7 de Novembro de 2009   Filosofia da ciência

A origem da Origem

Michael Ruse
Tradução de Vítor Guerreiro
A Origem das Espécies
de Charles Darwin
Tradução de Vítor Guerreiro
Prefácio de Michael Ruse
Lisboa: Guimarães, 2009, 412 pp.

Charles Robert Darwin nasceu em 1809. O seu grande livro, Sobre a Origem das Espécies por Meio de Selecção Natural, ou a Preservação das Variedades Favorecidas na Luta pela Existência foi publicado em 1859, quando o seu autor tinha cinquenta anos de idade. Darwin viveria ainda vinte e cinco anos, morrendo em 1882, quando a Origem tivera já seis edições e fora consideravelmente revista e rescrita. Por norma, a sexta edição, de 1872, era a mais frequentemente reproduzida, mas mais recentemente os estudiosos têm insistido que é a primeira edição a realmente importante — vemos o pensamento de Darwin na sua forma original. As questões que coloco nesta introdução são acerca da génese da Origem e a sua natureza — a sua estrutura e conteúdo. Embora não pense que a Origem é um livro particularmente misterioso, creio que há nele aspectos que não são tão óbvios como hoje em dia é frequente pressupormos que são.

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O caminho para a descoberta

Aluno mediano, Darwin foi primeiro para a Universidade de Edimburgo estudar medicina e mais tarde (depois de ter ficado claro não ser isso o que lhe agradava) para a Universidade de Cambridge, preparar-se para a vida de clérigo anglicano. Sabemos hoje que embora Darwin não tivesse qualquer formação convencional como biólogo, quando obteve o grau académico (em 1831) não só mostrava aptidão para a ciência como tinha também um vasto conhecimento no estudo e investigação empíricos. Desde a infância que Charles e o seu irmão mais velho, Erasmus, se divertiam com ideias e experiências em química, e nas duas universidades que frequentou Darwin envolveu-se nos grupos activos de naturalistas e investigadores empíricos. No final de 1831, Darwin juntou-se à tripulação do H.M.S. Beagle, que se preparava para iniciar o que veio a ser uma viagem de cinco anos a cartografar o litoral sul-americano, prosseguindo então numa volta ao mundo antes de regressar a casa. No começo da viagem, Darwin acompanhava o capitão, Robert Fitzroy, como cavalheiro, mas em breve se tornou de facto o naturalista de bordo, função para cujo desempenho as suas anteriores actividades científicas e formação lhe foram muito úteis. Os cadernos de apontamentos que manteve mostram desde o início a sua seriedade e competência.

O tempo que passou a bordo do Beagle foi importante por muitas razões, sobretudo porque, longe dos seus mentores de Cambridge, Darwin foi obrigado a pensar pela própria cabeça. Isto foi particularmente evidente na geologia, a ciência mais importante para ele nestes primeiros anos. Darwin entusiasmou-se com o pensamento uniformitarista de Charles Lyell, cuja obra Principles of Geology (1830-1833) rompeu com o catastrofismo de autores como Adam Sedgwick, professor de geologia em Cambridge e um homem que aceitara Darwin num curso intensivo em Gales, no Verão de 1831. Isto significa que Darwin se aproximou de uma visão do mundo em termos de movimento constante, moldado pelas mesmas causas (chuva, vento, neve, gelo, terramotos, vulcões, etc.) actuando com o mesmo grau de intensidade, em vez da visão de um mundo estável, perturbado por sublevações violentas, possivelmente de origem não natural. No que se refere à religião, a viagem foi importante porque o teísmo cristão um tanto literalista de Darwin começou a esbater-se e tornou-se de certa maneira num deísta — o que significa que passou de um mundo no qual por vezes Deus intervém milagrosamente para a crença em Deus como motor imóvel e que o maior sinal dos Seus poderes era o funcionamento da lei sem excepções. Sem dúvida, esta mudança de ânimo fez parte de uma decisão de abandonar os planos para uma vida eclesiástica. Não houve uma decisão formal acerca da mudança da carreira pretendida, mas à medida que os anos passaram e Darwin se empenhava cada vez mais na sua ciência, as outras opções simplesmente esbateram-se e morreram. A família Darwin era muito rica — o avô materno de Darwin era o ceramista Josiah Wedgwood, e Charles tornou-se ainda mais rico quando casou com a prima direita, Emma Wedgwood, em 1839. Não tinha necessidade de um emprego remunerado.

No final da viagem do Beagle, talvez por pensar agora em Deus como alguém cuja grandeza se manifestava na continuidade da lei e não em milagres, Darwin iniciou o seu percurso até à evolução. É de consenso geral que Darwin (que conhecia ideias evolucionistas através da leitura de Zoonomia, um livro favorável à evolução, que pertencia ao seu avô, Erasmus Darwin, bem como de encontros em Edimburgo com o futuro professor de anatomia londrino, Robert Grant, e pela discussão que Lyell fez acerca do pensamento do biólogo francês, Jean Baptiste de Lamarck) não se tornou efectivamente um evolucionista durante a viagem. Mas a experiência que teve de diferentes répteis e aves no Arquipélago das Galápagos impressionou-o. Como poderia haver formas diferentes mas similares em ilhas separadas por poucas milhas de distância? Quando, ao regressar a Inglaterra, Darwin soube que as aves pertenciam indubitavelmente a espécies diferentes, isto foi suficiente para o fazer mudar de ideias. Na Primavera de 1837, Charles Darwin passou para o transmutacionismo.

