27 de Dezembro de 2005   Filosofia

Reflexões centrais

Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade
de Desidério Murcho
Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2006, 197 pp.

Em Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade o leitor é convidado a visitar alguns problemas centrais de diferentes disciplinas da filosofia. Incluindo temas como o sentido da vida, o cepticismo sobre o mundo exterior, a natureza da ciência, a importância da crítica e da argumentação para a democracia, o vegetarianismo e a protecção dos animais não humanos, assim como o legado de Bertrand Russell e a natureza do tempo, trata-se de uma leitura fascinante para o grande público, sendo também esclarecedora para professores e estudantes.

Será que a vida tem sentido? Para muitas pessoas, esta é a questão fundamental da filosofia. Mas esta é uma perspectiva redutora da filosofia, que se ocupa de muitos outros problemas tão ou mais importantes.

“Como não existe entre nós grande tradição filosófica, como se pensou que pensar a saudade era a nossa filosofia possível, a verdade é que os poucos livros que vão sendo escritos nesta área raramente têm uma dimensão que não seja técnica, especializada, profissional, e o resto é, na melhor das hipóteses, ensaísmo de superfície, anémico e fútil. Mas há excepções: por exemplo, Desidério Murcho, numa linha claramente analítica, mas com uma clareza e uma inteligência exemplares, lançou um livro de iniciação a que deu o título de Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade (edição de grande qualidade gráfica na Quasi)." (Eduardo Prado Coelho, Público, 9 de Junho de 2006)

Numa linguagem clara e acessível, mas sem perder o desejável rigor, o autor apresenta e discute os seguintes problemas centrais da filosofia, entre outros:

Sobre o autor

Desidério Murcho (n. 1965) é autor de Essencialismo Naturalizado (Angelus Novus, 2002), A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Plátano, 2002) e O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003). Organizou com Aires Almeida a antologia Textos e Problemas da Filosofia (Didáctica, no prelo) e com João Branquinho a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos (2.ª edição revista e aumentada, Quasi, no prelo). É licenciado e mestre em Filosofia (Universidade de Lisboa) e prepara actualmente um doutoramento (King’s College London) na mesma área, onde é também tutor em Lógica Filosófica, Ética e Filosofia da Religião e orientador de pós-graduados. Colunista do suplemento “Mil Folhas” do jornal Público, é director da maior revista virtual portuguesa de filosofia: Crítica (www.criticanarede.com). É formador de professores de filosofia do ensino secundário.

Excerto

O filme Matrix (1999) encena, de forma vívida, um dos mais discutidos problemas filosóficos. O problema em causa é de tal modo central que afecta muitas áreas da filosofia, as mais óbvias das quais são a teoria do conhecimento e a metafísica, mas também a filosofia da linguagem e da mente.

Neo, o protagonista do filme, descobre que o mundo é completamente diferente do que pensava. Os seres humanos não vivem numa grande metrópole tipicamente americana, conduzindo automóveis e trabalhando em grandes edifícios, vivendo em pequenos apartamentos e divertindo-se em festas. Na realidade, vivem em pequenos casulos semelhantes a úteros, onde vegetam como fetos. Os seus cérebros estão ligados a poderosos computadores que produzem neles todas as sensações que uma vida normal provocaria: cheiram, vêem e ouvem coisas, falam e interagem com os outros… ou melhor, têm exactamente as mesmas sensações que teriam se fizessem todas essas coisas — sem as fazerem de facto. É como se vivessem num sonho permanente.

A ideia de que a realidade é radicalmente diferente do que pensamos tem uma longa tradição no pensamento humano. Na República, Platão ilustra-a com a chamada “alegoria da caverna”: os seres humanos são como escravos que vivem numa caverna, tomando vagas sombras projectadas nas suas paredes como se fossem realidades últimas — mas de facto são apenas sombras do que é verdadeiramente real, sombras provocadas pela intensidade do Sol, do qual os escravos, por nunca terem saído da caverna, não têm conhecimento. Na tradição religiosa, Buda recebe a Iluminação e compreende que a natureza da realidade é radicalmente diferente do que os seres humanos pensam, e esta ideia é praticamente comum a todas as religiões: a verdadeira realidade, a “realidade última”, difere radicalmente do que superficialmente parece real — e só pela fé podemos abandonar as nossas crenças falsas e acolher a Verdade e a Vida. Mesmo no pensamento teísta contemporâneo mais sofisticado o mundo quotidiano tem sempre um aspecto irreal, pois é uma espécie de escola criada por Deus para que os seres humanos possam desenvolver as suas potencialidades antes de ir ao encontro da Verdade: o Paraíso. Somos convidados por quase todas as religiões a tomar o que parece importante e real como sem importância nem realidade — a riqueza, a felicidade terrena, a saúde e o prazer são desvalorizados face à Verdade e à Vida.

