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8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Ocultismo

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Há um factor histórico pouco conhecido que alimenta talvez todos os géneros de ocultismos ou tradições sapienciais, algo secretistas ou conspiratórias: numerologia, astrologia, criacionismo, ovnilogia, New Age, homeopatia, etc. Há evidentemente factores psicológicos que fazem estas patranhas ficar implantadas no cérebro de pessoas adultas, mas estes são mais amplamente divulgados: as pessoas tendem a aceitar ideias agradáveis ou confortáveis, por serem agradáveis ou confortáveis, e não se dão ao incómodo de tentar saber se são verdadeiras. Além de isso dar trabalho, ameaça pôr a nu uma fantasia saborosa e lá se vai uma parte do apoio psicológico que estas pessoas recebem de tais fantasias. Daí que seja sempre mais judicioso cravar firmemente na realidade as estacas dos nossos apoios psicológicos do que na esperança de que a realidade acabe por ser exactamente como daria imenso jeito que fosse.

O factor histórico, contudo, é menos conhecido e relaciona-se de perto com dois aspectos cruciais: o controlo do pensamento por parte de instituições políticas e religiosas, e o retrocesso civilizacional que a Europa atravessou durante mais de mil anos, depois da queda do Império Romano. James Gleick, na sua excelente pequena biografia de Isaac Newton (1642-1727), fala-nos das práticas ocultistas e alquímicas deste grande físico e matemático. Newton estava convencido de duas coisas: que os antigos já sabiam tudo (assim, as suas próprias descobertas eram apenas redescobertas); e que esse conhecimento primevo tinha sido ou perdido ou escondido pelas autoridades.

No contexto histórico em que Newton se encontrava estas crenças não eram muito destrambelhadas. Os conhecimentos científicos, filosóficos e artísticos gregos e romanos eram superiores aos da Europa dos séculos IV, V, VI e por aí em diante praticamente até aos séculos XVII e XVIII. Além disso, mesmo nesta altura, o conhecimento era cuidadosamente vigiado pelas igrejas cristãs e pelos estados europeus. Os manuscritos que sobreviviam nas bibliotecas mais antigas eram as mais das vezes exemplares únicos, por vezes nem sequer catalogados e não eram lidos há séculos. A probabilidade de uma pessoa se perder numa biblioteca dessas e descobrir um manuscrito com descobertas físicas ou astronómicas fundamentais não era negligenciável. E era ainda mais provável que, caso tal conhecimento não caísse no goto dos padres e dos políticos, essa pessoa fosse morta ou silenciada de outro modo.

Em tal contexto, o ocultismo não era disparatado. Hoje, contudo, não passa de desassiso. Apesar de o controlo político e religioso da investigação e do ensino ser infelizmente cada vez mais forte e assustador, há ainda muitas ilhas de liberdade intelectual. Ironicamente, estas ilhas não se encontram entre os praticantes do ocultismo, que não admitem a discussão crítica das suas crenças mais queridas. Tivessem estas pessoas perante o ocultismo um terço da saudável atitude crítica que têm perante a racionalidade e a ciência, e o mundo seria menos tolo do que infelizmente é.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (27 de Maio de 2008)
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