dia abandonada pelas enciclopédias.

Esse destino conduziu à proposta recente de que, como a filosofia parece ter sucesso ali onde dá origem a novas ciências, toda a disciplina deveria ser transformada numa ciência. Essa crença no “cientificismo” é como a do garotinho que pergunta ao pai por que, se os soldados do Special Air Service são tão implacáveis, os generais não transformam o exército inteiro num grande SAS. Nem o conhecimento nem os exércitos funcionam dessa maneira. Pedir que o pensamento seja conduzido sempre e unicamente de acordo com princípios científicos rigorosos significaria que alguns assuntos — aqueles sobre os quais menos sabemos — nunca seriam tratados e nenhuma nova disciplina se desenvolveria. O que está em questão, no entanto, é mais do que a melhor maneira de cultivar idéias, uma vez que isso pressupõe que o destino de todo método de investigação útil é se tornar científico. A diferença entre filosofia e ciência é muitas vezes mais uma questão de tempo que de assunto. Por vezes a filosofia termina em ciência. Muito ocasionalmente, ela resolve um problema sem gerar uma nova disciplina, e, por vezes, isso ocorre porque o problema foi dissolvido, e não resolvido. Os capítulos a seguir contêm uma mistura desses resultados.

Alguns pensadores contemporâneos consideram as asserções da física e da biologia uma invasão indesejável de seu território e zombam da “inveja da ciência” de seus colegas que permanecem junto às portas dos laboratórios, prontos para publicar rapidamente as repercussões filosóficas da mais recente descoberta. Há uma crença generalizada de que somente a filosofia, entre as artes e ciências, deve ser democrática. Enquanto poucos de nós temos teorias sobre a dinâmica dos fluidos ou temos a pretensão de escrever como Hemingway, é comum a crença de que qualquer um pode apreender conhecimentos filosóficos. Aliás, não se supõe apenas que qualquer um pode ser dotado desse modo, mas que qualquer um em qualquer tempo no passado desfrutou das mesmas vantagens. Supõe-se que o mundo, que mostra tão pouca justiça em relação a todas as outras coisas, é inerentemente justo e eqüitativo quando está em jogo o conhecimento e a compreensão das verdades mais profundas. Imagina-se que respostas podem ser colhidas por qualquer um, como maçãs. Isso já se provou ilusório. Algumas verdades encontram-se a fácil alcance, nos ramos mais baixos, mas outras provaram-se inatingíveis sem a invenção das escadas. Embora seja cruel imaginar os filósofos de gerações passadas — que muitas vezes foram grandes gênios — trabalhando suas vidas inteiras sem esperança de algum dia topar com a verdade, foi exatamente isso que muitos deles fizeram. Talvez esses pensadores produzissem teorias defeituosas e raciocínios inconclusivos porque não pensavam com suficiente rigor ou cuidado. Mas o problema é mais simples: eles não tinham o equipamento certo para encontrar o que buscavam, porque este simplesmente não existia.

Esse equipamento assume muitas formas: um gênero especial de raciocínio ou um instrumento lógico, um auxiliar mecânico como um scanner cerebral ou uma fotografia da Terra tirada do espaço. Por melhor que seja nossa visão, nunca iríamos compreender as estrelas ou entender que aqueles pontinhos de luz no céu noturno eram o que hoje sabemos ser estrelas, apertando os olhos para melhor enxergá-los. O telescópio, por outro lado, permitiu até aos que têm vista relativamente ruim contemplar os planetas. Não há dúvida de que muitos problemas são insolúveis hoje porque não dispomos do equipamento que talvez se torne disponível para nossos descendentes. O que importa na descoberta da verdade não é tanto a ciência, mas a tecnologia, de uma forma ou de outra. Parte da razão dos fracassos anteriores da filosofia é a mesma do fracasso das primeiras máquinas voadoras e dos primeiros esforços para curar doenças: os meios não existiam. Embora a filosofia pareça estar acima de questões de fatos empíricos, grande parte dela depende deles, e nem todas as soluções são igualmente acessíveis para todos os povos em todos os momentos, muito menos para todos os indivíduos. Isso deveria ser uma causa de alívio, pois demonstra que nossas indagações dizem respeito a verdades que são independentes da mente, em contraposição a uma contemplação de nossos próprios umbigos.

A esperança para uma filosofia “democrática” provém também do antigo ideal grego da Verdade como matemática em sua forma. As verdades da filosofia deviam imitar as verdades dos números, sendo deriváveis a partir de princípios básicos. Isso era natural para o que seriam supostamente verdades necessárias. Mas parece que as verdades filosóficas, até onde podemos falar a seu respeito, podem ser acidentais, escritas nas areias e não nas estrelas. Por esse parâmetro, a história da filosofia sempre foi um registro de enganos. À medida que a disciplina gera novas ciências, essas crias se mostram mais à vontade que a mãe com a arbitrariedade das leis que governam suas descobertas. Cada uma deixa uma lacuna num útero que não se fecha com o nascimento da criança.

