Philosophy and the City
15 de Outubro de 2009 ⋅ Filosofia

Filosofia na cidade

Rui Daniel Cunha

Que relação existe entre a filosofia e a cidade? Eis a questão a que Sócrates, numa conhecida passagem do Fedro 230d, terá respondido paradigmaticamente: "gosto de aprender. Ora, as pessoas na cidade têm algo a ensinar-me, enquanto o campo e as árvores nada me podem ensinar".

É a partir deste insight socrático de uma conexão essencial entre a reflexão filosófica e a vida na cidade que Sharon M. Meagher, professora de Filosofia na Universidade de Scranton, na Pensilvânia, organiza esta antologia de escritos clássicos e contemporâneos. Conexão essa que tem uma raiz histórica: a grande filosofia grega, a de Sócrates e dos Sofistas, a de Platão e de Aristóteles, é filha da polis ateniense.

Se o ideal socrático de uma vida filosófica é o de uma vida em busca da sabedoria, e se o espaço onde se desenrola essa procura do saber é o espaço da cidade, então segue-se que uma vida filosófica, uma vida que merece ser vivida, é uma vida na cidade, uma vida urbana. Claro que há algo nesta argumentação socrática patentemente discutível: podemos, afinal, aprender muito com a natureza, se a estudarmos adequadamente. As árvores e o campo também têm coisas de valor para nos ensinar, obviamente.

Mas as questões da filosofia são relevantes para a cidade, porque esta não consiste apenas num conjunto de edifícios e pessoas, mas também em relações sociais e políticas que necessariamente se estabelecem entre os cidadãos e para as quais a análise conceptual típica da melhor prática filosófica pode ser iluminante. E as questões da cidade, por sua vez, são relevantes para a filosofia visto que as características próprias do modo de vida urbano, bem diferentes do modo de vida tradicional, ou seja, rural, que dominou a humanidade durante séculos, alteraram, entre outras coisas, o tempo (aceleração constante) e o espaço (fragmentação permanente) da própria existência humana, e a reflexão acerca desta é uma tarefa perene da filosofia.

O livro consta de uma introdução e de duas partes distintas. A introdução (pp. 1-10) apresenta sucintamente algumas teses e reflexões da organizadora acerca do problema da relação entre a filosofia e a cidade. Nela, Sharon M. Meagher estabelece a conexão clássica, por assim dizer, entre a filosofia e a cidade: "Sócrates, Platão e Aristóteles partilharam um entendimento da filosofia como a investigação fundamental acerca da autocompreensão humana no contexto da comunidade de seres humanos. A cidade, historicamente, forneceu à filosofia a sua tarefa, porque a cidade definia o que significava ser humano" (p. 4). Eis a tese clássica na sua formulação mais básica: só na cidade se pode viver uma existência autenticamente humana. Terão razão os pensadores atenienses?

A parte I (pp. 11-230) fornece-nos um conjunto de textos filosóficos de pensadores que vão dos já referidos Platão e Aristóteles a Habermas e Foucault, passando por Thomas More, Hobbes e Rousseau, entre outros, extraídos de algumas das principais obras destes autores, seguidos de um questionário acerca dos textos escolhidos (quatro ou cinco perguntas, normalmente), de utilidade pedagógica óbvia.

A parte II, mais curta (pp. 231-303) tem um âmbito mais limitado a questões específicas, apresentando-nos um outro conjunto de textos, agora organizados em termos de casos para discussão, aos pares: sempre um texto de "Philosophy Matters" associado a um outro de "City Matters" — o duplo sentido de "matters" é intencional. Nesta parte discutem-se cinco questões específicas, a saber: "O que é uma cidade?", "O que é a cidadania?", "Como conciliar identidade urbana e diversidade?", "Como se devem planear as cidades?", e finalmente "Como construir uma cidade justa e ética?". Os contributos vão de Engels (extracto de A situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra em 1844) até Hayek (extracto de Housing and Town Planning). Igualmente nesta parte aparecem as já referidas questões para revisão e discussão, texto a texto, e de idêntica relevância pedagógica.

Em suma, trata-se de uma antologia de readings, à boa maneira dos países de língua inglesa, pensada para um público de estudantes universitários que se inicia na discussão de questões essencialmente de filosofia social e política, mas também, por exemplo, de filosofia do meio ambiente ou ainda, já fora do âmbito estrito da filosofia, dos estudos urbanos. Não abundam as antologias acerca desta temática da relação entre a filosofia e a cidade, o que torna ainda mais relevante o trabalho de Sharon M. Meagher.

