Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade 5 de Março de 2005 · Filosofia

Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade, de Desidério Murcho
Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2006, 197 pp., 15,75 euros
Apresentação · Prefácio · Excerto · Entrevista na RDP-2
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Crítica: Expresso

Prefácio

A filosofia contemporânea entra em contacto com áreas intelectuais de todo o tipo. Para que, a longo prazo, continue a ter valor, tem a um tempo de se dar a conhecer e de conhecer essas áreas. Para que isto aconteça, tem de existir um diálogo saudável entre filósofos e não filósofos de todo o tipo.
Scott Soames

A filosofia, como as outras áreas do conhecimento, é susceptível de ser apresentada ao grande público sem tecnicismos desnecessários e sem atraiçoar a sua verdadeira natureza. Apesar de este tipo de abordagem ser já comum em Portugal no caso das ciências da natureza e da matemática — destacando-se excelentes divulgadores que são simultaneamente professores e cientistas, como Jorge Buescu — é algo que não existe no caso da filosofia. Neste caso, temos livros para especialistas e livros para o ensino, mas poucos livros para o grande público. Esta situação é infeliz e este livro procura contrariar essa tendência. Assim, ao contrário dos meus livros anteriores, este dirige-se a leigos em matéria filosófica com interesse em ler algo acessível mas sem um tom escolar. O objectivo é dar uma ideia do que se faz em filosofia — discute-se um certo tipo de ideias e usa-se um certo tipo de metodologia.

Em filosofia discutem-se ideias insusceptíveis de tratamento experimental ou exclusivamente formal. Insiste-se em pensar cuidadosamente e de forma tão sistemática quanto possível quando nem o laboratório nem a demonstração matemática nos dão respostas. Procura-se avaliar imparcialmente ideias opostas, usando da melhor maneira possível as nossas capacidades racionais para pesar as coisas. Correctamente entendida, a filosofia faz-nos mais humanos porque nos faz pensar quando o pensamento é difícil, quando a solução não é óbvia, quando não há métodos seguros que garantam resultados — quando a tentação de desistir e parar de pensar é grande.

As ideias e argumentos aqui discutidos são apenas a ponta de um enorme iceberg de ideias presentes na bibliografia especializada e introdutória. Contudo, ninguém pode estudar correctamente essa bibliografia sem antes ter sentido a realidade dos problemas filosóficos a que ela procura dar resposta. É para ajudar o leitor a sentir tal realidade que existe este livro.

O Capítulo 2 foi parcialmente publicado na revista Intelectu (n.o 8, 2003). Partes do Capítulo 3 baseiam-se em materiais publicados no Público e em Os Meus Livros. O Capítulo 5 foi originalmente publicado em língua inglesa no Bulletin of Advanced Reasoning and Knowledge (n.o 2, 2004). O Capítulo 6 foi publicado no livro Razão Mínima, org. por Luiz Paulo Rouanet e Waldomiro J. Silva Filho (São Paulo: Unimarco, 2004). O Capítulo 8 foi quase totalmente publicado na Periférica (n.o 11, 2004). O Capítulo 11 foi parcialmente publicado na Livros (n.o 19, 2000). O Capítulo 12 foi parcialmente publicado na Philosophica (n.o 16, 2000).

O Capítulo 7 foi parcialmente apresentado no colóquio Lusocom 2004 (Universidade da Beira Interior, 21 de Abril de 2004). O Capítulo 9 foi apresentado no colóquio A Ética e a Defesa dos Animais não Humanos (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 21 e 22 de Maio de 2002). O Capítulo 10 foi apresentado no colóquio A Protecção Jurídica dos Animais (Faculdade de Direito de Coimbra, 24 de Outubro de 2003).

Todos os ensaios foram revistos e adaptados, alguns substancialmente. Para não carregar o texto desnecessariamente, as referências bibliográficas foram deslocadas para o final do livro, onde se encontram igualmente sugestões complementares de leitura.

Agradeço as correcções e sugestões de André Barata, Dídimo Matos, Fátima St. Aubyn e Américo de Sousa, que me ajudaram a evitar erros e me obrigaram a repensar ideias e argumentos. Com Miguel Amen e Célia Teixeira discuti profundamente alguns dos ensaios, o que foi crucial para fazer deste um livro melhor; estou-lhes imensamente grato. As infelicidades e erros que persistirem são da minha responsabilidade.

Espero que este livro dê uma ideia correcta do que é a filosofia. Espero igualmente que o que nele se afirma não seja aceite acriticamente, mas constitua antes objecto de discussão e reflexão, de disputa e discórdia civilizada, argumentada, séria e imparcial. Se este livro o fizer pensar e argumentar e objectar e reformular, terá cumprido o seu objectivo.

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