Unique, de Irina Souiki
22 de Maio de 2008 ⋅ Opinião

Ortografia e norma

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Quando olhamos para os comportamentos de muitos de nós, a nossa origem simiesca torna-se manifesta: a roupa cara serve para alardear estatuto social, assim como os telemóveis caros, os carros caros e tudo o mais. Também a maneira como se fala ou escreve é prostituída do mesmo modo: a pronúncia, a gramática e o léxico são tolamente usados como marca de imaginadas superioridades sociais, nem sempre, mas quase sempre, associadas a maior riqueza. Nos meus tempos de estudante de faculdade, alguns professores alardeavam o grego, bibliografias obscuras que eles mesmos não liam, e expressões que ninguém compreendia realmente. É esta a miséria humana.

Poucas pessoas sabem que entre os linguistas e lexicógrafos se deu uma mudança de mentalidade há relativamente pouco tempo. Deram-se conta destes aspectos sociais do uso da língua e descobriram que há uma diferença entre norma e descrição. Quando se descreve a língua, não pode haver erros — se as pessoas escrevem "voçê", é isso que se regista. Mas quando se estabelece uma norma, regista-se "você" nos dicionários, e estamo-nos nas tintas para quem escreve de outra maneira.

Infelizmente, a distinção absolutista entre norma e descrição é um resquício do positivismo. E é de uma simplificação insustentável porque geralmente as normas e as descrições misturam-se e influenciam-se mutuamente. Precisamente porque há a norma de conduzir pela esquerda em Portugal, mas pela direita no Reino Unido, qualquer descrição do trânsito terá de ter em conta a norma para explicar tão extraordinária diferença no comportamento dos condutores. E muitas normas são influenciadas pela natureza do mundo, que supostamente seria independente das normas: não podemos criar uma norma que permita a toda a gente passar ao mesmo tempo nos cruzamentos porque a realidade não permite infelizmente tal coisa.

Em qualquer caso, lexicógrafos como Houaiss, autor do dicionário com o mesmo nome, fizeram imenso barulho a favor da inclusão de qualquer idiotice que qualquer palerma diz ou escreve algures, pois não o fazer seria simultaneamente contrário à pureza descritiva dos dicionários e aos ideais igualitários da esquerda. É irónico que esta atitude libertadora da língua, por parte de Houaiss, não inclua a ortografia, dado que ele foi uma das pessoas que fez o vergonhoso e incoerente Acordo Ortográfico que no Brasil ninguém usa e em Portugal quase ninguém quer subscrever. Uma reforma ortográfica é exactamente o oposto destes ideais descritivos e libertários, mas talvez os linguistas gostem de escrever direito por linhas tortas.

Em qualquer caso, a confusão é completa. O objectivo não deveria ser sancionar o que qualquer analfabeto diz, mas antes dar educação a todos para que não haja analfabetos. E não vale a pena defender o ideal perdido à partida de elevar ao máximo chique linguístico dizer "bué". Mas vale a pena lutar para acabar com as discriminações económicas e sociais, quer se baseiem na língua quer se baseiem no telemóvel caro.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (13 de Maio de 2008)
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