8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

O Outro

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

No dia 7 de Novembro de 1948, Orwell publicou em The Observer uma recensão do livro Retrato do Anti-Semita, de Jean-Paul Sartre, comentando com perspicácia que a linguagem do filósofo, em que fala constantemente de O Judeu, trai precisamente o tipo de mentalidade que supostamente devia estar a combater: a ideia de que os seres humanos podem ser classificados mais ou menos como insectos, o que nos impede de ver pessoas diferentes umas das outras, para passar a vê-las apenas como anúncios da etnia ou raça ou religião ou nacionalidade a que supostamente pertencem. O multiculturalismo contemporâneo é mais um passo na mesma direcção desumanizadora: um cigano ou um negro ou um árabe não é visto como uma pessoa como as outras, com as suas diferenças e idiossincrasias, mas meramente como um anúncio da sua etnia ou nacionalidade ou cor da pele. Este racismo pós-modernaço e de consciência tranquila é pior do que o racismo de antigamente porque não parece racismo, e como tal não parece valer a pena combatê-lo.

Mas vale a pena. É uma vergonha deixar de ver pessoas para passar a ver anúncios de tolices sociais. Um cigano ou um negro ou um branco não é um anúncio da etnia cigana ou negra ou caucasiana. Uma parte importante dos males da humanidade resulta precisamente destas identificações tolas com mentalidades genéricas, pois sem isso dificilmente uma pessoa medianamente boa conseguiria matar ou torturar outro ser humano em boa consciência. É com certeza possível matar, escravizar ou torturar outros seres humanos por mera maldade ou egoísmo, mas para uma pessoa medianamente boa ser capaz de fazer estas coisas em boa consciência tem de ser capaz de deixar de ver a pessoa que está à sua frente como pessoa e passar a vê-la como um anúncio de uma etnia ou religião ou nacionalidade ou algo do género. É urgente combater esta concepção racista dos seres humanos para que se consiga olhar para as pessoas e ver pessoas. A defesa multiculturalista do respeito pelas etnias ou religiões ou coisas do género é um efeito da velha incapacidade humana para ver outras pessoas como pessoas quando são ligeiramente diferentes.

Actualmente, a moda de falar de "O Outro" trai esta incapacidade para ver as pessoas como pessoas. Não há O Outro. Isto é um veneno mental que obriga a ver as outras pessoas como anúncios abstractos da alteridade e não como pessoas. Cada ser humano é singular, e a singularidade de cada um entrelaça-se de um modo peculiar com os aspectos universais a que todos temos acesso como seres parcialmente racionais. A mania denunciada por Orwell de classificar os seres humanos como quem classifica insectos é um dos defeitos da humanidade. Talvez não possamos livrar-nos disso tão cedo, mas podemos pelo menos dar alguns passos nessa direcção, reconhecendo que qualquer ser humano, seja qual for a sua origem, tem o direito de aceitar ou rejeitar a mentalidade do seu grupo social, étnico, religioso ou nacional e, mesmo que a aceite, não é um mero anúncio dessa mentalidade.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (11 de Novembro de 2008)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte