4 de Fevereiro de 2016   Filosofia política

Os escritores e o Leviatã

George Orwell
Tradução de Aluízio Couto

A posição do escritor numa era de controle estatal é um assunto já amplamente discutido, embora a maior parte dos dados que podem ser relevantes não estejam ainda disponíveis. Não quero expressar aqui qualquer opinião a favor ou contra o patrocínio estatal das artes, mas apenas ressaltar que o tipo de estado que nos governa tem de depender parcialmente da atmosfera intelectual dominante: nesse contexto, isso significa que depende parcialmente da atitude dos próprios escritores e artistas e da sua disposição ou falta dela para manter vivo o espírito do liberalismo. Se em dez anos estivermos curvados perante alguém como Zhdanov, isso ocorrerá provavelmente porque é o que teremos merecido. Obviamente, há fortes tendências favoráveis ao totalitarismo em operação dentro da intelligentsia literária inglesa. Mas não estou preocupado com qualquer grupo organizado e consciente como o comunismo, e sim meramente com o efeito, nas pessoas bem intencionadas, do pensamento político e da necessidade de se posicionar politicamente.

Esta é uma era política. Guerra, fascismo, campos de concentração, cassetetes de borracha, bombas atômicas, etc., são as coisas nas quais pensamos diariamente e, portanto, são em grande medida as coisas sobre as quais escrevemos mesmo quando não as nomeamos abertamente. Não podemos evitá-lo. Quando você está num navio naufragando, pensará em navios naufragando. Não só o nosso assunto se restringe, mas toda a nossa atitude relativa à literatura fica matizada por lealdades que, ao menos intermitentemente, reconhecemos que não são literárias. Muitas vezes tenho a sensação de que mesmo na melhor das épocas a crítica literária é uma fraude, uma vez que na ausência de quaisquer padrões aceitos, sejam lá quais forem — qualquer referência externa que possa dar sentido à afirmação de que um livro assim ou assado é “bom” ou “ruim” —, todo o juízo literário consiste na promoção de um conjunto de regras para justificar uma preferência instintiva. A reação real a um livro, e isso quando se tem, de todo, uma reação, usualmente é “gostei deste livro” ou “não gostei deste livro”, e o que se segue é uma racionalização. Mas “gostei deste livro” não é, penso, uma reação não-literária; a reação não-literária é “Este livro está do meu lado e portanto devo descobrir méritos nele”. Obviamente, é possível ser emocionalmente sincero quando se elogia um livro por razões políticas, no sentido de haver um sentimento de forte aprovação, mas é também comum que a solidariedade partidária exija uma mentira grosseira. Qualquer pessoa acostumada a resenhar livros para periódicos políticos sabe bem disso. Em geral, se você está escrevendo para uma publicação com a qual concorda, peca por comissão; se for para uma publicação do outro lado, por omissão. De qualquer modo, inúmeros livros controversos — livros a favor ou contra a Rússia Soviética, a favor ou contra o sionismo, a favor ou contra a Igreja Católica, etc. — são ajuizados antes de serem lidos e na realidade antes de serem escritos. Já se sabe com antecedência que recepção terão em quais publicações. E mesmo assim, com uma desonestidade que por vezes não é sequer consciente, mantém-se a pretensão de que se está aplicando padrões genuinamente literários.

