27 de Abril de 2010   Filosofia da linguagem

Disposições e linguagem

Palavra e Objeto
Willard van Orman Quine
Tradução de Sofia Stein e Desidério Murcho
Petrópolis: Vozes, 2010, 368 pp.

Nesta obra, um dos filósofos mais influentes do século passado apresenta e explora a sua tese central: a linguagem nada é senão um conjunto de disposições, socialmente inculcadas, para responder a estímulos socialmente observáveis. As noções de significado e os mecanismos de referência terão então de ser explicadas partindo deste ponto de vista. É no decurso dessa tentativa de explicação que Quine discute os problemas que tal perspectiva enfrenta: a impossibilidade da tradução radical, o aparato referencial da nossa linguagem, os problemas semânticos associados à imputação de existência, entre outros. No decorrer desta discussão, Quine rejeita aceitar entidades que considera misteriosas (e.g. proposições, necessidades, significados) mas aceita outras, necessárias para a ciência (e.g. conjuntos).

Sobre o autor

Willard van Orman Quine (1908-2000) foi o filósofo americano mais influente da segunda metade do século XX. A atenção de Quine começou por incidir sobre a lógica matemática, donde resultaram as obras A System of Logistic (1943), Mathematical Logic (1940) e Methods of Logic (1950). Foi com a publicação do conjunto de ensaios que formam o livro From a Logical Point of View (1953) que a sua importância filosófica se tornou largamente reconhecida. A sua reputação consolidou-se com Word and Object (1960), no qual a indeterminação da tradução radical assume pela primeira vez o papel principal. Além das obras já citadas, a sua bibliografia inclui The Ways of Paradox and Other Essays (1966), Ontological Relativity and Other Essays (1969), Philosophy of Logic (1970), The Roots of Reference (1974) e The Time of My Life: An Autobiography (1985).

Excerto

No capítulo anterior prevaleceu um certo ar de inovação, mas apenas o mais diáfano. Mostrou-se maneiras de parafrasear frases para ganhar clareza de estrutura e economia de construções com pouco ou nenhum custo exceto a brevidade e familiaridade da expressão. As paráfrases foram feitas de maneira a responder à maior parte ou a todos os propósitos prováveis em função dos quais as frases originais podem ser usadas, exceto na medida em que tais necessidades incluam a brevidade e a familiaridade. Nenhumas ou quase nenhumas locuções foram excluídas sem que isso trouxesse o benefício de uma paráfrase adequada. O mais próximo disso foi talvez a exclusão da quantificação para o interior de construções opacas, mas mesmo neste caso não houve qualquer perda óbvia, uma perda que seria sentida como tal de qualquer ponto de vista muito plausível; os casos úteis de aparente quantificação para dentro de contextos opacos foram geralmente resgatados pela paráfrase. Não se excluiu objetos abstratos com base em escrúpulos nominalistas; não se excluiu objetos intensionais com base em escrúpulos extensionalistas; nem se excluiu palavras indicativas com base em escrúpulos de absolutismo. Neste capítulo estes temas começarão a vir à superfície.

Uma frase não é um acontecer de uma elocução, mas antes um universal: um padrão sonoro repetível, ou uma norma repetidamente aproximável. A verdade não pode no seu todo ser vista como um traço, nem mesmo um traço transitório, de uma frase apenas; é um traço transitório de uma frase para um homem. “A porta está aberta” é verdadeira para um homem quando uma porta está de tal modo situada que ele a tomaria como a referência momentânea natural de “a porta” e está aberta (quer ele o saiba quer não). O acontecimento individual da elocução pode mesmo assim ser descrito como absolutamente verdadeiro, dado que um momento do tempo e um homem lhe são específicos; mas falar de frases verdadeiras para homens em momentos do tempo é mais abrangente, pois inclui casos nos quais a frase não é proferida pelo homem em questão no momento em questão.

A relativização a momentos de tempo e a pessoas pode ser estranha por conta das especificações complementares com que nos rodeia continuamente. Esta é sem dúvida uma razão pela qual os filósofos têm gostado de postular entidades abstratas complementares — proposições — como veículos de verdade substitutos. Feito isto, dizem que a frase exprime ora uma proposição ora outra para um ou para outro homem, ao mesmo tempo que permitem que cada uma dessas proposições se mantenha constantemente verdadeira ou falsa sem que o seja relativamente a pessoas.

