29 de Fevereiro de 2012 ⋅ Opinião

Fazendo a ponte entre a divisão analítico-continental

Gary Gutting
Universidade de Notre Dame
Tradução de Desidério Murcho

Muitos filósofos de departamentos americanos de marcada importância são especialistas em metafísica: o estudo dos aspectos mais gerais da realidade, como o ser e o tempo. A obra principal de um dos mais proeminentes filósofos do séc. XX, Martin Heidegger, é Ser e Tempo, um estudo profundo destes dois tópicos. Contudo, quase nenhuns dos metafísicos americanos deu atenção ao livro de Heidegger.

A explicação comum desta peculiaridade é que os metafísicos são filósofos analíticos, ao passo que Heidegger é um filósofo continental. Apesar de os dois géneros de filósofos raramente se lerem mutuamente, quando o fazem os resultados podem ser desagradáveis. Um debate famoso entre Jacques Derrida (continental) e John Searle (analítico) acabou com Searle denunciando o “obscurantismo” de Derrida e este escarnecendo da “superficialidade” daquele.

A distinção entre os filósofos analíticos e continentais parece estranha, em primeiro lugar, porque contrasta uma caracterização geográfica (a filosofia feita no continente europeu, particularmente na Alemanha e em França) com uma metodológica (a filosofia feita por meio da análise de conceitos). Como observou Bernard Williams, é como dividir os carros em veículos com tracção às quatro rodas e veículos feitos no Japão. Torna-se ainda mais estranha quando nos damos conta de que alguns dos fundadores da filosofia analítica (como Frege e Carnap) eram europeus, que muitos dos centros mais importantes da filosofia “continental” estão nas universidades americanas e que muitos filósofos “analíticos” não têm interesse em analisar conceitos.

Alguma atenção à história ajuda a dar sentido à distinção. No início do séc. XX, filósofos na Inglaterra (Russell, Moore, Wittgenstein) e na Áustria (Carnap, Reichenbach, Hempel — tendo todos eles, com a emergência dos nazis, emigrado para os EUA) desenvolveram o que viam como uma abordagem radicalmente nova da filosofia, baseada nas novas técnicas da lógica simbólica desenvolvida por Frege e Russell.

A ideia básica era que os problemas filosóficos poderiam ser resolvidos (ou dissolvidos) analisando logicamente os termos, conceitos ou proposições centrais. (A análise de Russell das descrições definidas do que não existe — e.g., “O actual Rei de França” — é ainda hoje um modelo dessa abordagem.) Ao longo dos anos, houve várias formas de análises lógicas, linguísticas e conceptuais, visando todas resolver confusões do pensamento filosófico prévio e apresentando-se como exemplos de filosofia analítica. No fim, alguns filósofos, especialmente Quine, puseram em causa a própria ideia de “análise” como método filosófico distinto. Mas os objectivos da clareza, precisão e rigor lógico permaneceram, e continuam a definir os padrões de um tipo de filosofia que se autodenomina “analítica” e é dominante nos países de língua inglesa.

Aproximadamente na mesma altura em que a filosofia analítica estava emergindo, Edmund Husserl estava desenvolvendo a sua abordagem “fenomenológica” da filosofia. Também ele insistia em padrões elevados de clareza e precisão, e teve algumas relações frutíferas com filósofos analíticos como Frege. Husserl, contudo, procurava a clareza e a precisão mais na descrição rigorosa da nossa experiência imediata (os fenómenos) do que na análise lógica de conceitos ou da linguagem. Considerava que a sua fenomenologia operava ao nível fundamental do conhecimento em que quaisquer verdades de análise conceptual ou linguística se teriam de basear. Em Ser e Tempo o estudante de Husserl, Heidegger, voltou a fenomenologia para questões “existenciais” sobre a liberdade, angústia e morte. Mais tarde, pensadores franceses influenciados por Husserl e Heidegger, especialmente Sartre e Merleau-Ponty, desenvolveram as suas próprias versões de existencialismo baseado na fenomenologia.

O termo “filosofia continental” foi em grande parte, como Simon Critchley e Simon Glendinning sublinharam, invenção de filósofos analíticos de meados do séc. XX que queriam diferenciar-se dos fenomenólogos e dos existencialistas da Europa continental. Estes filósofos analíticos (Gilbert Ryle foi uma figura de proa) encaravam o apelo continental à experiência imediata uma fonte de subjectividade e obscuridade que contrariava os seus próprios ideais de objectividade e clareza lógicas. A divisão analítico-continental foi institucionalizada em 1962, quando defensores americanos da filosofia continental estabeleceram a sua própria organização profissional, a Society for Phenomenology and Existential Philosophy (SPEP), como alternativa à predominantemente analítica (mas de modo algum exclusivamente) American Philosophical Association (APA).