Num período de dezoito meses, até final de Setembro de 1838, Darwin trabalhou arduamente à procura de uma causa da evolução. Suspeita-se que o que motivou Darwin terá sido o ideal de Newton — muito admirado pelos gurus da metodologia científica desse tempo. Queria encontrar para a evolução uma força análoga à força newtoniana da atracção gravitacional. Rapidamente Darwin se apercebeu de que a chave da mudança é a selecção de organismos desejáveis e a rejeição dos que não são conformes ao padrão. Aprendeu isto com os criadores de animais e plantas do seu tempo, pessoas que trabalhavam arduamente para aperfeiçoar a agricultura e torná-la mais eficiente — uma exigência que decorria da revolução industrial, o que significava que as pessoas abandonavam a terra e passavam para as fábricas nas cidades, deixando para trás muito menos pessoas para alimentar muitas mais. Darwin começou com a selecção artificial; depois procurou um equivalente natural. Encontrou-o no fim de Setembro de 1838, depois de ler uma edição tardia (publicada em 1826) do Ensaio sobre o Princípio da População, de Thomas Robert Malthus, uma obra onde se sublinha que as pressões demográficas ultrapassam as reservas de alimentos e o espaço disponíveis e que daí decorrerão lutas pela existência. Generalizando dos seres humanos para todos os seres vivos, Darwin argumentou que nascem mais organismos do que aqueles que podem sobreviver e reproduzir-se. Os que o conseguem serão em média diferentes dos que não o conseguem. E estas diferenças — pelagens mais densas, pernas mais fortes, visão mais nítida — é que são cruciais. Dado o tempo suficiente, haverá uma mudança geral — descendência com modificação (aquilo a que chamamos “evolução”). Além disso, isto acontecerá no sentido da vantagem adaptativa. As pelagens mais densas mantêm as ovelhas quentes; pernas mais fortes permitem ao lobo apanhar o veado; uma visão mais nítida significa que a águia pode localizar o coelho.

Darwin não redigiu de imediato as coisas de uma maneira formal. Na sua Autobiografia e noutros escritos Darwin referiu-se a 1839 como o ano em que primeiro concebeu a sua teoria das espécies, o que pode muito bem ser verdade; embora os apontamentos sobre a inteligência humana que escreveu no final de 1838 mostrem que já nessa altura se apercebera do poder da selecção natural. Não obstante, decorreriam ainda quatro anos antes de (em 1842) redigir efectivamente o que seria um Esboço (como hoje lhe chamamos) a lápis das suas ideias, com 35 páginas. Este foi então ampliado em 1844 para um Ensaio de 230 páginas, do qual Darwin incumbiu o mestre-escola local de fazer uma cópia a limpo.

A grande demora

Darwin deixou então as coisas em suspenso e, tendo escrito à esposa para lhe pedir que, na eventualidade da sua morte, esta se certificasse de que o Ensaio seria publicado por um biólogo competente, passou para um estudo intensivo de oito anos sobre os perceves. Foi só cerca de 1854 que Darwin regressou à sua teoria evolucionista. É evidente que, por esta altura, começava a circular a ideia de que Darwin era um evolucionista — e ele tinha o hábito de mostrar excertos dos seus escritos a alguns dos jovens que o rodeavam e que ele encorajava. Os seus amigos insistiam para que voltasse ao trabalho e o tornasse público, para evitar que se lhe antecipassem. Darwin começou portanto a escrever um livro enorme acerca da sua teoria. Foi interrompido pelo aparecimento, no início do Verão de 1858, do ensaio de Alfred Russel Wallace, naturalista e coleccionador no arquipélago malaio — ensaio onde Wallace captou quase exactamente as ideias que Darwin descobrira vinte anos antes.

De imediato se leu e publicou excertos dos escritos de Darwin, juntamente com o ensaio de Wallace, na reunião seguinte da Sociedade Lineana. Apesar das histórias acerca de as ideias serem ignoradas, estas suscitaram um interesse imediato. Mais tarde, nesse Verão, no discurso presidencial perante a Associação Britânica para o Progresso da Ciência, o anatomista Richard Owen fez uma menção bastante favorável aos artigos — embora mais tarde, por causa das suas disputas com Darwin e os seus apoiantes acerca da natureza e rumo apropriado da ciência, Owen se tenha tornado o Darth Vader das Guerras de Darwin. Com ou sem menção, por esta altura Darwin lançara-se freneticamente na redacção daquilo a que queria chamar um “resumo” do seu pensamento — qualificativo que o seu editor, John Murray, sensatamente recusou para uma obra que em forma impressa perfazia 490 páginas — e assim a Origem finalmente apareceu, em Novembro de 1859.

Houve e ainda há uma considerável controvérsia sobre as razões pelas quais Darwin demorou tanto tempo para publicar a sua teoria. Pouco há de surpreendente no intervalo entre 1839 e 1842 ou entre 1842 e 1844. Darwin trabalhava a tempo inteiro noutros projectos, particularmente em geologia. Em especial, o que o tornou famoso, Darwin redigiu o seu relato da viagem à volta do mundo no Beagle, e o que era inicialmente um relatório formal para o almirantado tornou-se um dos mais populares livros de viagem da época, numa altura em que a sociedade simplesmente adorava histórias de explorações em terras distantes e exóticas. Darwin também se casara recentemente, mudando-se para uma casa em Kent (mandando-a ampliar), iniciara uma família, e sentia-se afligido por uma doença misteriosa que o atormentaria pelo resto da sua vida. Tinha mais do que o seu quinhão de responsabilidades naquele tempo.