No pensamento filosófico, a ideia de que “tudo” é uma ilusão recebe um tratamento mais aprofundado. O cepticismo radical, quase tão velho quanto a própria filosofia, declara que tudo o que tomamos como conhecimento é afinal Ilusão. Desde o tempo dos cépticos gregos que são discutidos os principais argumentos contra a realidade ou a natureza do mundo exterior. Dois dos principais argumentos são as ilusões perceptivas e a disparidade de opiniões igualmente prováveis. Nenhum dos argumentos é sólido, mas têm ambos exercido um enorme fascínio ao longo da história da filosofia.

O primeiro argumento defende que não podemos saber se a realidade é tal como a representamos dado haver ilusões perceptivas óbvias, e não podemos saber se não estaremos a ser vítimas de uma ilusão perceptiva radical ou global. Assim, quando ao longe nos parece existir água e afinal não há, ou quando nos parece que uma vara meio mergulhada em água parece partida e não o está, declaramos que estamos perante ilusões. Mas que razão há para pensar que as nossas percepções não são todas ilusórias? Assim, quando vemos uma árvore, podemos estar a ser vítimas de uma terrível ilusão e não existir realmente árvore alguma, ou existir algo completamente diferente.

Muitos filósofos sentiram necessidade de responder aos argumentos cépticos deste género, e a resposta clássica mais famosa é a de Descartes. Argumentou este filósofo que um Génio Maligno pode talvez enganar-me sobre todas as minhas percepções, mas para me dar uma ilusão qualquer eu tenho de existir. Sobre esta frágil tábua de certeza inabalável num oceano de cepticismo quis Descartes erguer todo o edifício do conhecimento. O mesmo tipo de argumento tinha já antes sido usado por Santo Agostinho que, depois de uma devassa vida sexual aparentemente motivada por descrenças cépticas, descobriu a Verdade em Cristo e tornou-se casto. Recentemente, o filósofo Hilary Putnam argumentou contra a hipótese céptica de tudo ser uma ilusão, insistindo que a hipótese é incoerente porque pressupõe o que se propõe colocar em causa: um mundo exterior à mente.

O segundo argumento céptico, baseado na disparidade de opiniões, exerceu menos fascínio na história da filosofia, apesar de alimentar algum cepticismo mais popular. O argumento é o seguinte: Dada a existência de várias opiniões inconsistentes, e dado que não há maneira de refutar umas e sustentar outras, segue-se que todas as nossas opiniões são ilusórias e que nada se pode saber. A primeira fraqueza deste argumento é que se parece demasiado com a falácia do apelo à ignorância. Esta falácia consiste em confundir ausência de prova com prova de ausência. Como é evidente, do facto de não haver prova alguma de que exista vida além da Terra, não se segue que não há realmente vida além da Terra.

Esta falácia é elementar, mas a sua estrutura de pensamento é a base fundamental de todos os cepticismos globais. Esta estrutura é uma forma particularmente arreigada de antropocentrismo. O filósofo Donald Davidson usa uma imagem particularmente viva para caracterizar esta estrutura de pensamento típica do cepticismo: a imagem da raposa e das uvas. Na famosa fábula de Esopo, a raposa, depois de tentar em vão alcançar as uvas que queria comer, declara que afinal as uvas são azedas. O cepticismo global apoia-se no pretenso facto de que não sabemos algo para concluir — não que as nossas capacidades cognitivas não são tão boas como gostaríamos de pensar — mas que nada há realmente para saber porque o mundo é apenas uma invenção nossa. Este tipo de cepticismo é assim incompatível com toda a investigação e consequentemente com a própria ideia de escola ou universidade. O anti-realismo, o relativismo e o cepticismo, não sendo exactamente as mesmas posições, partilham em geral esta forma de antropocentrismo que consiste em declarar ilusório o que não pode ser conhecido com toda a segurança de forma mais ou menos automática, mas antes exige a paciência da tentativa e do erro milenares, isto é, a investigação sistemática contínua.

Índice

Prefácio

  1. Matrix, cepticismo e o valor da realidade
  2. Sísifo e o sentido da vida
  3. Ciência e bruxaria
  4. Subjectivismo e antropocentrismo
  5. Zen e a arte de manutenção da filosofia
  6. Necessidade e anti-realismo
  7. Epistemologia da argumentação
  8. Filosofia, lógica e democracia
  9. Vegetarianismo ético minimalista
  10. A protecção dos animais não humanos
  11. Russell e a filosofia
  12. A morte da filosofia
  13. O tempo e a filosofia

Referências e leituras