Nos últimos cinquenta anos, o termo “filosofia continental” passou a abranger muitos outros movimentos europeus, como o idealismo hegeliano, o marxismo, a hermenêutica e, em especial, o pós-estruturalismo e a desconstrução. Muitos destes movimentos opõem-se bastas vezes à fenomenologia e ao existencialismo, mas os filósofos analíticos consideram-nos ainda aquém dos padrões de clareza e rigor. Em resultado, como Brian Leiter sublinhou, “filosofia continental” designa hoje “uma série de tradições filosóficas que se sobrepõem parcialmente, em que algumas das suas figuras quase nada têm de comum entre si”.

O âmbito de “filosofia analítica” alargou-se igualmente ao longo dos anos. Nos anos 1950, assumia tipicamente a forma de positivismo lógico ou filosofia da linguagem comum, cada uma das quais envolvia um compromisso com modos específicos de análise (grosso modo, seguindo uns Carnap outros Wittgenstein) assim como perspectivas filosóficas substanciais. Estas perspectivas envolviam a rejeição de grande parte da filosofia tradicional (especialmente a metafísica e a ética) por serem essencialmente destituídas de significado. Em particular, não havia lugar para a crença religiosa nem para normas éticas objectivas. Hoje, os filósofos analíticos usam um conjunto muito mais abrangente de métodos (incluindo inferência quase científica a favor da melhor explicação e as suas próprias versões de descrição fenomenológica). Além disso, defende-se na filosofia analítica perspectivas ao longo de todo o espectro de posições filosóficas tradicionais, incluindo a existência de Deus, o dualismo corpo-mente e as normas éticas objectivas.

Várias formas de empirismo e naturalismo são ainda perspectivas maioritárias, mas qualquer posição filosófica pode ser frutuosamente desenvolvida usando os instrumentos da filosofia analítica. Há tomistas e hegelianos que são filósofos analíticos, e há até uma bibliografia significativa dedicada a expor os mais importantes filósofos continentais em termos analíticos. A afirmação de que trabalhar no modo analítico restringe o espectro da nossa investigação filosófica não tem já qualquer base.

Este desenvolvimento refuta a afirmação de que os filósofos analíticos, como Santiago Zabala recentemente escreveu, não discutem “as questões fundamentais que têm sido a preocupação dos filósofos desde há milénios”. Isto era verdade nos dias do positivismo, mas já não o é. A afirmação de Zabala de que os filósofos analíticos não produziram “investigação histórica profunda” está igualmente ultrapassada. Era verdadeira quando a popularidade de Uma História da Filosofia, de Russell, era sinal do desprezo analítico pela história cuidadosamente ponderada. Hoje, contudo, ainda que muitos filósofos analíticos continuem tendo pouco interesse na história, muitos dos melhores historiadores da filosofia actuais usam os métodos conceptuais e argumentativos da filosofia analítica.

Devido a estes desenvolvimentos, Leiter defendeu que já não há diferenças filosóficas substanciais entre a filosofia analítica e a continental, ainda que existam algumas diferenças importantes de “estilo”. Sugeriu também que a única diferença de princípio entre os dois campos é sociológica, que (os exemplos são meus) os filósofos de um campo desconsideram o trabalho dos do outro simplesmente devido ao seu desagrado pessoal pela lógica simbólica ou por discussões literárias e históricas elaboradas.

Concordo com muito o que afirma Leiter, mas penso que há ainda importantes diferenças filosóficas gerais entre a filosofia analítica e a continental, em todas as suas variedades actuais. Estas diferenças dizem respeito às suas concepções de experiência e razão enquanto padrões de avaliação. Tipicamente, a filosofia analítica faz apelo à experiência, entendida como intuições de senso-comum (assim como os seus desenvolvimentos e transformações na ciência), e à razão, entendida como as regras comuns da inferência lógica. Várias abordagens continentais reivindicam aceder a um domínio privilegiado de experiência que penetra sob o verniz do senso-comum e da experiência científica. Por exemplo, os fenomenólogos, como Husserl, o primeiro Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty, tentam descrever a experiência concretamente vivida da qual a experiência de senso-comum/científica é uma abstracção pálida e distorcida, como as frequências matemáticas que a óptica põe em lugar das cores que percepcionamos no mundo. Similarmente, várias versões de neokantismo e idealismo apontam para uma consciência “transcendental” ou “absoluta” que fornece o significado pleno das nossas experiências comuns.