E quanto ao hiato entre 1844 e 1858? É evidente que entre 1844 e 1859 entraram fragmentos de informação nova no pensamento de Darwin. Sempre me impressionou a maneira como o trabalho sobre os perceves convenceu de tal maneira Darwin acerca da variação que existe em todas as populações naturais, algo que era crucial para um mecanismo como a selecção natural. Além disso, articulou algo a que chamou o “princípio de divergência”, ligado à metáfora da árvore da vida, onde Darwin viu que a divergência é o modo pelo qual a selecção maximiza o uso que os organismos podem dar aos recursos. Embora na verdade me pareça haver indícios disto mesmo nos seus cadernos de apontamentos do final da década de 1830, aceito inteiramente que só muito mais tarde Darwin se apercebeu do problema e da sua solução.

Todavia, tenho de afirmar que nada disto, só por si ou em conjunto, me convence realmente que daqui resulta a solução. Não consigo encontrar uma diferença enorme entre o Ensaio de 1844 e a Origem de 1859. Assim, por que razão não publicou Darwin o Ensaio em 1844? A minha resposta é dupla. Tinha medo. Não da sua esposa ou algo assim. E duvido que o incomodasse muito ser rotulado “materialista”. Vinha de uma família e de um meio (em particular ligado ao irmão Erasmus) onde isto não era particularmente insultuoso. Em todo o caso, Darwin não era um materialista. Era um deísta, e os vários textos que precedem a Origem, inclusive este, deixam-no muito claro. (Chegou mesmo a acrescentar referências adicionais acerca do Criador, em edições posteriores.) O atraso foi antes parcialmente provocado pelo medo das reacções dos dirigentes do meio científico de Darwin — os homens que conhecera em Cambridge, que organizaram a viagem, e o acolheram de braços abertos quando regressou a casa. Em 1844 foi publicada uma infame obra evolucionista, Vestígios da História Natural da Criação, e o meio científico atacou-a furiosamente. Por exemplo, Adam Sedgwick insurgiu-se contra a obra no Edinburgh Review — era tão vil que tinha de ter sido escrita por uma mulher, mas seguramente nenhuma mulher seria capaz de escrever tamanha imundície. A recepção dos Vestígios não foi de modo algum uniformemente negativa — o poeta Alfred Tennyson, por exemplo, viria a usar as ideias aí expostas para completar uma das grandes obras de poesia vitoriana, In Memoriam — mas para o grupo de Darwin tratava-se de um anátema. Pelo que Darwin sabia que era melhor permanecer em silêncio. A segunda razão é simplesmente que Darwin não esperava que o atraso fosse tão grande. Entregou-se ao seu trabalho sobre os perceves supondo que demoraria apenas um ano, que então se prolongava cada vez mais enquanto trabalhava obsessivamente. Um ano tornou-se oito anos. O livro sobre as espécies — que à luz das reacções precisaria de documentação muito cuidadosa — não foi escrito.

O anacronismo da Origem

De certa maneira, é divertido falar acerca da grande demora, mas não é assim tão importante, e provavelmente, em última análise, é insolúvel. O importante é que se deve ajuizar a Origem nos seus próprios termos. Se é mais um produto do final da década de 1830 e início da de 1840 que do final da década de 1850, então devemos ajuizá-la como algo que foi escrito vinte anos antes de ter aparecido. Isto diz-nos da maneira mais óbvia por que razão Darwin quis escrever um livro acerca da evolução. Não foi o primeiro a fazer perguntas sobre as origens orgânicas. O seu avô Erasmus fizera-o, por exemplo. E nas décadas de 1840 e 1850, as pessoas continuaram a fazer perguntas acerca deste tópico. Além de Robert Chambers na primeira dessas duas décadas, houve na segunda um homem de ciência e filosofia inglês, Herbert Spencer. Contudo, pergunto-me se, na década de 1850, a evolução e as origens eram ainda algo que estivesse na lista de prioridades dos melhores biólogos profissionais. O grande apoiante de Darwin, Thomas Henry Huxley (avô do romancista Aldous Huxley) defendeu apaixonadamente a evolução. Mas isto foi apenas depois de a Origem ter sido publicada. Antes disso, como os outros biólogos profissionais, Huxley não estava interessado no problema das origens. Escreveu mesmo uma recensão feroz de Vestígios. Na década de 1830, todavia, o grupo de Darwin desenvolveu uma certa obsessão pelo assunto, normalmente de uma maneira muito negativa! Foi descrito como o “mistério dos mistérios” numa carta de Herschel a Lyell — carta que se popularizou bastante graças à reimpressão de Charles Babbage (inventor do primeiro protocomputador), no seu trabalho sobre a natureza da ciência e a sua conexão com a teologia, o Ninth Bridgewater Treatise. A minha opinião é que Darwin fez que estes assuntos fossem novamente discutidos. Uma discussão que obviamente persiste até aos dias de hoje.

Depois há a questão do estilo da Origem. Desde o início, todos reconheceram que se tratava de uma leitura extraordinariamente acessível, em especial para uma obra que fazia tanto e reivindicava a sua cientificidade. Richard Owen, na sua recensão na Quarterly, foi absolutamente desagradável neste aspecto, felicitando Darwin pelo seu estilo semelhante ao que viemos a esperar do autor de livros de viagens e coisas semelhantes — sugerindo que, do modo como estava escrita, não poderia tratar-se de uma obra séria. Darwin era certamente capaz de escrever coisas que só podiam ser lidas pelos especialistas, se é que estes as conseguiriam ler, de todo em todo. As monografias sobre perceves são um exemplo. Mas temos de pensar nos patronos de Darwin. Este podia não ter de trabalhar para ganhar a vida, mas havia aqueles cuja aprovação procurava, nomeadamente Robert Darwin, o seu pai, e o mais jovem Joshua Wedgewood, o Tio Josh de Darwin (e então seu sogro). Darwin iniciou o seu percurso de uma maneira algo acidentada — medíocre na escola e desistente do curso de medicina — e o seu pai desconfiava, com razão, dos seus talentos e da sua disposição para se dedicar às coisas. Depois da viagem do Beagle — mesmo durante essa viagem — tudo mudou. Chegaram as boas notícias e então o maravilhoso livro de viagens mostrou como Charles Darwin se tornara um grande motivo de orgulho para a família. Por sua vez, Darwin sempre escreveu para quem pagava as contas, ainda que em 1859 o pai e o tio já tivessem morrido.