Este postulado não é completamente culpa do filósofo. A linguagem comum tem as suas orações “que”, e tais orações (com “que” como conjunção, e não como um pronome relativo ou demonstrativo) funcionam gramaticalmente como termos singulares (exceto quando precedidas de “tal”), pretendendo assim evidentemente designar algo. Os objetos pretendidos são aquilo a que o filósofo deita mão e chama, com alguns refinamentos, proposições. É por causa do lugar ocupado pelas orações “que” em questão na linguagem comum que foi adequado para o espírito algo acrítico do capítulo anterior reservar um lugar na notação canônica para o que chamamos abstração proposicional, reconhecendo provisoriamente objetos, chamados “proposições”, para serem o objeto de designação dos termos singulares formados desse modo. Dado que um uso proeminente das orações “que” é enquanto objetos gramaticais dos chamados verbos de atitudes proposicionais, demos conosco a tomar proposições em particular como as coisas em que as pessoas acreditam e que afirmam, desejam, etc. O termo de Russell, “atitude proposicional”, faz-nos recordar que não fomos os primeiros a fazê-lo.

É irrelevante que a notação da abstração proposicional, juntamente com termos singulares que não em geral as variáveis, tenha desaparecido na § 38. Nenhuma das eliminações de termos singulares das §§ 37 e 38 eliminou objetos. Dada a própria natureza da técnica da eliminação, as proposições continuaram como habitantes do universo aludido no “tudo” e “algo” de “(x)” e “(∃x)”; como valores, em suma, das variáveis. O objeto x em causa na notação “xOp” que substituiu “x = [p]” é ainda a proposição [p], por mais que fique sempre sem nome. Em qualquer caso, não tenho qualquer intenção de aderir a uma notação canônica sem termos singulares além das variáveis; é suficiente que tenhamos visto como podemos mudar para essa notação. (Cf. § 39.)

O propósito agora sugerido para as proposições, servirem de sucedâneos de veículos de verdade, exige que as proposições resistam à variação de valor de verdade, mas esta exigência estava já implícita no seu uso como objetos das atitudes proposicionais. Para que se considere que a frase:

1) Tom acredita [a porta está aberta]

tal como afirmada numa ocasião, se aplica, ainda que momentaneamente, aos objetos Tom e [a porta está aberta], então certamente que os dois objetos têm decididamente de ser muitíssimo específicos, por mais inadequadamente selecionados que sejam pelas palavras de 1. Tom tem de ser o ocupante humano específico de um par de sinuosos anos-esteres algures no espaço-tempo do passado e do futuro, apesar de termos de depender fortemente do nosso próprio conhecimento das circunstâncias da elocução 1 ao decidir entre vários seres humanos com o mesmo nome; e [a porta está aberta] tem de ser uma proposição específica quanto à porta e ao momento do tempo em causa, apesar de, uma vez mais, termos de depender do nosso conhecimento das circunstâncias da elocução 1 para decidir qual delas é. Vagueza, ambigüidade, fugacidade da referência, são características das formas verbais e não se aplicam aos objetos referidos.

Se queremos identificar Tom elaborando explicitamente 1, em vez de deixar essa tarefa às circunstâncias da elocução, podemos fornecer o sobrenome e o endereço ou outros pormenores. Se queremos identificar [a porta está aberta] elaborando explicitamente 1, em vez de deixar essa tarefa às circunstâncias da elocução, podemos especificar onde está a porta, e que horas se tem em mente. Em geral, para especificar uma proposição sem depender das circunstâncias da elocução, pomos no lugar do “p” de “[p]” uma frase eterna: uma frase cujo valor de verdade permanece fixo ao longo do tempo e de locutor para locutor.

As frases eternas são frases constantes (§ 9) de um tipo extremo; muitas frases constantes, e.g. “Chegou o Times”, não são eternas. Frases teóricas na matemática e nas outras ciências tendem a ser eternas, mas não têm qualquer direito exclusivo à distinção. Relatos e previsões de acontecimentos únicos específicos são também eternos quando os momentos do tempo, lugares ou pessoas em causa são objetivamente indicados ao invés de se deixar que variem com a referência dos primeiros nomes, descrições incompletas e palavras indicativas. As frases eternas não precisam também de ser vazias de significado de estímulo; um locutor pode muito bem ser levado por um estímulo a assentir a uma frase eterna e por outro a dissentir. Mas quando isto acontece, ele diz que estava enganado e que mudou de idéias à luz de novos indícios, e não que a frase mudou de valor de verdade, como acontece habitualmente com “O Times chegou”.

É de esperar que uma frase eterna não tenha palavras indicativas, mas nada impede que contenha nomes, por mais que sejam analisados gramaticalmente (§ 37), ou outros termos aprendidos ostensivamente. Termos presentes podem muito bem ter sido aprendidos com a ajuda de palavras indicativas.

