Café Oriental, de Otte Sköld
1 de Dezembro de 2009 ⋅ Opinião

Como não compreender a moral

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

O pensamento moral é das coisas mais difíceis para os seres humanos. Isto poderá ser surpreendente, mas não o é se pensarmos que evolutivamente se cristalizaram práticas tribais que permitem o funcionamento social, mas tais práticas em nada estimularam a reflexão sobre a moral. De facto, o mesmo acontece com a ciência: as crenças causais que são importantes para os seres humanos sobreviverem são as mesmas que tornam o pensamento científico contranatura. O pensamento científico emerge quando algumas pessoas que reflectem muito cuidadosamente estão dispostas a abandonar as crenças causais preconceituosas e insistem na observação, experimentação e raciocínio intensos, quando o mais natural é parar pura e simplesmente de pensar e ir à vida que a morte é certa.

Muitas pessoas parecem pensar que algo como “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti” é uma máxima moral e o máximo do pensamento moral. De facto, não é uma coisa nem outra. É uma máxima idiota, e nada ter a ver com a moralidade. É idiota porque o que eu gostaria que me fizessem a mim pode ser algo que os outros não gostariam que lhes fizessem a eles. A mim gosto que me ofereçam livros de filosofia, por exemplo. Mas muitas pessoas preferem automóveis, telemóveis e coisas assim. E nada tem a ver com a moralidade porque ainda não cumpre um requisito crucial do pensamento moral: a imparcialidade.

A imparcialidade implica não dar mais valor a mim do que aos outros. E isto é incompatível com a eleição dos meus gostos pessoais como critério para o que devemos fazer aos outros.

Uma alternativa é afirmar que a moralidade começa com a máxima “faz aos outros o que eles gostariam que lhes fizessem.” Esta máxima está mais próxima do pensamento moral, e é por isso que não capta a imaginação popular. A dificuldade do pensamento moral é que implica violar uma crença intuitiva insusceptível de defesa: a ideia de que as minhas preferências me dão uma razão para agir, ao passo que as preferências dos outros não me dão tal coisa. Assim, ao passo que popularmente ninguém pára para pensar como podem as nossas preferências dar-nos razões para agir, quando se afirma que a ética implica levar as preferências dos outros a sério, exige-se uma prova matemática para isso. O que não se exige no primeiro caso, exige-se no segundo. Porquê?

Porque se pressupõe uma falsidade empírica: a ideia de que eu sou mais importante do que os outros. Mal se avança um pouco na conversa, a falsidade empírica torna-se uma impossibilidade metafísica ou uma irracionalidade: porque é óbvio que eu não sou mais importante do que toda a gente, a opinião popular é então que cada qual é mais importante para si mesmo. Isto é uma impossibilidade metafísica se quer dizer que todas as pessoas são mais importantes do que todas as outras, pois é contraditório; ou é uma irracionalidade se quer dizer que cada qual deve valorizar as suas preferências como se fossem as mais importantes, apesar de o não serem — se isto fosse racional, seria igualmente racional argumentar que devemos aceitar que por vezes, quando isso nos dá jeito, devemos aceitar que 30 menos 10 dá 40, apesar de, estritamente falando, isso ser falso.

A ideia de que as minhas preferências me dão razões especiais para agir, coisa que as preferências alheias não me dão, baseia-se numa confusão psicológica. É claro que as minhas preferências me estão continuamente presentes, o que não acontece com as preferências alheias. Isso dá-me uma intimidade que não tenho com as preferências alheias. Mas o conhecimento íntimo das minhas preferências não as torna mais importantes, a menos que voltemos a insistir que são mais importantes por serem minhas (que é o que se quer concluir, pelo que não se pode usar na argumentação, sob pena de circularidade viciosa). Além disso, as pessoas podem falar, manifestando as suas preferências — pelo que não é difícil saber quais são.