Depois, e isto é muito importante, há a questão daqueles que para Darwin eram os aspectos mais importantes do mundo vivo e da razão por que pensou que o seu mecanismo de selecção natural os exprime — por que razão algum mecanismo evolutivo tem de o fazer. Observei que Darwin estava muito preocupado em mostrar que a selecção pode causar vantagens adaptativas — os organismos têm características como olhos e dentes e narizes e pénis e vaginas e casca e folhas e raízes e asas e barbatanas e escamas que lhes permitem sobreviver e reproduzir-se. Os organismos não estão simplesmente aglomerados ao acaso; estão-no como se tivessem sido concebidos para os papéis que desempenham na vida — as suas características funcionam ou, como afirmou Aristóteles, têm de ser compreendidas em termos de causalidade final. Temos de perguntar não só como é feito o olho mas também para que serve. Darwin, como os seus seguidores hoje — o autor de divulgação científica Richard Dawkins, por exemplo — pensou que esta complexidade organizada é a principal marca definidora do mundo vivo. Nem todos os evolucionistas do passado ou do presente concordariam. Embora fosse um grande apoiante da evolução, Huxley nunca pensou que a adaptação fosse a marca crucial da forma orgânica. Tão-pouco o pensaram todos os evolucionistas subsequentes. O célebre paleontólogo, o falecido Stephen Jay Gould, sempre negou a funcionalidade ubíqua, argumentando ao invés que muitas características orgânicas são subprodutos do processo de desenvolvimento, sem quaisquer fins reais. Tais características são semelhantes às áreas inúteis no topo das colunas nas igrejas medievais. Como estes “tímpanos”, muita coisa no mundo vivo não tem qualquer finalidade.

Por que razão pensou Darwin como pensou? Por que deu ênfase à adaptação? A resposta é simplesmente porque, ao contrário dos biólogos muito mais seculares da década de 1850, Darwin fora criado numa atmosfera religiosa — relembre-se o tempo que passou em Cambridge preparando-se para se tornar um pastor anglicano — e sempre aceitou a afirmação teológica de que o mundo vivo está organizado, é como se tivesse sido concebido. O teólogo — S. Tomás de Aquino, por exemplo — argumenta que o mundo vivo parece ter sido concebido porque foi concebido. Penso que Darwin aceitou este argumento até à redacção da Origem (todas aquelas referências ao Criador eram sinceras); depois as suas crenças desviaram-se para o cepticismo e o agnosticismo. Todavia, Darwin aceitou sempre que o mundo vivo é como se tivesse sido concebido. Trabalha, funciona. Este era o sistema de crenças da década de 1830 em Inglaterra e era o sistema de crenças de Charles Robert Darwin.

Eu acrescentaria, parenteticamente, que esta atmosfera religiosa foi também importante ao tornar importante a questão das origens na década de 1830 e menos na de 1850. Os cristãos são obcecados pelas origens, quase tanto como pelas consequências. De onde viemos e porquê? Se, como então era aparentemente o caso, o Génesis já não proporcionava uma resposta satisfatória, era preciso procurar outra resposta. Os colegas de Darwin nos anos de 1830 podem não ter gostado da sua resposta — na verdade, o importante historiador e filósofo da ciência, William Whewell, que em 1859 era o Director (reitor) do Trinity College, em Cambridge, recusou-se mesmo a permitir a Origem nas estantes da biblioteca universitária. Mas foram eles que convenceram o jovem Darwin de que as origens são importantes e que o colocaram no seu caminho de descoberta.

A consiliência

Finalmente, e este é o aspecto mais importante de todos, temos a estrutura da Origem. Darwin sempre afirmou que a Origem é “um longo argumento” e que é crucial lê-la desta maneira. Considere-se: Darwin tinha um problema. Por que razão alguém aceitaria a evolução através da selecção natural? Hoje, podemos observá-la em acção. Pegue-se numa placa de Petri e algumas bactérias, deite-se uma gota penicilina, e deixe-se a festa começar. Naquele tempo, desconhecia-se tais indícios. Não se podia simplesmente ver que a selecção era (como então se lhe chamava) uma vera causa, ou “verdadeira causa”. Todavia, Darwin não estava perturbado porque os seus mentores nos anos de 1830, William Whewell em particular, exprimiam exactamente este tipo de problema. A comunidade científica no início do século XIX oscilara vigorosamente entre a aceitação da teoria corpuscular da luz e da teoria das ondas, de Huyghens (aquilo a que chamaram a “teoria ondulatória da luz”). Mas por que era a teoria das ondas tão convincente? Ninguém vê efectivamente ondas luminosas. Whewell argumentou que, na ciência, procedemos como num tribunal quando ninguém viu um crime ser cometido. Colocamos a hipótese de que o mordomo (digamos) matou sua senhoria, e fazemo-lo em função das pistas — o método de ataque, as manchas de sangue e as pegadas, o álibi que não se verificou, o motivo (sua senhoria seduzira a filha do mordomo e deixara-a desamparada e grávida), e por aí em diante. A hipótese (o mordomo é o culpado) explica as pistas e, conversamente, as pistas sugerem a verdade da hipótese. Analogamente, os padrões de interferência descobertos através da experiência da fenda dupla, de Young, são explicados pela hipótese de que a luz é feita de ondas e os padrões de interferência tornam mais plausível a hipótese das ondas.