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É evidente que a invasão da literatura pela política era algo prestes a ocorrer. Tinha de ocorrer, mesmo que o problema especial do totalitarismo jamais tivesse surgido, porque desenvolvemos um tipo de escrúpulo que nossos avós não tinham — uma consciência da enorme injustiça e miséria do mundo e um sentimento algo culpado de que se deveria estar fazendo alguma coisa — que torna impossível uma atitude puramente estética perante o mundo. Ninguém agora poderia dedicar-se à literatura de maneira tão focada como Joyce ou Henry James. Infelizmente, porém, aceitar a responsabilidade política significa submeter-se a ortodoxias e “linhas partidárias”, com toda a pusilanimidade e desonestidade que isso implica. Comparados aos escritores vitorianos, temos a desvantagem de viver entre ideologias políticas bem delineadas e de saber com não mais que uma olhadela quais ideias são heréticas. Um intelectual literário moderno vive e escreve em constante pavor — não da opinião pública num sentido amplo, mas da opinião pública no seu próprio grupo. Por sorte, é regra haver mais de um grupo, mas em qualquer momento há sempre uma ortodoxia dominante cuja ofensa requer casca grossa e às vezes implica ter a renda cortada pela metade por anos a fio. É uma obviedade que, aproximadamente nos últimos quinze anos, a ortodoxia dominante, sobretudo entre os jovens, tem sido a “esquerda”. As palavras-chave são “progressista”, “democrático” e “revolucionário”, ao passo que os rótulos que você deve evitar a todo custo que lhe sejam colados são “burguês”, “reacionário” e “fascista”. Hoje quase todos, até mesmo a maioria dos católicos e conservadores, são “progressistas” ou ao menos desejam ser vistos assim. Tanto quanto sei, ninguém se descreve como “burguês”, tal como ninguém suficientemente instruído a ponto de ter ouvido a palavra jamais admite ser culpado de antissemitismo. Somos todos bons democratas, antifascistas, anti-imperialistas, desdenhosos em relação às distinções de classe, imunes ao preconceito de cor e assim por diante. Também não há muita dúvida de que a atual ortodoxia de “esquerda” é melhor do que a ortodoxia conservadora esnobe e carola prevalecente há vinte anos, quando a Criterion e (num grau menor) a London Mercury eram as revistas literárias dominantes. Pois ao menos seu objetivo implícito é uma forma viável de sociedade realmente desejada por um grande número de pessoas. Mas tem as suas próprias falsidades que, por não poderem ser admitidas, tornam impossível a discussão séria de certas questões.

A totalidade da ideologia de esquerda, científica e utópica, evoluiu pela iniciativa de pessoas que não tinham qualquer perspectiva imediata de chegar ao poder. Era, portanto, uma ideologia extremista, completamente avessa a reis, governantes, leis, prisões, forças policiais, exércitos, bandeiras, fronteiras, patriotismo, religião, moralidade convencional e, de fato, a todo o atual arranjo das coisas. Até um tempo de que ainda se tem memória, as forças de esquerda em todos os países estavam lutando contra uma tirania que parecia invencível, e era fácil pressupor que se ao menos aquela tirania em particular – o capitalismo – pudesse ser derrubada, o socialismo seguir-se-ia. Aliás, a esquerda herdara do liberalismo certas crenças distintamente questionáveis, como a crença de que a verdade prevalecerá e a perseguição se derrota a si própria ou a de que o homem é naturalmente bom e é corrompido apenas pelo seu ambiente. Essa ideologia perfeccionista persistiu em quase todos nós e é em nome dela que protestamos quando (por exemplo) um governo trabalhista vota em favor de conceder uma vasta renda para as filhas do rei ou mostra hesitação perante a nacionalização do aço. Mas também acumulamos no espírito uma série inteira de contradições nunca admitidas, resultado de sucessivas colisões com a realidade.

A primeira grande colisão foi a Revolução Russa. Por razões um tanto complexas, praticamente toda a esquerda inglesa foi levada a aceitar o regime russo como “socialista” enquanto reconhecia silenciosamente que o seu espírito e a prática são completamente estranhos a qualquer coisa que se entende por “socialismo” aqui. E assim surgiu uma maneira algo esquizofrênica de pensar, na qual palavras como “democracia” podem ter dois sentidos irreconciliáveis e coisas como campos de concentração e deportações em massa podem ser simultaneamente correctas e incorrectas. O golpe seguinte à ideologia de esquerda foi o surgimento do fascismo, o qual sacudiu o pacifismo e o internacionalismo da esquerda sem, no entanto, gerar uma reformulação definitiva da doutrina. A experiência da ocupação alemã ensinou aos povos europeus algo que os povos colonizados já sabiam, nomeadamente, que os antagonismos de classe não são tudo o que importa e que o interesse nacional é uma coisa que existe. Depois de Hitler tornara-se difícil sustentar seriamente que “o inimigo está no nosso país” e que a independência nacional não tem valor. Mas embora saibamos disso e ajamos em harmonia com esse ponto de vista quando necessário, ainda sentimos que dizê-lo em bom som seria uma espécie de traição. E finalmente, e esta é a maior dificuldade, há o fato de que a esquerda está agora no poder e é obrigada a ter responsabilidades e a tomar decisões genuínas.

