Contemporary Philosophy of Thought
12 de Dezembro de 2003 ⋅ Filosofia da linguagem

Exame mental

Leônidas Hegenberg
Contemporary Philosophy of Thought: Truth, World, Content, de Michael Luntley
Blackwell: Oxford, 1998, 398 pp., £19,99
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Eis mais um (para mim) irritante livro da série "Contemporary Philosophy" que a Blackwell vem distribuindo há pouco mais de cinco anos.

O texto ocupa 346 páginas (letras razoavelmente grandes). Aparecem, em seguida, 468 notas de pé de página (letras pequenas), postas em nada menos do que 33 páginas. Depois disso, 14 páginas com 358 indicações bibliográficas. Enfim, cinco páginas com o índice de nomes e assuntos (letras miúdas).

Esses números mostram que temos quase duas notas em cada página. Cada nota, por sua vez, contém meia dúzia de nomes de autores (às vezes muito mais). Qual o resultado? Exasperante. Diante de uma página, "tropeço" um par de vezes. Interrompo a leitura. Vou lá para o fim do livro (p. 347 em diante), em busca da nota. Essa nota me envia para meia dúzia de livros ou artigos. Nova interrupção. Vou para as páginas finais (380 em diante), em busca de meia dúzia de títulos de livros e artigos. Localizados estes (com alguma demora, é claro), retorno à nota. Isso feito, retorno ao texto. Como já perdi o "fio da meada", obrigo-me a reler algumas linhas a fim de recuperar o "contexto" e dar sentido ao que leio. Fazer isso duas vezes a cada página de livro é um sacrifício muito grande. Conseqüência: depois deste, os livros da Blackwell serão ignorados. Ciao, mesmo!

Para "enfrentar" o livro de Luntley, tomei decisão drástica: ignorei as notas. Em apenas duas vezes, terminando a leitura de um capítulo, examinei um par de notas e (algumas) indicações bibliográficas correspondentes. Convenci-me de que fiz muito bem ignorando as notas. Recomendo ao leitor que faça o mesmo.

Luntley é "lecturer" de filosofia, na University of Warwick. Esta obra pode ser vista com um intróito às questões e aos conceitos da filosofia analítica de nossos dias. Adotando uma perspectiva fregeana (G. Frege, 1848-1925), o autor procura caracterizar a noção de "conteúdo" de que se necessitaria para explicar o comportamento (humano). Em termos gerais, sustenta que a filosofia da mente e da linguagem ocupa um posto de especial destaque na filosofia contemporânea.

Leitores que já tenham tido prévio contato com a filosofia da mente saberão avaliar (em primeira aproximação) o que Luntley discute, notando que os autores mais citados são, pela ordem, Donald Davidson, Michael Dummett, John McDowell, Willard van Orman Quine, Christopher Peacocke, Jerry Fodor, Daniel Dennett, Crispin Wright, Bertrand Russell e R. G. Millikan (sem falar dele mesmo, Luntley).

Idéia mais precisa dos temas que Luntley aborda poderá ser ganha examinando o "contents" do livro (p. v a viii).

A fim de auxiliar meu leitor, facilitando a tarefa de perceber como Luntley se posiciona diante das questões da "philosophy of thought", indico o que contêm os capítulos do livro, na ordem em que se apresentam.

Luntley 1) concorda com Frege (a filosofia da mente é aspecto fundamental da filosofia). 2) discute Russell (teoria das descrições). 3) endossa idéias de Tarski (teoria semântica da verdade). 4) acompanha Davidson (filosofia da mente está centrada no "trio" verdade, significado e inferência). 5) retoma Kant (esquemas conceptuais que se prestam para organizar o mundo real não estão separados das intuições).

O autor 6) adota certas propostas de Brouwer (fundamentos intuicionistas da lógica). 7) examina Quine (basear o conceito comum de "conteúdo de uma crença" em conceitos oriundos da física). 8) apresenta uma teoria da referência (ressaltando que i) nomes que se referem a um mesmo objeto não têm, obrigatoriamente, o mesmo papel, nas inferências; ii) duas sentenças têm diferentes significações cognitivas se despertam diferentes reações em ações racionais de pessoas que compreendam as sentenças). 9) comenta as noções de sentido e referência (defendendo a tese de que os pensamentos são modos de que os seres humanos se servem para se orientarem no ambiente em que vivem).

Em seguida, Luntley 10) examina idéias de Kripke (teoria causal da referência) e aspectos da controvérsia que se estabeleceu entre Fodor e Putnam. Segundo Putnam, "meanings ain't in the head", ou seja, as condições que tornam verdadeira uma sentença estão no mundo real. Segundo Fodor, há uma relação causal associando o que "está na cabeça" e a realidade. Em 11), o debate Fodor-Putnam é retomado, para exame de certas importantes minúcias. Enfim, Luntley chega à noção de "conteúdo contextual", sublinhando que duas sentenças expressam diferentes conteúdos sempre que é racionalmente possível que uma pessoa entenda as duas sentenças, aceitando uma e rejeitando a outra.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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