Darwin tirou proveito deste modo de argumentação — algo a que Whewell chamava a exibição de uma “consiliência de induções” — e, tendo primeiro (nos capítulos iniciais) introduzido as ideias de evolução e o seu mecanismo de selecção natural, apoiando-se na analogia com a selecção artificial e apresentando a inferência a partir de uma luta pela existência, avançou através da Origem, mostrando que esta evolução através de selecção natural explica as pistas da biologia e que, conversamente, estas pistas sustentam a hipótese central. O responsável inobservado é identificado indirectamente através dos indícios.

No domínio do instinto ou comportamento animal, Darwin centrou-se na abelha operária — bem conhecida dos seus contemporâneos, muitos dos quais teriam tido colmeias nos quintais de suas casas. Darwin mostrou como os alvéolos de cera que as abelhas constroem para as suas crias são exactamente hexagonais (com seis lados), e mostrou como este é de longe o sistema mais forte, e muito mais avançado do que as outras opções com respeito ao uso económico do material de construção. Mostrou também que há um âmbito de eficiência no mundo das abelhas, desde aquelas que não são muito boas na tarefa que desempenham até à abelha doméstica, que é excelente. Por outras palavras, temos uma adaptação soberba e indícios do seu gradual desenvolvimento através da selecção natural, o que por sua vez sustenta a hipótese evolucionista.

Passando de seguida à paleontologia, ao registo fóssil, Darwin argumentou por um lado que as lacunas que encontramos são de esperar, dada a pouca probabilidade da fossilização, e por outro lado — mais positivamente — que o registo grosso modo progressivo, desde as formas primitivas às formas complexas, é o que seria de esperar na evolução através de selecção. Darwin deu muita importância ao facto de quanto mais longe recuamos no registo, mais encontramos organismos que parecem ter características gerais, quer dizer, características partilhadas hoje por organismos que noutros aspectos são muito diferentes. Isto é precisamente o que seria de esperar de uma forma ramificante de descendência.

As distribuições geográficas dos organismos, a biogeografia, era um tema preferido de Darwin. Recorde-se quando, na casa dos vinte, Darwin servia como naturalista a bordo do HMS Beagle e visitou o Arquipélago das Galápagos, no Pacífico, e descobriu as diferenças entre organismos (as tartarugas gigantes e as aves, especialmente as aves imitadoras e os tentilhões) em ilhas muito próximas umas das outras. Como se poderia explicar isto excepto através da evolução? Analogamente, na Origem, Darwin deu muita importância ao facto de as formas indígenas das Galápagos, embora diferentes, serem muito semelhantes às formas indígenas da América do Sul e nada semelhantes aos habitantes da África Ocidental. Conversamente, os organismos encontrados nas Ilhas Canárias, no Atlântico, são semelhantes às formas africanas e diferentes das encontradas na América do Sul.

A sistemática, as relações entre organismos, fora um tópico de grande interesse desde o século XVIII, quando o grande taxonomista sueco Carl Lineu iniciara a tarefa de introduzir ordem no caos. Darwin tomou tudo isto e mostrou como as relações reflectem a genealogia, ao mesmo tempo sustentando e sendo explicadas. A anatomia era um trunfo. Desde Aristóteles que as pessoas se tinham apercebido que havia similaridades, isomorfismos, entre as partes de organismos muito diferentes. (Na década de 1840, Richard Owen designou-as “homologias”.) O membro anterior do cavalo, o braço e mão do ser humano, a asa do morcego, a barbatana do roaz são todos usados para fins diferentes e no entanto os ossos são semelhantes, moldados, por assim dizer, para as finalidades específicas. De que outra maneira se explica este facto natural totalmente inútil excepto através do processo de evolução?

E finalmente Darwin chegou à embriologia. Era do conhecimento geral o facto de os embriões de organismos diferentes — seres humanos e cães, por exemplo — serem praticamente indistinguíveis. A selecção foi o instrumento usado por Darwin para enfrentar directamente o problema. Os criadores de animais preocupam-se apenas com as formas adultas. Darwin mediu os cachorros de galgos e buldogues, os potros de cavalos de tiro e cavalos de corrida, linhagens em que os adultos são muito diferentes. Para sua alegria, descobriu que os cachorros e os potros são muitíssimo semelhantes. Como no artifício assim na natureza. Os embriões do cão e do ser humano partilham quase a mesma situação e necessidades; portanto a selecção não os afasta. Os adultos partilham situações e exigências muito diferentes; portanto a selecção afasta-os.

Não admira que, um ou dois anos depois da primeira publicação da Origem, Darwin se tenha sentido capaz de escrever a um colega: “Na verdade, a crença na selecção natural tem, por enquanto, de se basear inteiramente em considerações gerais. 1) Por ser uma vera causa, pela luta pela existência; e pelo indubitável facto geológico de que as espécies mudam, de alguma maneira 2) pela analogia da mudança sob domesticação através da selecção humana 3) e sobretudo porque esta perspectiva conecta, sob um ponto de vista inteligível, uma multidão de factos.” (Carta a George Bentham, 22 de Maio de 1863).