Quase invariavelmente, os governos de esquerda decepcionam os seus apoiantes. Pois mesmo quando a prosperidade prometida é alcançável, há sempre a necessidade de um desconfortável período de transição sobre o qual pouco se disse previamente. Neste momento vemos o nosso próprio governo em desesperado apuro econômico lutando contra o que é de fato a sua própria propaganda anterior. A crise na qual estamos não é uma calamidade súbita e inesperada como um terremoto e não foi causada pela guerra, mas apenas antecipada por ela. Era já possível prever desde há décadas que alguma coisa desse tipo estava para ocorrer. Desde o século XIX a renda nacional, que depende parcialmente dos juros de investimentos estrangeiros, de mercados garantidos e da matéria bruta barata das colônias, tem sido extremamente precária. Era certo que, cedo ou tarde, algo daria errado e seríamos então forçados a fazer as nossas exportações equilibrarem as importações; e quando isso acontecesse o padrão de vida britânico, incluindo o da classe trabalhadora, teria de cair ao menos temporariamente. E no entanto os partidos de esquerda, mesmo quando eram anti-imperialistas vociferantes, nunca foram claros a respeito desses fatos. Vez ou outra eles estavam dispostos a admitir que, em algum grau, os trabalhadores britânicos beneficiavam das pilhagens na Ásia e na África, mas sempre deixaram transparecer que poderíamos desistir das pilhagens e mesmo assim inventar, de alguma maneira, um modo de permanecer prósperos. Em sua maior parte, de fato, os trabalhadores foram atraídos para o socialismo quando foi-lhes dito que eram explorados, mas a verdade bruta era que, em termos mundiais, eles eram exploradores. Agora, ao que parece, chegou-se ao ponto em que o padrão de vida da classe trabalhadora não pode ser mantido, quanto mais elevado. Mesmo que espremamos os ricos até à sua extinção, a massa das pessoas tem de consumir menos ou produzir mais. Ou estou exagerando a bagunça em que estamos? Posso estar, e ficaria feliz em descobrir que estou errado. Mas meu ponto é que, entre as pessoas fiéis à ideologia de esquerda, esse assunto não pode ser genuinamente discutido. A redução dos salários e o aumento das horas de trabalho são vistos como medidas inerentemente anti-socialistas e devem portanto ser descartadas logo de cara, independente de qual for a situação econômica. Sugerir que talvez sejam inevitáveis é simplesmente correr o risco de ficar marcado com aqueles rótulos que tanto nos amedrontam. É muito mais seguro fugir do assunto e fingir que podemos resolver tudo pela redistribuição da renda existente.

Aceitar uma ortodoxia é sempre herdar contradições não resolvidas. Considere, por exemplo, o fato de que todas as pessoas sensíveis estão revoltadas com o industrialismo e os seus resultados, mas ao mesmo tempo estão cientes de que a vitória sobre a pobreza e a emancipação da classe trabalhadora demandam não menos industrialização, e sim mais e mais. Ou o fato de que alguns trabalhos são absolutamente necessários e mesmo assim nunca feitos sem algum tipo de coerção. Ou o fato de ser impossível ter uma política externa positiva sem forças armadas poderosas. Pode-se multiplicar os exemplos. Em cada caso há uma conclusão perfeitamente óbvia a qual se pode chegar apenas quando se é privadamente desleal à ideologia oficial. A reação normal é empurrar o problema, sem resposta, para um canto da mente e continuar a repetição de frases feitas contraditórias. Ninguém precisa fazer uma investigação muito profunda nas resenhas e revistas para descobrir os efeitos desse tipo de pensamento.

Não estou, é claro, sugerindo que a desonestidade mental seja peculiar aos socialistas e esquerdistas em geral ou que seja mais comum entre eles. É simplesmente que a aceitação de qualquer disciplina política parece incompatível com a integridade literária. Isso se aplica igualmente a movimentos como o pacifismo e o personalismo, que afirmam estar fora da disputa política comum. De fato, o mero som de palavras cuja terminação é –ismo parece trazer consigo um cheiro de propaganda. As lealdades de grupo são necessárias. No entanto, são venenosas para a literatura, dado que a literatura é o produto de indivíduos. Assim que se permite que tenham qualquer influência, mesmo negativa, na escrita criativa, o resultado não é apenas a falsificação, mas frequentemente a evaporação das faculdades inventivas.

