Por Que Escrevo e Outros Ensaios
6 de Julho de 2008 ⋅ Livros

Continua a ser importante ler George Orwell

Maria Filomena Mónica
Por Que Escrevo e Outros Ensaios, de George Orwell
Selecção, introdução, tradução e notas de Desidério Murcho
Lisboa: Antígona, 2008, 154 pp.
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Nunca tanto quanto nestes dias, em que assistimos à ressurreição do nacionalismo primário a propósito de um campeonato de futebol, sinto como oportuna a leitura de "O Leão e o Unicórnio", o ensaio integrado numa antologia de textos de Orwell, excelentemente traduzidos por Desidério Murcho, agora publicados pela Antígona (Por que Escrevo e Outros Ensaios). Trata-se de uma selecção feita a partir da colecção de ensaios que, em 2002, John Carey preparou para a Everyman's Library. É pena que o leitor português não tenha acesso à totalidade, mas não serei eu que me queixarei. Pelo contrário, gostaria de dar parabéns à editora pela divulgação de um escritor que os portugueses conhecem sobretudo através de obras menores, como Mil Novecentos e Oitenta e Quatro ou A Quinta dos Animais. Este pequeno livro é o grande acontecimento do ano.

Orwell, de seu verdadeiro nome Eric Blair, morreu em 1950. Muito do que disse, e desde logo o ensaio acima referido, tem de ser entendido no contexto político da época. A partir de meados de 1930, a sua atenção centrou-se na ascensão do nazismo na Europa. Na sua opinião, ao desprezarem Hitler, as classes dirigentes britânicas tinham-se tornado incapazes de compreender o perigo que o Führer representava. Orwell foi um dos primeiros a chamarem a atenção para o elemento revolucionário do nazismo, visto como um movimento de massas, e não, como dizia a maioria dos intelectuais do seu tempo, como o fruto da clique reaccionária alemã.

O pensamento de Orwell exibe um número suficiente de contradições para permitir interpretações variadas quanto à sua identificação ideológica. Para versões opostas da trajectória do seu pensamento, ver o livro de C. Hitchens, Orwell's Victory (2003), e os ensaios de S. Collini, intitulados Other People, George Orwell e Plain Speaking: The Lives of George Orwell, integrados nos recentes livros Absent Minds (2006) e Common Reading (2008). É verdade que a arrogância das classes ricas não mereceu a Orwell a fúria que dedicou à esquerda, mas isto sucedeu por ele pensar que aquelas eram inimigos a abater e não correligionários a reformar. É preciso não esquecer que, durante alguns anos, Orwell foi membro do ILP (Independent Labour Party), um grupo situado à esquerda do Labour, sendo com estes militantes que convivia diariamente. Durante os anos 1940, quando começou a escrever uma coluna regular no esquerdista Tribune — periódico de onde foram retirados alguns dos artigos agora traduzidos — continuaria a verberar os comportamentos perigosos ou ridículos dos seus camaradas.

Um dos aspectos mais interessantes de Orwell é a complexidade do seu temperamento. Além de não acreditar no Progresso, amava a Natureza de forma apaixonada. Possuía um forte sentido patriótico. Preferia o campo à cidade. Desprezava as burocracias. Suspeitava da bondade dos governos. Alimentava a esperança de que os socialistas fossem capazes de dar prioridade à liberdade em detrimento das tendências autoritárias. Para ele, o passado, o presente e o futuro continham coisas boas e más, ou seja, nem o passado era uma noite escura, nem o futuro um paraíso luminoso. No que dizia respeito aos costumes, era um conservador.

Se alguns dos seus argumentos podem parecer datados, muito do que disse mantém actualidade, nomeadamente o que escreveu sobre a linguagem dos políticos. Vazia, sem conteúdo, absurda, a retórica partidária contribuiria — e contribui — para alienar da democracia muitos dos seus apoiantes. Orwell temia que as sociedades modernas de tal forma fossem controladas pelo Estado que as liberdades acabassem por desaparecer sem que os cidadãos tivessem capacidade de resistir. Para ele, o comunismo não era o único regime com interesse em distorcer a verdade: as democracias podiam ser corrompidas por dentro.

Era por isso que dava importância às palavras que os políticos usavam. No artigo "Por Que Escrevo", usado para título desta obra, Orwell declarava: "Numa época pacífica poderia ter escrito livros ornamentais ou meramente descritivos, e poderia ter ficado quase sem ter consciência das minhas convicções políticas". E acrescentava: "O que mais desejei fazer ao longo dos últimos dez anos foi tornar a escrita política uma arte". Tendo, já então, publicado o magistral "Política e a Língua Inglesa" (aqui igualmente reproduzido) pode dormir em paz.

A compatibilização entre os dois grandes ideais de esquerda, a igualdade e a liberdade, inquietava Orwell. Mais do que a preocupação com a sorte dos desfavorecidos, evidente em muitos dos seus livros — de Caminho para Wigan Pier a Homenagem à Catalunha (também editados pela Antígona) — importava-lhe a liberdade. Para ele, era este o valor supremo. A actual situação, em que a União Europeia pretende invadir a nossa vida privada, tê-lo-ia horrorizado. Até por isso, é importante ler Orwell.

Maria Filomena Mónica

Publicado originalmente no jornal Público (6 de Julho de 2008)
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