Depois da Origem

Uma das coisas mais interessantes acerca da Origem é a maneira muito cuidadosa e deliberada como Darwin permaneceu silencioso acerca de alguns tópicos. Particularmente significativa foi a ausência total de qualquer discussão acerca da origem última da vida. Precisamente na altura em que Pasteur mostrava quão improvável era a geração espontânea de vida a partir da matéria inorgânica, Darwin não iria comprometer o seu argumento abrangente mais geral ao especular nessa direcção. E nisto foi basicamente bem-sucedido. Poucos, na década seguinte à publicação da Origem, o criticaram a este propósito. Sentia-se que este era um problema para outra época. (Uma década depois da publicação da Origem, numa carta ao seu amigo, o botânico Joseph Hooker, Darwin sugeriu que talvez a vida tivesse começado a partir de substâncias químicas num “pequeno lago quente”, mas concluiu que uma vez existindo a vida, as hipóteses de isso acontecer novamente eram remotas.)

Um tópico que Darwin não podia evitar era o da natureza da hereditariedade, aquilo a que hoje chamaríamos “genética”. Aqui, muito honestamente, Darwin era ignorante e quaisquer sugestões que fazia tendiam apenas a piorar as coisas. Estava convencido de que as componentes primárias da variação (causada por aquilo a que hoje chamaríamos “mutações” de genes) tinham de ser aleatórias no sentido de não aparecerem segundo uma ordem, mas o modo como as variações são transmitidas de uma geração para a seguinte era um mistério. Sabemos hoje que os princípios correctos estavam mesmo nessa altura a ser desenvolvidos pelo obscuro monge da Morávia, Gregor Mendel; mas esta informação permaneceu em geral desconhecida até ao início do século XX. (Curiosamente, Mendel leu a Origem em tradução alemã, pouco tempo depois do aparecimento da obra, mas embora muito interessado no pensamento de Darwin nunca se apercebeu de que ele próprio detinha a pista para os seus problemas. Como sacerdote católico, Mendel estava muito mais interessado em saber se podia ou não em boa consciência teológica aceitar a evolução. Decidiu que podia.)

Os críticos aproveitaram as dificuldades de Darwin com a hereditariedade, combinando-as com outras críticas. Nem todas eram bem fundamentadas. Por exemplo, Darwin foi muito atacado pelos físicos que afirmavam que a Terra era demasiado jovem para um processo tão vagaroso como a selecção natural. Hoje, sabemos que eram os físicos que estavam enganados, pois ignoravam o declínio radioactivo e os seus efeitos térmicos, tornando assim plausível uma Terra muito mais antiga do que anteriormente se supunha. Todavia, o efeito cumulativo foi negativo. Não contra a evolução (pouquíssimos anos depois, quase toda a gente que não vivia no Sul dos Estados Unidos a aceitaram), mas contra a selecção natural como força principal da mudança. Foi só com a redescoberta e plena apreciação das ideias de Mendel que as pessoas então puderam ver e viram que a selecção natural pode ser e efectivamente é a maneira pela qual se dá a evolução.

Mas, para dizer a verdade, nos primeiros anos depois da publicação da Origem, a maioria das pessoas — Thomas Henry Huxley, por exemplo — não procuravam realmente um mecanismo de mudança. Não pensavam na evolução como algo que poderia ser uma ciência operativa profissional, um novo paradigma, por assim dizer. Ao invés, apropriaram-se da evolução para os seus próprios fins, que frequentemente eram mais como uma ciência popular, um tipo de religião secular que podia ser usada para combater a religião convencional do cristianismo. Foi notório o choque entre Huxley e Samuel Wilberforce, bispo de Oxford, em 1860 na reunião da Associação Britânica para o Progresso da Ciência. Wilberforce supostamente perguntou a Huxley se descendia de macacos pelo lado do avô ou pelo lado da avó. Huxley supostamente respondeu que preferia descender de um miserável macaco que de um bispo da Igreja Anglicana!

Foi pela causa de converter a evolução num tipo de mundividência, que Huxley e outros passaram de imediato à evolução humana, argumentando que o homo sapiens é a culminação do processo evolutivo. Na década de 1850, Huxley nada queria ter a ver com a religião (anglicanismo) então acessível, mas nos anos de 1860 via que a religião tradicional era o inimigo — era a sustentação de todas as instituições sociais ultrapassadas na função pública, na educação, no exército, na medicina, às quais ele e os seus colegas reformistas se opunham — e era preciso encontrar um substituto secular. Assim, na evolução, como no cristianismo, tinha-se uma história acerca das origens, do lugar especial dos seres humanos (no topo), e com a jogada simples de afirmar que a evolução era uma coisa boa e que portanto devemos valorizar e promover a sua acção, um sistema moral. O darwinismo social, como se tornou conhecido, tem (em certos aspectos merecidamente) um mau nome. Como temos uma luta pela existência no mundo animal e vegetal, os evolucionistas argumentaram que portanto temos e devemos ter uma luta no mundo cultural humano. Isto levou a todo o género de prescrições acerca da desejabilidade moral da economia do laissez faire, onde os grandes negócios vencem e as viúvas e crianças são infeliz mas apropriadamente postos de lado. Mas boa ou má na sua natureza e efeitos, a evolução, em linhas gerais, como um sistema secular, foi concebida por Huxley e outros como uma ideologia do novo mundo que ele e os seus companheiros vitorianos construíam. (Na verdade, tal como há variações morais no cristianismo, também havia variações morais entre os darwinistas sociais. Alguns cristãos argumentam a favor da guerra. Outros são pacifistas. Tudo em nome do mesmo Deus. Analogamente, alguns darwinistas sociais eram capitalistas impiedosos. Outros eram socialistas. Tudo em nome da mesma evolução.)