Bom, e então? Temos de concluir que é dever de todo escritor “manter-se fora da política”? Certamente que não! Em qualquer caso, como afirmei, nenhuma pessoa pensante pode manter-se ou se mantém genuinamente fora da política numa época como a atual. Apenas sugiro que devemos estabelecer com mais nitidez ainda a distinção entre as nossas lealdades políticas e nossas lealdades literárias, e que devemos reconhecer que a nossa disposição para fazer certas coisas desagradáveis mas necessárias não acarreta qualquer obrigação de engolir as crenças que geralmente as acompanham. Quando um escritor se entrega à política, deveria fazê-lo como cidadão, como ser humano, mas não como escritor. Não acredito que, com base nas suas sensibilidades, tenha o direito de fugir do trabalho sujo comum da política. Como qualquer outra pessoa, deve estar preparado para dar palestras em auditórios frios, escrever sobre as calçadas, arregimentar eleitores, distribuir panfletos e até mesmo lutar em guerras civis caso necessário. Mas seja lá o que ele faça pelo seu partido, jamais deve escrever em seu favor. Deve deixar claro que sua escrita é algo à parte. E deve ser capaz de agir cooperativamente ao mesmo tempo em que, caso queira, rejeite completamente a ideologia oficial. Jamais deve impedir uma linha de raciocínio porque possa levar a uma heresia, e não deve se importar muito se a sua heterodoxia for descoberta, como provavelmente será. Talvez seja um mau sinal num escritor se não for hoje suspeito de tendências reacionárias, tal como era um mau sinal não ser suspeito de simpatias pelo comunismo há vinte anos.

Mas significa tudo isso que um escritor deve não apenas recusar ser pautado por chefes políticos, mas também que deve abster-se de escrever sobre política? Mais uma vez, certamente que não! Não há qualquer razão para não escrever do modo politicamente mais cru se assim o desejar. Apenas deve fazê-lo como um indivíduo, um outsider, quando muito como um guerrilheiro inoportuno no flanco de um exército regular. Essa atitude é perfeitamente compatível com a utilidade política comum. É razoável, por exemplo, dispor-se a lutar numa guerra porque se pensa que deve ser vencida e ao mesmo tempo recusar-se a escrever propaganda de guerra. Às vezes, se o escritor for honesto, os seus escritos e sua atividade política podem contradizer-se. Há ocasiões em que isso é obviamente indesejável; mas o remédio não é falsificar os seus próprios impulsos, mas antes fazer silêncio.

Sugerir que um escritor criativo numa época de conflito deva dividir a sua vida em dois compartimentos pode parecer derrotista ou frívolo; mas na prática não consigo ver o que mais pode ele fazer. Trancar-se numa torre de marfim é impossível e indesejável. Mas entregar a sua subjetividade não apenas a uma máquina partidária mas também a uma ideologia de grupo é o mesmo que destruir-se como escritor. Sentimos esse dilema como algo doloroso porque percebemos a necessidade de envolver na política ao mesmo tempo que percebemos a atividade suja e degradante que ela é. E a maioria de nós ainda tem a crença persistente de que toda a escolha, e mesmo toda a escolha política, é entre o bem e o mal, e que se algo é necessário, é também correto. Penso que deveríamos livrar-nos dessa crença infantil. Em política nunca se pode fazer mais do que decidir qual de dois males é o menor, e há certas situações das quais só se pode escapar agindo como um demônio ou um lunático. A guerra, por exemplo, pode ser necessária, mas certamente não é correta nem sã. Nem mesmo uma eleição geral é um espetáculo exatamente agradável ou edificante. Se você precisa tomar partido nessas coisas – e acredito que deve tomar, a menos que esteja protegido pela velhice ou pela estupidez ou pela hipocrisia – então também tem de manter uma parte de si inviolável. Para a maior parte das pessoas o problema não surge da mesma forma porque as suas vidas já estão dividias. Estão genuinamente vivas somente nos seus momentos de lazer e não há qualquer conexão emocional entre o seu trabalho e as suas atividades políticas. Também não se exige que, em nome das lealdades políticas, se prostituam enquanto trabalhadores. Do artista, e especialmente do escritor, exige-se precisamente isso – de fato, é a única coisa que os políticos exigem deles. Se ele recusar, isso não quer dizer que esteja condenado à inatividade. Uma metade dele, que num sentido é seu todo, pode agir tão resolutamente e, se necessário, tão violentamente quanto qualquer outra pessoa. Mas seus escritos, na medida em que têm algum valor, sempre serão o produto do seu eu mais lúcido que se distancia, registra as coisas que são feitas e até admite que são necessárias, mas recusa-se a ser enganado a respeito de sua verdadeira natureza.

George Orwell

Publicado originalmente em Politics and Letters, verão de 1948

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