Outras versões do pensamento continental encaram a actividade essencial da razão não como a arregimentação lógica do pensamento mas antes como o exercício criativo da imaginação intelectual. Esta perspectiva é característica dos mais importantes filósofos franceses desde os anos de 1960, começando com Foucault, Derrida e Deleuze. Sustentam eles que a lógica comum que os filósofos analíticos usam não pode senão meramente explicar o que está implícito nos conceitos com os quais por acaso começamos; tal lógica é inútil para a tarefa filosófica essencial, que consideram ser aprender a pensar para lá destes conceitos.

As filosofias continentais da experiência tentam sondar sob os conceitos da experiência quotidiana, para descobrir os significados que lhes subjazem, para pensar as condições de possibilidade dos nossos conceitos. Em contraste, as filosofias continentais da imaginação tentam pensar para lá desses conceitos para, de algum modo, pensar o que é impossível.

As filosofias da experiência e as filosofias da imaginação estão em tensão, dado que as certezas intuitivas da experiência funcionam como limites da imaginação intelectual criativa, que por sua vez põem em causa tais alegados limites. Michel Foucault exprimiu de modo feliz a tensão quando falou dos projectos rivais de crítica no sentido de “saber a que limites o conhecimento tem de renunciar transgredir” e de “uma crítica prática que assume a forma de uma transgressão possível”. Contudo, podemos considerar que vários filósofos franceses recentes (e.g., Levinas, Ricoeur, Badiou e Marion) desenvolvem filosofias que tentam reconciliar a experiência fenomenológica e a criatividade desconstrutiva.

Tendo em conta as suas diferenças substanciais, é óbvio que os filósofos analíticos e continentais teriam muito a ganhar com uma maior familiaridade com o trabalho uns dos outros, e discussões que atravessassem a divisão fariam deste um mundo filosófico melhor. Aqui, contudo, há uma falta de simetria séria entre o pensamento analítico e o continental. Isto deve-se à relativa clareza da maior parte da escrita analítica, em contraste com a obscuridade de grande parte do trabalho continental.

Devido ao seu compromisso com a clareza, a filosofia analítica funciona como uma lingua franca operativa de quaisquer ideias filosóficas. (Mesmo os autores mais difíceis, como Sellars e Davidson, encontram discípulos que escrevem comentários clarificadores.) Há, além disso, uma procura contínua de exposições analíticas das mais importantes figuras continentais. É óbvia a razão pela qual não há um mercado correspondente para, digamos, exposições de Quine, Rawls ou Kripke nas linguagens de Heidegger, Derrida ou Deleuze. Com todo o respeito pelos limites do que não se pode dizer com total clareza, uma formação em filosofia analítica melhoraria muito a escrita da maior parte dos filósofos continentais.

É claro que os filósofos analíticos teriam muitas vezes a ganhar se fossem expostos a ideias continentais. Os epistemólogos, por exemplo, poderiam aprender muito com as análises fenomenológicas de Husserl e Merleau-Ponty, e os metafísicos teriam a ganhar com as reflexões históricas de Heidegger e Derrida. Mas dada a dificuldade desnecessária de grande parte da escrita continental, a maior parte dos filósofos analíticos serão mais avisados caso se apoiem num contacto em segunda mão, por meio de fontes de fidedignas e muito mais acessíveis.

Talvez a escrita continental mais patentemente obscura (e.g., do segundo Heidegger e da maior parte dos mais importantes filósofos franceses a partir dos anos de 1960) seja uma forma de expressão literária, produzindo uma espécie de poesia abstracta a partir das suas transformações criativas de conceitos filosóficos. Isto explicaria a deslocação do interesse académico nessas obras para os departamentos de inglês e de outras línguas. Mas é difícil ver que se perca muito, no que respeita ao valor filosófico fundamental, na clareza dos comentários analíticos sobre Heidegger, Derrida e outros.

Há alguns sinais recentes encorajantes de filósofos que perseguem problemas filosóficos onde quer que sejam discutidos de modo interessante, independentemente da metodologia, orientação ou estilo do autor. Mas os textos primários dos filósofos continentais principais são ainda obstáculos desnecessário seja a quem for que procure entendê-los. O fosso continental-analítico só começará a ser superado quando os pensadores influentes do continente começarem a escrever com mais clareza.

Gary Gutting
Publicado no New York Times (19 de Fevereiro de 2012)
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