Apesar de as primeiras especulações de Darwin serem acerca da inteligência humana, praticamente nada afirmou na Origem acerca dos seres humanos, introduzindo-os no final apenas para não ser acusado de covardia. Queria apresentar primeiro os princípios gerais da sua teoria. Todavia, cerca de doze anos depois da publicação da Origem, incitado pelo pensamento de outros, Darwin pegou na caneta e deu um tratamento exaustivo ao homo sapiens. Se tivesse surgido a partir do nada, A Ascendência do Homem teria sido provavelmente tão chocante quanto a Origem das Espécies — talvez ainda mais. Da maneira como apareceu, suscitou poucos debates ou inquietações. Darwin por esta altura já enveredara firmemente por um caminho que terminaria em 1882 com a sua morte e enterro no Valhalla dos heróis ingleses, a Abadia de Westminster. Ali jaz hoje, junto daqueloutro grande cientista inglês, Isaac Newton. À medida que for lendo as páginas que tem diante de si, estou certo de que o leitor se aperceberá de como tão elevada distinção é apropriada.

Michael Ruse

Excerto

Quando viajava a bordo do H. M. S. Beagle, na qualidade de naturalista, fiquei bastante impressionado com certos factos acerca da distribuição dos habitantes da América do Sul, e das relações geológicas entre os habitantes do presente e os do passado daquele continente. Estes factos pareciam-me lançar alguma luz sobre a origem das espécies — esse “mistério dos mistérios”, como lhe chamou um dos nossos maiores filósofos. De regresso a casa, em 1837, ocorreu-me que talvez se pudesse compreender algo acerca desta questão acumulando todo o género de factos que pudessem ter alguma relevância para a mesma e reflectindo pacientemente neles. Após cinco anos de trabalho permiti-me especular sobre o assunto e redigi algumas notas breves; desenvolvi estas notas em 1844 até as converter num esboço das conclusões, que então me pareciam prováveis: desde esse período até hoje esforcei-me perseverantemente por alcançar o mesmo objectivo. Espero que me possam desculpar por entrar nestes detalhes pessoais, já que os dou para mostrar que não tive pressa de chegar a uma conclusão.

O meu trabalho está agora quase terminado; mas, como vou demorar ainda mais dois ou três anos a conclui-lo, e como a minha saúde já viu melhores dias, aconselharam-me a publicar este resumo. Fui antes de mais persuadido a fazer isto na medida em que o Sr. Wallace, que se dedica agora ao estudo da história natural do Arquipélago Malaio, chegou quase exactamente às mesmas conclusões gerais a que cheguei acerca da origem das espécies. No ano passado enviou-me uma dissertação sobre este assunto, pedindo-me que a reencaminhasse para Sir Charles Lyell, que a enviou para a Sociedade Lineana, e está publicada no terceiro volume da revista daquela sociedade. Sir C. Lyell e o Dr. Hooker, que já conheciam o meu trabalho — tendo o último lido o meu esboço em 1844 — elogiaram-me com a ideia de que seria aconselhável publicar, juntamente com a excelente dissertação do Sr. Wallace, alguns breves excertos dos meus manuscritos.

Este resumo, que agora publico, é forçosamente imperfeito. Não posso aqui apresentar referências e citar autoridades a favor das minhas diversas afirmações; e tenho de esperar que o leitor deposite alguma confiança na minha exactidão. Sem dúvida que se terão introduzido erros, embora espere ter tido sempre o cuidado de confiar apenas em fontes fidedignas. Aqui apenas posso apresentar as conclusões gerais a que cheguei, ilustrando-as com alguns, poucos, factos, mas que, espero, serão suficientes na maioria dos casos. Ninguém pode estar mais sensibilizado do que eu perante a necessidade de no futuro publicar detalhadamente todos os factos, com referências, sobre os quais foram baseadas as minhas conclusões; espero fazer isto num trabalho futuro. Pois estou bem ciente de que não há praticamente um único assunto discutido neste volume sobre o qual não se possa aduzir factos, que muitas vezes parecem levar a conclusões directamente opostas àquelas a que cheguei. Um resultado justo só pode ser obtido através da afirmação e avaliação completas dos factos e argumentos em ambos os lados de cada questão; e isto não é possível fazer aqui.

Lamento imenso que a falta de espaço me impeça a satisfação de reconhecer a generosa assistência que recebi de muitíssimos naturalistas, alguns dos quais não conheço pessoalmente. Não posso, todavia, deixar passar esta oportunidade sem exprimir a minha enorme dívida para com o Dr. Hooker, que durante os últimos quinze anos me ajudou de todas as maneiras possíveis com o seu vasto arsenal de conhecimentos e o seu excelente discernimento.

Ao considerar a origem das espécies, é inteiramente concebível que um naturalista, reflectindo nas afinidades mútuas dos seres orgânicos, nas suas relações embriológicas, na sua distribuição geográfica, sucessão geológica, e outros factos semelhantes, possa chegar à conclusão de que cada espécie não foi independentemente criada, mas que descende, como variedade, de outras espécies. Contudo, semelhante conclusão, ainda que bem fundamentada, seria insatisfatória enquanto não se pudesse mostrar como as inumeráveis espécies que habitam este mundo foram modificadas, de modo a adquirir aquela perfeição de estrutura e co-adaptação que muito justificadamente suscitam a nossa admiração. Os naturalistas referem-se continuamente a condições externas, como o clima, a alimentação, etc., como a única causa possível da variação. Num sentido muito limitado, como veremos mais tarde, isto pode ser verdadeiro; mas é absurdo atribuir a meras condições externas a estrutura, por exemplo, do pica-pau, com os seus pés, cauda, bico e língua, tão admiravelmente adaptados à captura de insectos sob a casca das árvores. No caso do visco branco, que retira o seu alimento de certas árvores, que tem sementes que têm de ser transportadas por certas aves, e que tem flores com sexos distintos, exigindo em absoluto a acção de certos insectos para levar pólen de uma flor para outra, é igualmente absurdo explicar a estrutura deste parasita, com as suas relações com diversos seres orgânicos distintos, através dos efeitos de condições externas, ou do hábito, ou da volição da própria planta.

