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3 de Maio de 2008 ⋅ Opinião

Ortografia kafkiana

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Quando se lê cuidadosamente os documentos e artigos dos defensores da unificação ortográfica fica-se com uma sensação kafkiana. Algo está profundamente errado. Os verdadeiros motivos que levam algumas pessoas a lutar há anos pela unificação ortográfica por via legislativa não podem ser os motivos que são explicitamente formulados. Vejamos porquê.

A ideia vagamente sugerida é que a unificação ortográfica é importante por razões políticas e estratégicas, para fomentar a afirmação da língua portuguesa no mundo. No documento "Perguntas e Respostas sobre o Acordo Ortográfico", divulgado pelo Público e da responsabilidade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (uma instituição que confunde no seu próprio nome a representação das comunidades de língua portuguesa com as próprias comunidades de língua portuguesa), pode-se ler que "existem quatro grandes línguas (Inglês, Francês, Português e Espanhol) e que o Português é a única com duas grafias oficiais". Em primeiro lugar, isto é falso, dado que os ingleses escrevem "sceptic" e "colour", por exemplo, e os americanos "skeptic" e "color". Em segundo lugar, é hilariante que neste mesmo documento se escreva "Inglês, Francês, Português e Espanhol", à inglesa: isto é, capitalizando os nomes das línguas, coisa que é de regra em inglês, mas não em português.

Mas, mais importante, e em terceiro lugar, nunca se explica exactamente qual seria o problema de ter duas ortografias. Por que temos de ir a correr imitar os espanhóis ou os franceses, ou seja quem for? A menos que nos expliquem cuidadosamente que efeito positivo tem uma só ortografia, há aqui qualquer coisa que não bate certo. Vejamos: lê-se no referido documento que "o número de palavras cuja ortografia seria alterada não ultrapassaria os 2 por cento! Pouco mais de 2.000 palavras num Universo de 110.000". Com ponto de exclamação e tudo, esta afirmação parece demolir a própria necessidade do acordo. Como é que duas mil palavras em mais de cem mil podem impedir a implantação internacional da língua portuguesa? E como é que a eliminação dessas duas mil diferenças ortográficas vai tornar a língua portuguesa equiparável à espanhola ou à francesa?

Como é óbvio, não é a unificação ortográfica legislativa que unificará as diferentes maneiras de falar e escrever o português, nem seria tal unificação legislativa que daria força à língua. A força de uma língua não reside na unidade ortográfica ou lexical, mas sim na produção cultural. A língua francesa ou espanhola é mais importante do que o mandarim, que tem muitos mais falantes, porque a produção cultural influente, original e universal em francês e espanhol é muitíssimo superior à mandarim. No entanto, há cerca de mil milhões de falantes do mandarim e apenas cerca de quatrocentos milhões de falantes do espanhol.

A pergunta a fazer é simplesmente esta: dado que não serve os interesses de quem fala português, que interesses serve realmente o acordo?

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (15 de Abril de 2008)
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