Claro que a escolha dos textos é sempre discutível — presenças irrelevantes e omissões relevantes são quase inevitáveis neste género de livro. Tal situação é particularmente evidente na parte I do livro. Daí encontrarmos aqui alguns textos, a meu ver desnecessários, sobretudo na quarta secção ("Contemporary Readings: 1970-present") desta parte. É exemplo disso o texto de bell hooks (é assim mesmo, com minúscula, a grafia da autora), intitulado "Homeplace: A Site of Resistance" (pp. 175-183), cuja relevância filosófica me escapa, visto que nunca aborda a questão da relação entre a filosofia e a cidade, limitando-se a uma repetição não argumentada da tese segundo a qual o espaço privado do lar é um espaço de resistência à opressão social generalizada, pelo que dificilmente se justifica a sua inclusão nesta antologia.

O mesmo acontece com o texto de Cornel West, "Race Matters" (pp. 189-195), centrado nos tumultos da Primavera de 1992 em Los Angeles e partindo daí para uma discussão da fractura racial na sociedade norte-americana contemporânea, argumentativamente de relevância política e sociológica mas de discutível valor filosófico, creio bem — em filosofia não existe fractura racial.

Também existem outros excertos de linguagem francamente opaca, que nada favorece a apreensão do sentido do texto. Leia-se, por exemplo, "Urban Flesh: The Fragility of Dwelling" (pp. 225- 230), de Gail Weiss, e quase sentimos saudades do excerto de Heidegger ("Building Dwelling Thinking", pp. 119-124) constante desta antologia. Eis uma amostra de como não se deve escrever filosofia:

"Através de uma apropriação crítica da concepção da carne de Maurice Merleau-Ponty, Luce Irigaray enfatiza aqueles aspectos da carne que Merleau-Ponty apenas deixa entrever, quando sugere que a carne "traz um estilo de ser onde quer que exista um fragmento de ser", designadamente, as diferenciações da carne, [isto é] como a carne de alguém não poder ser trocada pela carne de outrem. A provocante compreensão de Merleau-Ponty de como a carne estiliza o ser sugere um processo contínuo de diferenciação, que não pode ser reduzido à identidade. E contudo, na medida em que estiliza, a carne também unifica, ligando gestos, movimentos, corpos e situações díspares numa textura dinâmica do sentido, que deve ser continuamente re-trabalhada, feita e desfeita" (p. 225).

A estilização do ser através da carne numa textura dinâmica de sentido? Pois, e o resto do texto vai pelo mesmo caminho. Torna-se, naturalmente, impossível avaliar o real valor filosófico de ideias tão confusamente expressas. Ou, se preferirem, o nevoeiro é aqui demasiado denso para o autor desta recensão.

Mas a grande maioria das inclusões, felizmente, é útil e relevante. Exemplo: as três primeiras secções da parte I, de Tucídides a Lewis Mumford, e também boa parte dos excertos da quarta secção.

Permito-me destacar, de entre os autores menos conhecidos — o que exclui, obviamente, "The Public Sphere", de Habermas (pp. 143-145) bem como "Panopticism", de Foucault (pp. 146-149), por exemplo — Joseph Grange e o seu texto "The Philosopher as Master of Heartfelt Contrast" (pp. 196-198). O autor enuncia e desenvolve aqui a tripla utilidade da filosofia e dos filósofos para a cidade: em primeiro lugar, a filosofia serve para construir uma Weltanschauung que esboce os contornos de uma cidade autenticamente humana; em segundo lugar, a filosofia serve para estabelecer uma hierarquização de valores publicamente debatida, que ajuda a melhorar a tomada de decisões na cidade; por último, a filosofia funciona como uma voz em defesa dos cidadãos mais vulneráveis e mais pobres. Como escreve Grange,

"o que o filósofo pode oferecer ao processo cívico é uma largueza de visão que encoraje modos alternativos de encarar os problemas. E mais, dado que se espera do filósofo [...] que forneça ideias intelectualmente coerentes e explicáveis, a comunidade pode esperar dele hipóteses testáveis, e não generalidades vazias. Deste modo, o filósofo é parte do processo experimental de desenvolvimento de melhores maneiras para vivermos em conjunto" (p. 197).

A relação entre a filosofia e a cidade atinge aqui o seu ponto fulcral: a questão essencial é saber qual é a melhor maneira dos seres humanos viverem em conjunto. Esta questão, para ser respondida adequadamente, requer a participação do filósofo. Num mundo cada vez mais urbano e mais global, fica claro que teremos cada vez mais de viver em cidades. Pensar a vida nessas cidades de modo a que essa vida urbana corresponda à melhor forma dos seres humanos viverem em conjunto — essa é uma tarefa para a filosofia.

Se a filosofia, historicamente, é filha da polis, talvez resida aqui a possibilidade de uma retribuição para com ela: contribuir para criar, através do trabalho do filósofo, uma polis mais perfeita.

Rui Daniel Cunha
Bolseiro de Doutoramento da FCT
Gabinete de Filosofia da Educação
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
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