O autor de Vestígios da Criação diria, presumo, que após um certo número desconhecido de gerações, alguma ave dera origem a um pica-pau e alguma planta ao visco, e que estas foram produzidas perfeitas como agora as vemos; mas esta pressuposição não me parece explicar coisa alguma, pois deixa intocado e inexplicado o caso das co-adaptações de seres orgânicos uns aos outros e às suas condições físicas de vida.

É portanto da mais elevada importância obter uma ideia sagaz clara dos meios de modificação e co-adaptação. No começo das minhas observações parecia-me provável que um estudo cuidadoso dos animais domesticados e plantas de cultivo daria a melhor hipótese de compreender este problema obscuro. Tão-pouco me desapontei; neste e em todos os outros casos desconcertantes descobri invariavelmente que o conhecimento que temos, por muito imperfeito que seja, da variação sob domesticação, nos deu a melhor e a mais segura pista. Posso arriscar exprimir a minha convicção acerca do elevado valor de tais estudos, embora tenham sido muito comummente descurados pelos naturalistas.

A partir destas considerações, dedicarei o primeiro capítulo deste resumo à variação sob domesticação. Veremos assim que uma grande quantidade de modificação hereditária é pelo menos possível; e veremos, o que é tão ou mais importante, como é grande o poder do homem ao acumular através da sua selecção sucessivas variações ligeiras. Passarei então à variabilidade das espécies em estado de natureza; mas serei infelizmente obrigado a tratar este assunto com excessiva brevidade, uma vez que só pode ser tratado apropriadamente com a apresentação de extensos catálogos de factos. Poderemos, todavia, discutir quais as circunstâncias mais favoráveis à variação. No capítulo seguinte, a luta pela existência entre todos os seres orgânicos em todo o mundo, que decorre inevitavelmente dos seus elevados poderes de proliferação geométrica, será o assunto abordado. Esta é a doutrina de Malthus, aplicada à totalidade dos reinos animal e vegetal. Na medida em que nascem, em cada espécie, muito mais indivíduos do que os que têm possibilidade de sobreviver; e na medida em que daí decorre uma incessante luta generalizada pela existência, segue-se que qualquer ser que sofra a mais ligeira variação, que de alguma maneira lhe seja vantajosa, sob as complexas e por vezes variáveis condições de vida, terá uma maior probabilidade de sobreviver e assim ser naturalmente seleccionado. Segundo o princípio forte da hereditariedade, qualquer variedade seleccionada tenderá a propagar a sua nova forma modificada.

Este tema fundamental da selecção natural será tratado com algum detalhe no quarto capítulo; veremos então como a selecção natural provoca quase inevitavelmente grande parte da extinção das formas de vida menos aperfeiçoadas e produz aquilo a que chamei “divergência de carácter”. No capítulo seguinte, discuto as complexas e pouco conhecidas leis da variação e correlação de crescimento. Nos quatro capítulos seguintes, apresenta-se as dificuldades mais evidentes e graves da teoria: nomeadamente, em primeiro lugar, as dificuldades das transições, ou de compreender como um ser simples ou um órgão simples se podem modificar e aperfeiçoar até se tornarem um ser altamente desenvolvido ou um órgão elaboradamente construído; em segundo lugar, o tema do instinto, ou dos poderes mentais dos animais; em terceiro lugar, o hibridismo, ou a infertilidade de espécies e a fertilidade de variedades quando entrecruzadas; e em quarto lugar, a imperfeição do registo geológico. No capítulo seguinte considerarei a sucessão geológica dos seres orgânicos ao longo do tempo; nos Capítulos XI e XII, a sua distribuição geográfica no espaço; no Capítulo XIII, a sua classificação ou afinidades mútuas, na maturidade como em estado embrionário. No último capítulo farei uma breve recapitulação de todo o trabalho e algumas observações finais.

Ninguém se deveria sentir surpreso perante muito do que fica por explicar a respeito da origem das espécies e variedades, tendo em devida consideração a nossa profunda ignorância a respeito das relações mútuas de todos os seres que vivem à nossa volta. Quem pode explicar a razão por que uma espécie tem uma distribuição ampla e é muito numerosa e outra espécie próxima tem uma distribuição mais limitada e é rara? Contudo, estas relações são da mais elevada importância, pois determinam o bem-estar presente e, segundo creio, o sucesso e modificação futuros de cada habitante deste mundo. Menos ainda sabemos acerca das relações mútuas dos inumeráveis habitantes do mundo durante as muitas épocas geológicas decorridas na sua história. Apesar da muita obscuridade que permanece e permanecerá durante muito tempo, não me restam quaisquer dúvidas, depois do estudo mais cuidadoso e do juízo mais imparcial de que sou capaz, de que a perspectiva adoptada pelos naturalistas na sua maioria, e que adoptei antes — nomeadamente, que cada espécie foi independentemente criada — é errónea. Estou plenamente convencido de que as espécies não são imutáveis; mas que os membros daquilo a que chamamos “os mesmos géneros” são descendentes directos de outras espécies, geralmente extintas, da mesma maneira que as variedades reconhecidas de qualquer espécie são descendentes dessa espécie. Além disso, estou convencido de que a selecção natural tem sido o instrumento principal, embora não exclusivo, da modificação.