Embora uma nova ciência possa resolver os problemas que a precederam quando filósofos faziam todo o trabalho, sempre pareceu haver alguma coisa faltando, como se a solução não fosse bem o que se pretendia, ou não servisse exatamente para o problema em questão. Estudar os resultados pode ser como perceber o truque de um mágico. “Você escondeu a carta na manga — isso não é mágica de verdade!” Uma área da filosofia que foi particularmente arruinada por esse pensamento é a que trata do que constitui a ação moral. O filósofo inglês G. E. Moore foi levado a considerar a moralidade uma propriedade não passível de análise pelo que chamou de “Falácia Naturalista”. Ele observou que tão logo identificamos um motivo para determinado ato — mesmo um ato supostamente ético —, ele deixa de ser moral. “Você a ajudou por prazer (ou caridade, ou dever, ou seja o que for) — a moralidade nada tem a ver com isso!” Se essas são as nossas expectativas, não surpreende que sejam frustradas.

Procuramos respostas filosóficas para problemas filosóficos, mas essas respostas podem não ser condizentes com o tom da questão se o objetivo for eliminar um mistério. O sentido de drama que acompanha a perplexidade geralmente se evapora com a resolução. Isso repele indivíduos atraídos pela filosofia como uma forma de escapismo mais adulta que histórias de fantasmas, duendes e óvnis. Teriam as pirâmides sido construídas por extraterrestres? Não, mas os computadores poderiam ser capazes de pensar. Para alguns, as obras de filósofos como Hilary Putnam, Richard Rorty e Daniel Dennett são uma progressão natural a partir de Eram os Deuses Astronautas?, de Erik von Daniken. Os que chegam à filosofia por via de uma desilusão com a religião podem ver-se ainda mais decepcionados. Mas caso se queixem de que as soluções fornecidas por seu novo campo carecem da segurança das antigas — como, por exemplo, que sem Deus não há, em última análise, qualquer sentido na moralidade —, temos o direito de perguntar como exatamente se supõe que temos moralidade com Deus.

Outra rota comum de abordagem à disciplina, partilhada por Wittgenstein e Gottfried Leibniz, entre outros, foram os estudos matemáticos. Esse pano de fundo pode preparar-nos melhor para aceitar as recompensas peculiares da pesquisa filosófica e partilhar a atitude expressa pelo físico Richard Feynman:

“Tenho um amigo que é artista, e às vezes ele adota um ponto de vista com que não estou muito de acordo. Ele segura uma flor e diz: “Veja como é bela”, e eu concordo. Então ele diz: “Sabe, eu como artista posso ver como ela é bela, mas você, como cientista, desmembra todas as coisas, e elas se tornam algo sem encanto.” A meu ver, ele é meio biruta. Para começar, a beleza que ele vê está disponível para outras pessoas e para mim também, acredito, ainda que eu possa não ser tão refinado esteticamente como ele. Posso apreciar a beleza de uma flor, e ao mesmo tempo vejo muito mais na flor que ele. Posso imaginar as células nela, as ações complexas em que também há beleza. Não há beleza apenas nessa dimensão de um centímetro: há beleza também numa dimensão menor, na estrutura interna... também nos processos. O fato de que as cores na flor evoluíram de modo a atrair insetos para polinizá-la é interessante — significa que insetos podem ver a cor. Isso acrescenta uma questão — esse senso estético existe também nas formas inferiores? Ou por que ele é estético? Há todo o tipo de questões interessantes que um conhecimento de ciência só acrescenta ao enlevo, ao mistério e ao deslumbramento de uma flor.”

Os que não partilham da atitude de Feynman são nostálgicos não do poder explanatório de respostas religiosas desacreditadas (pois muitas vezes elas não tinham esse poder), mas de uma suposta experiência mística que seria capaz de reduzi-los ao silêncio. Ao atrair o público, o problema real da filosofia contemporânea não é uma inveja da ciência, mas uma fome de magia.

Nicholas Fearn

Índice

Prefácio

Parte I: Quem Sou?

  1. O problema do eu
  2. Livre arbítrio e destino
  3. Mentes e máquinas
  4. Corpos e almas

Parte II: Que Sei?

  1. O problema do conhecimento
  2. O problema do significado
  3. Idéias inatas
  4. A linguagem do pensamento
  5. Pós-modernismo e pragmatismo
  6. Os limites da compreensão

Parte III: Que Devo Fazer?

  1. Sorte moral
  2. O círculo em expansão
  3. O significado da vida e da morte

Notas
Índice remissivo
Agradecimentos

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