O pensamento moral começa quando se compreende que, sendo tudo o resto igual, as preferências das pessoas estão todas moralmente a par. Mal vemos isto vemos que teremos inevitavelmente conflitos de preferências. Apesar de muitas das nossas preferências não interferirem com as preferências dos outros, algumas interferem. Como fazer? Quando o meu vizinho tem a preferência de ouvir música alta isso interfere com a minha preferência de estar em silêncio a ler na minha casa. Como fazer? É aqui que começa o raciocínio moral — que nem começa se começarmos por exigir uma razão para agir quando se trata das preferências dos outros, razão que não exigimos quando se trata das nossas preferências.

A ética exige descentramento. O descentramento é contranatura. Ver o mundo apenas da sua própria perspectiva é natural no ser humano, por mais que isso seja profundamente provinciano e pueril. Não é por isso surpreendente que quando se fala de ética algumas pessoas fiquem perplexas, pois o pensamento ético parece exigir-lhes o abandono do centramento a que estão tão habituadas. Daí que surjam muitos sucedâneos do pensamento moral — ideias e máximas que parecem morais, mas não são. O contratualismo é uma cristalização filosófica desta ideia popular. A ideia é que cada qual atende apenas às suas preferências, sendo isso a única coisa racional a fazer. Mas depois vemos que isso dá em guerra generalizada. Então, inventamos uns princípios de cooperação, cada um de nós com o propósito único de assim conseguir satisfazer melhor as suas preferências.

O contratualismo, entendido deste modo, não é ainda pensamento moral, ainda que o resultado seja o mesmo. Para ser pensamento moral, o contratualismo tem de ser entendido como a demonstração de que nenhumas preferências têm mais peso do que quaisquer outras, porque numa discussão aberta e intelectualmente proba não será possível demonstrar que toda a gente deve atender às minhas preferências, não atendendo eu às dos outros. O contratualismo, entendido deste modo, é a demonstração da irracionalidade do pensamento amoral, pois este pressupõe a falsidade demonstrável e arbitrária de que as minhas preferências são mais importantes do que as dos outros, dando-me por isso uma razão para agir que as preferências dos outros não me dão.

Ironia das ironias, a ideia de que as minhas preferências me dão uma razão especial para agir que as preferências alheias não me dão é vítima de outro defeito ainda: é que não é possível ter uma vida boa limitando-me a seguir as minhas preferências, como que automaticamente e sem deliberação. Pois cada um de nós tem muitíssimas preferências, muitas das quais entram em conflito com outras. Uma pessoa tem a preferência de ser atraente e bonita e saudável, mas ao mesmo tempo tem a preferência de comer gorduras e chocolates, beber Coca-Cola e evitar comer vegetais e saladas. O que fazer? Caso não exerça qualquer deliberação, limitar-se-á a agir segundo o que podemos chamar preferências preguiçosas — as preferências de curto prazo, de carácter mais pueril e irreflectido. Será isso uma vida boa, para a própria pessoa? A ideia é que não o é, ainda que o pareça. Para ter uma vida boa, a pessoa precisa de hierarquizar com cuidado as suas diversas preferências, rejeitando as que entram em conflito com outras preferências que a pessoa irá considerar que são mais importantes. Mas tudo isto exige não só o mesmo género de trabalho de reflexão que o pensamento moral exige, como exige a aceitação de que as preferências que tenho agora não têm mais valor do que as preferências que é previsível que terei daqui a um ano. Ora, a ideia de que as preferências que tenho agora não me dão, em absoluto, mais razões para agir do que as preferências que terei daqui a um ano tem a mesma estrutura do que a ideia de que as preferências que tenho não me dão, em absoluto, mais razões para agir do que as preferências alheias.

O pensamento ético é assim duplamente alheio ao pensamento popular. Quer no que respeita ao atendimento das preferências alheias, quer no que respeita à hierarquização das nossas próprias preferências, o pensamento moral opõe-se ao imediatismo e ao pensamento à toa. Exige imparcialidade e universalidade. Exige a capacidade para olhar para as nossas próprias preferências de um ponto de vista que não seja paroquial. E qualquer olhar que não seja paroquial irá revelar que nem as minhas preferências são em absoluto mais importantes do que as de qualquer outra pessoa, nem as minhas preferências presentes são em absoluto mais importantes do que as minhas preferências futuras.

Desidério Murcho
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