Já na § 36 supusemos que a flexão fora banida da linguagem canônica. Mas as vantagens dessa jogada não incluíram a conversão para frases eternas. O efeito em 1 de banir a flexão é meramente a inserção de “agora” duas vezes e classificar os dois verbos como aflexivos. Para acabar a tarefa de eternizar a frase entre parênteses, temos de substituir o “agora” por uma data e uma hora ou algo do gênero, e temos de pôr algo mais na descrição “a porta”. Se quisermos, podemos prosseguir eternizando também as partes exteriores, substituindo o seu “agora” do mesmo modo e alargando também a referência a Tom. (Mas veja-se a § 45 para um obstáculo à eternização de afirmações de atitudes proposicionais desta maneira no caso geral.)

Não sei de qualquer boa razão para não pensar que toda a proposição é nomeável aplicando parênteses a uma ou outra frase eterna. Um plano alternativo seria permitir proposições inexprimíveis, mas isso não serviria qualquer propósito evidente. Uma razão mais corriqueira para supor que as proposições ultrapassam as frases eternas poderia ser que há muitas proposições tais que as frases eternas que lhes são apropriadas, apesar de poderem ser proferidas, nunca são, por acaso, proferidas (ou escritas). Esta idéia está errada, mas vale a pena examiná-la, pois a sua resposta é também importante para lá deste aspecto.

Prima facie, a resposta é que uma frase não é um acontecimento de elocução mas uma forma lingüística que pode ser proferida muitas vezes, uma vez ou nunca; e que a sua existência não fica comprometida caso não haja elocução. Mas não temos de aceitar esta resposta sem considerar mais precisamente o que são estas formas lingüísticas. Se uma frase fosse tomada como a classe das suas elocuções, então todas as frases improferidas reduzir-se-iam a uma só, viz., a classe vazia; bem poderiam não existir, no que respeita às proposições, pois todas as distinções entre si desaparecem. Nem gostaria de encarar uma frase como um atributo de elocuções; pois na § 43 argumentarei a favor do abandono de atributos. Mas há outra maneira de encarar as frases e outras formas lingüísticas que permite que nem a sua existência nem as suas diferenças sejam postas em causa pela inexistência de elocuções. Podemos encarar cada forma lingüística como a seqüência, num sentido matemático, dos seus caracteres ou fonemas sucessivos. Uma seqüência a1, a2, …, an pode explicar-se como a classe dos n pares <a1, 1>, <a2, 2>, …, <an, n>. (Sobre pares veja-se a § 53.) Podemos continuar a encarar cada caráter componente ai como uma classe de acontecimentos de elocução, não havendo aqui qualquer risco de inelocução.

Índice

Prefácio

  1. Começar com coisas comuns
  2. O empurrão objetivo; ou, e pluribus unum
  3. A interanimação de frases
  4. Modos de aprender palavras
  5. Indícios
  6. Postulados e verdade

    Capítulo II: Tradução e Verdade

  7. Primeiros passos de tradução radical
  8. Estímulo e significado de estímulo
  9. Frases de ocasião. Informação intrusiva
  10. Frases observacionais
  11. Sinonímia intrasubjetiva de frases de ocasião
  12. Sinonímia de termos
  13. Tradução de conectivas lógicas
  14. Frases sinônimas e analíticas
  15. Hipóteses analíticas
  16. Sobre a incapacidade para percepcionar a indeterminação

    Capítulo III: A Ontogénese da Referência

  17. Palavras e qualidades
  18. Normas fonéticas
  19. Referência dividida
  20. Predicação
  21. Demonstrativos. Atributivos
  22. Termos relativos. Quatro fases da referência
  23. Orações relativas. Termos singulares indefinidos
  24. Identidade
  25. Termos abstratos

    Capítulo IV: Caprichos da Referência

  26. Vagueza
  27. Ambigüidade de termos
  28. Algumas ambigüidades de sintaxe
  29. Ambigüidade de âmbito
  30. Opacidade referencial
  31. Opacidade e termos indefinidos
  32. Opacidade em certos verbos

    Capítulo V: Arregimentação

  33. Objetivos e pretensões da arregimentação
  34. Quantificadores e outros operadores
  35. Variáveis e opacidade referencial
  36. Tempo. Confinar termos gerais
  37. Nomes reinterpretados
  38. Comentários conciliatórios. Eliminação de termos singulares
  39. Definição e a vida dupla

    Capítulo VI: Evasão da Intensão

  40. Proposições e frases eternas
  41. Modalidade
  42. Proposições como significados
  43. Para prescindir de objetos intensionais
  44. Outros objetos para as atitudes
  45. O padrão dúplice
  46. Disposições e condicionais
  47. Um enquadramento para a teoria

    Capítulo VII: Decisão Ôntica

  48. Nominalismo e realismo
  49. Predileções falsas. Compromisso ôntico
  50. Entia non grata
  51. Mitos do limite
  52. Objetos geométricos
  53. O par ordenado como paradigma filosófico
  54. Números, mente e corpo
  55. Para quê classes?
  56. Ascensão semântica

Referências bibliográficas
Índice remissivo